O visitante da noite; Por Gera Teixeira

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Aqui, nas vizinhanças de Atlanta, a tranquilidade é tamanha que se ouve o silêncio e se vê um céu estrelado como raramente se encontra nas cidades. O ar parece mais lento e a noite veste um manto que acalma até o pensamento. Vez ou outra, a cena se rompe com a aparição de um coiote. Surge na beira da mata, com passos calculados, os olhos como lâminas de âmbar refletindo a luz da lua. A uma distância segura ficamos nos olhando. Ainda não sabemos quem tem mais medo de quem.

Sei que os coiotes são criaturas de adaptação. Diferente dos lobos, não precisam de vastas florestas para sobreviver. Encontram abrigo nos campos, nas colinas e até nos limites invisíveis das cidades. Vivem na linha tênue entre a natureza e o concreto, como se tivessem aprendido a caminhar sobre fronteiras. São caçadores pacientes, mas também oportunistas. Alimentam-se do que o ambiente oferece e sabem desaparecer tão rápido quanto aparecem.

Naquela noite, o meu visitante parecia medir o território e, ao mesmo tempo, medir a mim. Permanecia imóvel, apenas o vento movia o pelo em sua nuca. Eu também não me movia. Havia algo naquele encontro que não era só curiosidade. Era como se, por um instante, reconhecêssemos que nenhum de nós pertence totalmente a este lugar. Ele, filho da terra antiga, trazendo no corpo a memória de caçadas e luas. Eu, viajante entre mundos, carregando no olhar memórias que também já não pertencem apenas a mim.

O silêncio ao redor se tornou mais denso. A noite parecia escutar. O coiote então ergueu a cabeça, olhou para além de mim e soltou um uivo curto, quase um sussurro quebrando o ar. Depois virou-se e partiu para a sombra das árvores, sem pressa. Restou apenas o som leve da relva se recompondo e o céu imenso, intocado.

Fiquei ali mais um tempo, respirando a noite e tentando compreender por que aquele encontro me deixara tão desperto. Talvez seja porque, no fundo, percebi que não era ele o intruso. Quem sabe, aos olhos do coiote, eu é que estava sendo observado no território dele.


Gera Teixeira é empresário ítalo-brasileiro com atuação nos setores de construção civil e engenharia de telecomunicações. Graduado em Marketing, com formação executiva pela Fundação Dom Cabral e curso em Inovação pela Wharton School (EUA). Atualmente cursa Pós-graduação em Psicanálise e Contemporaneidade pela PUC. Atuou como jornalista colaborador em veículos de grande circulação no Ceará. Integrou o Comites Italiano Nordeste, órgão representativo vinculado ao Ministério das Relações Exteriores da Itália. Tem participação ativa no associativismo empresarial e sindical.

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