André Fernandes e os contornos do bolsonarismo na eleição de Fortaleza; Por Emanuel Freitas

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O pleito de 2024 será o primeiro em que, no solo alencarino, o bolsonarismo estará à vontade para se expressar na disputa para o Executivo.  Embora Jair Bolsonaro (PL) tenha pedido votos para Wagner (União) na eleição de 2020 (quando gravou imagens que nunca foram exibidas no Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral) e na eleição de 2022 (tendo vindo à Marcha para Jesus e ensaiando a dobradinha “capitão lá e capitão cá”), será somente com André Fernandes que o “mito” será, de fato, visto na TV e ouvido no rádio, já podendo ser visto em adesivos, bandeiras e nas redes.

A abertura oficial da campanha se deu, inclusive, com uma carreata, com a presença de Jair. André se apresenta, e faz questão de ressaltar, que é ele o candidato de Bolsonaro.

Pesquisa do DataFolha, divulgada na semana passada, informa-nos que 30% dos entrevistados, em Fortaleza, se identificam como “de direita”. Daí a razão de André ter escolhido, nos três debates até agora realizados, polarizar com Wagner pelo espólio eleitoral da direita.

Ainda na semana passada, pesquisa da Genial Quaest nos informou que 23% dos entrevistados gostariam que o próximo prefeito fosse aliado do ex-presidente (ao passo que 39% gostaria que o fosse de Lula).  A mesma pesquisa, que apontou o candidato com 14% das intenções de votos (quarto colocado), aponta seu eleitorado como majoritariamente masculino, entre 16 e 59 anos, com ensino superior, ganhando mais de 7 salários mínimos e evangélico.

O jovem deputado ainda é um desconhecido de 50% dos entrevistados e tem, exatamente por isso, a menor rejeição entre os 4 primeiros colocados (apenas 26%, contra 37% de seu oponente Wagner).

O problema para André é que, ainda segunda a pesquisa da Genial Quaest, 70% dos entrevistados não votaria em candidato apoiado por Bolsonaro. Estranho, se pensarmos que, em 2022, ele amealhou nada menos que 670 mil votos na capital, o que corresponde a 35%.

André tem a seu favor o fato de ser o candidato de capital com a maior popularidade digital, segundo matéria publicada pela Folha de São Paulo em 22 de agosto. Seu índice é de 83 pontos, numa escala que vai de 0 a 100. Não podia ser diferente para alguém que foi forjado como fenômeno político e campeão de votos nas duas eleições que disputou, e conferiu a seu pai a 13ª posição dos eleitos em 2022.

Desde que a campanha começou, o candidato concedeu duas entrevistas a sistemas de comunicação da cidade. Numa delas podem ser percebidos o que, no meu entender, são contornos, ou dimensões, do bolsonarismo no plano municipal.

Vejamos:

1 – Fim das multas a motociclistas com viseira, pois elas estariam “punindo o motociclista que já paga tanta taxa ao entregar comida para ricos”; tais motociclistas “não podem sofrer por mais abusos”. Tal discurso é puro Bolsonaro 2018.

Indagado sobre o possível aumento do número de acidentados nos hospitais, se sai com uma resposta no mínimo estranha: “Não digo que andem com a viseira aberta, mas que quem andar não será multado, a prefeitura não estará lhe roubando”. Simples assim!

2 – A AGEFIS, que “só persegue cidadão”, será extinta. Mesma postura de seu “mito” com o IBAMA e outros órgãos.
3 – Redução das Secretarias para 6 (lembre-se dos ministérios).
4 – Ciclovia “só persegue cidadão”. Retire-as!
5 – “Câmeras só perseguem e multam cidadãos, não servem para identificar bandidos”.
6 – Promessa de doação de condomínios para agentes de segurança, para deixar, não se sabe como, a cidade “mais segura”.
7 – “Em vez de fazer concurso para isso e para aquilo”, “pagar hora extra para policiais”.
8 – Guarda Municipal com poder de polícia.

Eis a plataforma de André Fernandes, esboçada em entrevistas. Uma versão municipal do plano de governo “conservador e patriota” implantado em 2019 em Brasília.

Veremos como ele será expresso no HGPE e se conquistará o coração e o voto do eleitor.

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