Mamãe, eu fiz: o caso Ronivaldo e a hipocrisia ideológica

COMPARTILHE A NOTÍCIA


Para evitar julgamentos drásticos diante de atitudes incomuns, vale sempre tomar a vacina filosófica do “Nada que é humano me é estranho”. Qualquer pessoa — qualquer uma, inclusive você — pode, num momento de raiva extrema, perder o controle e cometer uma loucura. Há, inclusive, um consagrado atenuante legal para o caso, quando um crime for cometido sob “violenta emoção”. Enfim, acontece.

Contudo, somos socialmente responsáveis pelos nossos atos e havemos de responder por eles, sobretudo aqueles que respondem por funções públicas e mais ainda os que o fazem de modo representativo, pela conquista do voto dos cidadãos. Os presídios estão cheios de pessoas que foram passar longas temporadas no inferno por atos impensados — episódios que penalizam uma vida toda. Lamentável.

O vereador Ronivaldo Maia — desde a juventude um militante das causas igualitárias, inclusivas e emancipacionistas — jogou o carro que dirigia sobre uma mulher de sua relação ao fim de uma áspera discussão numa flagrante tentativa de homicídio que já lhe custou um período de prisão preventiva por alguns meses e pela qual responde judicialmente. Consta, pelo depoimento da mãe de um filho seu divulgado em telejornais, que ele a havia agredido fisicamente diversas vezes. Logo, há precedentes.

Como sabem, a Comissão de Ética da Câmara dos Vereadores arquivou um pedido de cassação de seu mandato. Somente uma edil (única mulher do colegiado) votou contra o arquivamento. Até o momento, não há conhecimento de que algum parlamentar de seu partido (PT) tenha se manifestado contrário à decisão — valendo para o caso a máxima de que “a omissão diante da opressão representa apoio efetivo ao ato do opressor”.

Apesar de manifestos de repúdio da militância feminista dos partidos de esquerda, o caso também se arrasta na Comissão de Ética do PT com a mesma morosidade dos aliados de Bolsonaro do Centrão ao tratar os “deslizes” misóginos do filho do presidente, que ironizou com escárnio os terrores da tortura psicológica a uma militante grávida, recebendo de parlamentares petistas, companheiros de Ronivaldo, veementes protestos.

Em paralelo, vale lembrar que a Comissão de ética da Assembleia Legislativa de São Paulo se posicionou favorável à cassação do mandato de seu membro Artur do Val (o “Mamãe falei”) pelos comentários deploráveis que fez — em rede privada, com vazamento de áudio — sobre o que ele julgava ser a boa receptividade das ucranianas pobres ao assédio masculino de homens estrangeiros — vadias de olho azul, seria, em resumo, sua versão.

Qualquer pessoa que acompanha a participação das lideranças de esquerda nas redes sociais recorda a unânime e implacável condenação moral que fizeram das declarações do deputado bolsonarista. O linchamento moral do “Mamãe falei” foi pauta obrigatória de postagens nas redes sociais de todos eles. Na atmosfera daquele momento, quem se omitisse se tornaria cúmplice. Foram todos para o pau.

Ora, o vereador de Fortaleza não falou: fez! O que têm a nos dizer agora, da decisão da câmara, as lideranças de esquerda no Ceará? Agirão com coerência, recriminando a impunidade, ou irão retirar de suas páginas nas redes sociais as postagens em que exigiram a cassação do fascista misógino Artur do Val — não pelo que fez, mas pelo que disse?

Para finalizar, com o fito de desestimular réplicas, posso oferecer, como cereja podre desse bolo mofado da hipocrisia moral, o caso recente em que uma celebridade militante do PT, o ator José de Abreu, ameaçou no twitter baixar a porrada na deputada federal Tábata Amaral sem que, nos dias seguintes, nenhuma crítica pública se tenha visto de militantes feministas de proa do PT, como Maria do Rosário, Márcia Tiburi e Luizianne Lins. No caso, mexer “com um não mexeu com todas”

Ricardo Alcântara é publicitário, escritor e colaborador do Focus.

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Horas antes da prisão, Vorcaro enviou mensagem a Moraes, que respondeu no modo visualização única

Vorcaro teve prisão decretada em 2020, mas instituições falharam e a porta se abriu para os crimes em série

Apostas bilionárias e suspeitas antecipam ataque dos EUA ao Irã

Café da Serra de Baturité recebe selo nacional de Indicação de Procedência

Freio de arrumação no governismo do Ceará: ambições e a difícil engenharia da chapa de 2026

MP dos datacenters caduca e ameaça planos no Ceará, incluindo planos do projeto de R$ 200 bi no Pecém

Camilo, a missão, o ruído e o desconforto de Elmano

TikTok e Omnia contestam laudo do MPF sobre Datacenter de R$ 200 no Pecém

Do jeito que vai, eleição presidencial vai ser decidida pelo eleitor “nem-nem”

A política de segurança, a lógica do crime e os gigolôs da violência

PPP do Esgoto no Ceará: R$ 7 bilhões para universalizar saneamento em 127 cidades

Genial/Quaest: Lula segue com desaprovação maior que aprovação e perde fôlego entre independentes

MAIS LIDAS DO DIA

Países da AIE aprovam liberação recorde de 400 milhões de barris de petróleo em meio à guerra no Oriente Médio

Indústria de alimentos e bebidas fatura R$ 1,39 trilhão e representa 10,8% do PIB

Banco Central inicia retirada gradual das primeiras cédulas do real

Presidente da CPMI do INSS pede revisão de decisões do STF sobre depoimentos

Fortaleza registra maior inflação do país em fevereiro, aponta IBGE

Governo anuncia pacote para reduzir preço do diesel e conter impacto do petróleo