A quarta dimensão. Por Angela Barros Leal

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A moça parecia com a minha amiga. Ou, pelo menos, parecia com a imagem que eu vira dela, no perfil de um desses meios virtuais de comunicação: uma pequena fotografia para a qual posara com marido e filhos, na qual o rosto dela mal e mal aparecia.

Mas parecia com ela, sim, com a diferença que aquela pessoa à minha frente, em uma mesa na outra ponta do restaurante, conversava com quem estava a seu lado, ria, empurrava a cadeira para trás, gesticulava, enfim, se comportava de maneira dinâmica, sem o imobilismo de uma foto.

Podia ser minha amiga virtual, eu pensava. Apesar de estamos avançados em uma tarde de sol, o salão se mantinha discretamente iluminado, imerso em uma meia penumbra elegante, por isso digo que também podia não ser a moça que eu ainda não conhecera. E não me interessava interromper animadas interações sociais, em mesas alheias, para perguntar se aquela com quem eu compartilhava espaço era quem eu pensava que fosse.

Pela foto do perfil, que eu vira diversas vezes ao longo de uma intermitente comunicação, desde que ela, pela primeira vez, me enviara uma gentil mensagem ligada ao que escrevo, pela foto minha amiga era dona de cabelos longos, lisos, alourados, testa alta encimando uma face em formato triangular, olhos escuros e um sorriso que mostrava um leve e simpático diastema (caso não fosse apenas uma sombra sobre seu rosto).

Era como se eu a conhecesse, e estivesse familiarizada com seu jeito tranquilo, com sua conversa em voz baixa, muito embora não tenhamos sequer nos falado, resumindo nosso contato à simples leitura e escrita.

Já aquela outra pessoa, que eu acompanhava com os olhos no restaurante, em visão tridimensional, não correspondia ao jeito comedido que eu imaginava ser próprio dela, da desconhecida amiga virtual. Talvez pela profissão que ela exercia – na qual a seriedade era imperativa, talvez pelos títulos relevantes, conquistados em seguras fontes –, talvez por tais fatos eu houvesse criado uma imagem dela que não se igualasse à realidade.

A cópia, ou a sósia (ou, talvez, ela mesma), possuía ombros, braços, pernas, costas. Permitia-se ver de vários ângulos. Em certo instante, ao se erguer da cadeira, vi que caminhava rápido, em passadas largas, diferente do que eu achava que seria o caminhar virtual da minha amiga. Não sei qual a razão, mas eu julgava que ela caminhasse pisando de leve, um pouco como as gueixas, em passos miúdos.

Conclusões que eu construíra a partir das duas simples dimensões de um traçado, tomando como ponto de partida uma pouco detalhada foto. As palavras digitadas, trocadas entre nós, haviam transmitido uma determinada impressão que custava a harmonizar com a pessoa sentada na mesa próxima.

O que não me impediu, finda a refeição, de me dirigir até à dita mesa onde sentava a moça, para esclarecer de vez minha dúvida. Já que havíamos agendado um encontro em um café, para nos conhecermos ao vivo e a cores, compromisso (quase) marcado lá para a metade do próximo mês, não custava nada antecipar.

Você é Fulana, perguntei à moça sentada, tocando de leve o ombro esquerdo dela. Não, não sou, foi a resposta do rosto voltado para mim. Não era ela, claro.

Então, só me resta aguardar a data do prometido café para ser apresentada a essa moça que, apesar de bem mais jovem do que eu, parece ser capaz de conhecer tanto na área da literatura e da escrita. E que ela nem sonhe que eu tornei pública essa passagem equivocada, projetando a segunda dimensão (a fotografia) para a terceira (a presença física), amparada apenas pela percepção dessa instintiva e mais segura quarta dimensão, de aspecto emocional: a do intuitivo sentimento de amizade.

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus.jor.

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