Soy loco por ti, América — entre livros, rum e realismo fantástico; Por Paulo Mota

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Como sempre faço quando me preparo para sair de férias, começo a explorar a literatura da região que vou visitar com pelo menos uma semana de antecedência. Gosto de temperar as longas caminhadas, as paisagens, a culinária e as atrações dos lugares com o universo criado por seus escritores.

Embarquei para uma temporada entre Cuba e o Panamá. E, sem que eu planejasse, chegou às minhas mãos o livro Do Amor e Outros Demônios, de Gabriel García Márquez, por meio da assinatura de livros que recebo mensalmente.

Esse clássico do maior escritor colombiano tem curadoria da escritora cearense Socorro Acioli, que fez um curso com Gabo em Cuba e, por sugestão dele, escreveu o excelente A Cabeça do Santo — leitura imperdível. A trama do livro sugerido por Socorro se passa em Cartagena das Índias, cidade onde García Márquez viveu grande parte da vida e onde fundou a Fundación para un Nuevo Periodismo Iberoamericano, voltada à formação de jovens jornalistas.

Em 2000, quando trabalhava na Folha de S.Paulo, tive o privilégio de ser selecionado para participar de um curso nessa escola, ao lado de jornalistas de toda a América Latina. Além de circular por aquele casarão que parecia saído do próprio realismo mágico de Gabo, vivi intensamente a tal unidade latino-americana cantada por Mercedes Sosa, Milton Nascimento, Violeta Parra e tantos outros mestres.

Os livros da minha assinatura são sempre acompanhados por sugestões para ampliar a experiência. E a trilha sonora da vez incluía Soy Loco Por Ti América, esse hino de Gilberto Gil e Capinam que nunca me canso de ouvir e revisitar. Nos últimos 20 anos, tenho dedicado boa parte das minhas economias a viagens pela América Latina. Mergulho no realismo fantástico dessa região e me comovo sempre que me deparo com o espelho da cultura de nossos hermanos — peruanos, uruguaios, bolivianos, argentinas, colombianos e tantos mais.

É também uma maneira de trafegar pelas veias abertas do nosso continente, revisitar as lutas de Simón Bolívar e beber da riqueza dos povos originários. Uma viagem que é física, política e poética.

Em paralelo, comecei a ler também Trilogia Suja de Havana, de Pedro Juan Gutiérrez. A cada parágrafo, sou transportado para cenas do filme Buena Vista Social Club, de Wim Wenders e Ry Cooder, onde a atmosfera e a sensualidade do povo cubano se entrelaçam com uma de suas maiores riquezas: a música de Ibrahim Ferrer, Compay Segundo, Omara Portuondo e tantos outros.

Não vejo a hora de tomar um Cuba Libre na Bodeguita del Medio, o bar preferido de Ernest Hemingway, e mergulhar nas águas de Cienfuegos, Trinidad e Varadero.

Na apresentação do livro de Gabo, é dito que, ao contrário da lenda que pinta agosto como o “mês do desgosto”, Gabriel García Márquez sempre viu nesse mês um tempo de sorte. Foi em um agosto que ele lançou *Cem Anos de Solidão*, e em muitos agostos ele colheu vitórias. Confesso que comecei este mês com essa mesma vibração e estou animado para férias com sal, sol e a energia caribenha.

E que Deus salve todos nós.

Porque soy loco por ti, América, e por seus livros, suas ruas, seus ritmos, suas lutas e suas gentes. Com o céu como bandeira e o corpo cheio de estrelas, sigo caminhando, entre páginas, canções e mares, nos braços de quem me queira — com palmeiras, com trincheiras, com canções de guerra, e também do mar.

Paulo Mota é mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, especialista em Comunicação Estratégica, Projetos Culturais e Gestão Pública. Ex-Folha de Sã o Paulo, El País e Banco do Nordeste. Atualmente é gerente de Comunicação e Marketing da Companhia de Gás do Ceará.

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