Que a nossa imprensa olhe com o devido cuidado a parceria FlixBus/Catedral

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Ônibus da empresa Kandango (Catedral), que tombou na BR-020, em Sobradinho (DF), em novembro de 2021, estava irregular e com várias multas. Divulgação/Bombeiros

Boa parte de nossas redações engoliu e reproduziu sem nenhum pudor jornalístico o release distribuído aos jornalistas tratando da chegada da FlixBus no Ceará como se fosse uma grande novidade a ser comemorada em função dos preços baixíssimos oferecido para viagens entre cidades do Ceará e estados vizinhos.

“Alemã FlixBus estreia no Ceará com passagens a partir de R$ 9,99”, apontou em manchete um conhecido jornal de um grande grupo econômico. “Uber dos ônibus passa a atuar no Ceará com passagens a R$9,99”, diz o jornal mais antigo do Estado.

Passagem a R$ 9,99 entre Fortaleza e Recife? Ora, o que está por trás disso? Já escrevi aqui que a esse preço não se anda nem cinco quarteirões de Uber ou Táxi em Fortaleza. Vejam aqui o texto no qual tudo está muito bem explicado.

Para começo de conversa, o FlixBus não tem um só ônibus de sua propriedade. Isso é facílimo de conferir até por um iniciante na profissão do jornalismo. Aqui no Ceará, e de resto no Nordeste, a mutinacional alemã usa veículos de uma empresa de Brasília chamada Catedral. Eis aqui outro texto que expõe a situação claramente.

Um novo e reluzente envelopamento com o vistoso nome FlixBus não esconde o fato que toda a imprensa deveria divulgar: a empresa  Catedral, com um longo histórico de acidentes e problemas com os legisladores, é a verdadeira operadora das viagens oferecidas e vendidas pela empresa alemã.

Uber do ônibus? Só usa esse camparação simplória quem não compreende as imensas diferenças que cercam uma operação de transporte individual e de viagens urbanas curtas com um sistema de grande envergadura que faz a economia brasileira, que tem tamanho continental, rodar.

Ora, mesmo assim a passagem é tão barata que talvez valha a pena arriscar, não é? Não, não é uma boa ideia. Há questões de segurança de grande relevância a ser considerada. A principal: Após vários acidentes causados por fadiga de motoristas, a Catedral continua operando com duplas de motoristas embarcados, situação expressamente proibida pela legislação.

Quadro extraído do site Reclame Aqui: pelo visto, a reputação da Catedral, a cara na FlixBus na região Nordeste, só não é pior porque pelo menos as reclamações são respondidas.

Uma dica às redações: dêem uma olhada no nível de avaliação da Catedral, que é a cara real da FlixBus, no conhecido e crível site “ Reclame aqui” (veja ao lado um quadro resumo). No fim das contas, péssima e não recomendável. Nos últimos seis meses, foram 432 reclamações com uma nota final de 5,6. Reputação: ruim.

Então, os preços muito abaixo dos custos reais de uma viagem de longa distância impressionam aos mais incautos e os de boa fé, mas não a maioria sábia que entende que a esmola quando é demais, até o santo desconfia.

País cujo transporte de passageiros e cargas foi estruturado no sistema rodoviário, o Brasil aprendeu com o tempo que uma legislação rígida, inclusive com a autorização das linhas a empresas bem estruturadas, acompanhada da fiscalização severa, são os melhores antídotos para combater a pirataria no setor e combater dribles oportunistas ao conjunto de regras que regem o setor.

Focus ouviu de diversas fontes que atuam na área de transporte, incluindo a fiscalização, que o drible em questão se dá de várias formas, incluindo a não montagem das estruturas de apoio e parada, conforme determina a Antt, a cada 400 km. Isso é obrigatório justamente para as operações de média e longa distância. Esse pontos de apoio são necessários para manutenção e alojamento de motoristas. Trata-se de uma medida de segurança.

Como a parceria FlixBUs/Catedral não possui essas obrigatórias estruturas de apoio, elas operam carregando duplas de motoristas no próprio ônibus, o que é completamente proibido por decisão do STF, cujo acórdão está sendo publicado nos próximos dias.

Além de tudo, da maneira que a FlexBus/Catedral atuam, a ideia indica ser a destruição do sistema formal que atua no setor e mantém custos altos para respeitar vidas e a legislação. Bancada por fundos internacionais (há muito dinheiro sobrando no mercado financeiro mundial), a FlixBus sinaliza que atua no mercado de uma forma bruta cujo objetivo parece ser tirar do mercado as empresas que atuam no setor.

Bom, há um nome para isso, mas que talvez ainda seja cedo parta usar: dumping. Dumping é uma palavra inglesa que deriva do termo “dump” que, entre outros, tem o significado de despejar ou esvaziar. A palavra é utilizada em termos comerciais para designar a prática de colocar no mercado produtos abaixo do custo com o intuito de eliminar a concorrência e aumentar as quotas de mercado. É o pior dos mundos.

Porrém, claramente e com certeza, a prática da FlixBus é o que se chama de anticoncorrencial, que se traduz pela conduta adotada por agente econômico que causa ou possa causar danos ao livre mercado e à livre concorrência, sendo indiferente o seu dolo em causar dano ou expor a perigo a concorrência.

Leia Mais

FlixBus usa empresa de Brasília para entrar no Nordeste com práticas anticoncorrenciais


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