Nunca mais. Por Angela Barros Leal

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Quando o corvo “hierático e soberbo”
penetrou pelos vitrais da janela criativa de Edgar Allan Poe, em uma noite “erma e sombria”, trazia, no bater de suas asas, a postura “egressa de eras ancestrais”. Embora a entrada dele no recinto abrisse no poeta um leve sorriso, maravilhara-se o poeta Poe com a fala da “ave rude”, da “misteriosa esfinge negra” a repetir, a qualquer questão que se lhe fosse apresentada, duas palavras sempre iguais: Nunca mais.

Imagino que a figura do corvo tenha sido o recurso literário escolhido pelo autor para ilustrar a real passagem do tempo, essa esfinge que devora todos nós, sem sequer fazer perguntas. Não é licença poética assumir que, com o avançar da idade, a voz do corvo, com seu repetitivo “nunca mais”, se torne cada dia mais audível. A listagem que personalizo é longa. Senão, vejamos.

Nunca mais vou ser “normal”, no sentido da chamada usual em bancos, órgãos públicos e atendimento médico (“Alternamos um idoso com um normal, a senhora pode esperar” – repetem os atendentes).

Nunca mais vou abrir com indiferença o resultado dos meus exames médicos. Antes, eram simples folhas de papel; hoje, me parecem o risco impresso de temidas sentenças de uma morte próxima.

Nunca mais vou aprender mandarim, nem plantar tâmaras, que frutificam a cada cem anos, esperando colher seus frutos. Não terei tempo para tanto.

Nunca mais vou subir nos galhos de uma espraiada mangueira para colher manga no pé.

Nunca mais vou escalar o telhado da minha primeira casa, e apanhar cajus maduros antes que se esborrachem no chão.

A respeito de casa, nunca mais vou pegar minha bolsa e avisar que estou saindo para almoçar com a mamãe.

Nunca mais vou gritar da cama um abença pai, abença mãe.

Nunca mais vou subir em um banquinho para pegar algo em uma prateleira alta, sem que metade da família corra para restringir meus movimentos.

Nunca mais vou ler pela primeira vez Cem anos de Solidão. Ou talvez não seja bem assim: cada livro relido é um livro novo, renovado a cada leitura.

Nunca mais vou ter filhos. Ou pelo menos, não os terei sem me transformar em notícia mundial.

Nunca mais posso passar um ano morando fora sem levar junto comigo, na viagem, meu geriatra e meu cardiologista.

Nunca mais vão chamar minha mão de mão, e sim de mãozinha, nem minha perna de perna, e sim de perninha.

Nunca mais vou correr ladeira abaixo de bicicleta, nem apanhar borboletas, nem manchar a ponta dos meus dedos no pó de suas asas.

Nunca mais vou menosprezar o valor do colágeno.

Nunca mais vou crescer, sequer um centímetro.

Nunca mais vou ter dever de casa a fazer.

Nunca mais vou querer um cachorro, um gato. Um pequeno animal de estimação. Quem cuidará deles depois de mim?

Nunca mais vou correr na chuva sem a plena consciência do resfolegar dos meus pulmões.

Nunca mais vou me olhar no espelho e encontrar meu rosto como era ontem.

Nunca mais pretendo arrancar os cabelos brancos. Levei logos anos para conquistá-los.

Nunca mais vou ter a ilusão de que as pessoas mudam.

Nunca mais vou acreditar que o Tempo traz sabedoria.

Verdade é que nunca mais devo dizer que farei, ou que deixarei de fazer, isso ou aquilo –pelo menos enquanto eu puder interferir. A vida não desperdiça momentos. Até o corvo, “ave austera e escura”, de “soleníssima figura”, sabe que qualquer dia pode ser o dia do definitivo “nunca mais”.

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder.

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