Do fundo do poço; Por Angela Barros Leal

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Não era a primeira vez, nem seria a última, que um motorista estacionava o carro diante do portão da garagem dele. Da cozinha da casa, de olho nas câmeras, havia visto um carro de grande porte bloqueando metade do portão, atrapalhando sua saída.

Era um fato que acontecia há quarenta anos, desde quando se mudara para aquele endereço, na época quase deserto, e que vinha se intensificando depois da construção de um colégio imenso, a pequena distância.

Tomou o café da manhã ruminando vinganças. Abominava qualquer invasão ou desrespeito a seu território. Enfurecia-se com os vizinhos que passeavam os cães, e faziam questão de desconhecer as regras básicas de coleta. Cansara de recolher os dejetos caninos com uma pá, encher com eles um envelope grande, e depositar a “carta” na portaria do prédio ao lado, o maior foco de descumprimento de leis básicas de convivência.

Sabia ser alvo de comentários na vizinhança (o “velho reclamão”, o “velho inconveniente”), o que não o incomodava: valorizava sua missão de disciplinar o respeito social em seu entorno, ainda que forçosamente.

Tão logo terminou de comer, abriu o portão e se dirigiu ao carro invasor. Prendeu no vidro dianteiro, com a pressão do braço móvel do limpador de para-brisa, bem em frente ao assento do motorista, o aviso em folha A-4 que imprimira há algum tempo.

A mensagem era clara, reforçada pelas letras maiúsculas e pelo negrito: “VOCÊ ESTÁ ATRAPALHANDO MINHA ENTRADA E SAÍDA. FAVOR NÃO REPETIR. TRATA-SE DE UMA QUESTÃO DE BOM SENSO, E DE BOA EDUCAÇÃO”.

Mais tarde, também consultando as câmeras, viu que se tratava de uma motorista, uma mulher alta e bem vestida, que antes de sair com o veículo colocara uma criança pequena no banco traseiro. Não amassara nem rasgara o aviso, como muitos costumavam fazer.

Já vira de tudo, em termos de reações a seu recado. O mais usual, por parte dos homens, era dar uma volta em torno do carro infrator, em busca de danos: um risco feito com a ponta de uma chave, um afundamento na carroceria, causado por um chute estratégico, um pneu deixando escapar o ar.

Ele estava sempre pronto para as respostas que viessem a ocorrer, e atendia a campainha com um pesado bastão de madeira ao alcance da mão. Nunca se sabe.

No dia seguinte, a campainha tocou logo cedo. Pelo olho fiel da câmera, viu que se tratava de uma mulher alta, segurando alguma coisa nas duas mãos. Abriu devagar o portão, sem esquecer o inseparável bastão de madeira. Alguém com más intenções poderia estar por perto.

O que a mulher segurava nas mãos era um colorido jarro de flores naturais, que passou às mãos dele com um pedido de desculpas. Era uma pessoa bem educada, justificara-se. Não costumava avançar sobre o direito do outro, muito menos fazer o que fizera, porém naquele dia algo especial acontecera.

Ela sabia que estava errada, estacionando o carro diante da garagem dele, e pedia compreensão para a falta. Daí o jarro de flores. O que acontecera: o marido se encontrava hospitalizado. O colégio promovera a festinha do Dia dos Pais, e a filha pequena, desolada pela ausência paterna, pedira que a mãe colocasse o pai em vídeo, pelo telefone celular, para que todos compartilhassem da mesma celebração.

Era a razão da pressa dela em chegar na hora, e estacionar o veículo cometendo a transgressão que causara a irritação dele.

O homem estava pronto para tudo, menos para a gentileza.

As camadas da armadura invisível que ele usava, diariamente, foram caindo à sua volta, em silencioso estrondo, fazendo companhia ao inútil bastão, derrubado também ao chão.

As lágrimas que desciam pelo rosto da mulher foram buscar, no fundo do poço, onde ele achava que nem existissem mais, as lágrimas dele. Pela primeira vez em tantas décadas sentiu-se desconfortável com sua cruzada disciplinadora: desconhecia o que se passava com o outro.

Que vida, essa – comentaria depois com a mulher, olhando o vaso de flores posto no beiral da janela. Que vida.

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Atlas/Focus: Elmano avança entre os mais velhos e nas faixas de maior renda; Ciro concentra vantagem entre jovens

Atlas/Focus a seis dias da eleição: Elmano 49% x Ciro 47,6%

Coligação de Ciro Gomes tenta barrar pesquisa Atlas/Focus, mas TRE rejeita e impede censura

Atlasintel: A polícia e a confiança que ainda resiste

Atlas/Focus: Lula mantém vantagem larga no Ceará, mas avanço de Flávio reduz distância

Atlas + Focus: Cid lidera consolidado, Luizianne encosta e Wagner mantém disputa aberta entre os três primeiros

Focus/Atlas: O placar muda com Elmano 48,5% x Ciro 48% e disputa entra na reta final em claro empate técnico

Entenda a super sexta-feira: três pesquisas e três fotografias em uma disputa que continua aberta

O fundamento da crise se deu quando a política passou a pedir ao Supremo que resolvesse a política

Alerta: IA se organiza sozinha, forma uma “gangue” e ataca

Três pesquisas medem o mesmo Ceará e encontram distâncias diferentes entre Ciro e Elmano

Focus + Atlas para o Senado: Cid e Luizianne empatam na liderança; Wagner e Alcides travam disputa pela direita

MAIS LIDAS DO DIA

Ciro Gomes e o Ceará de hoje; Por Ricardo Alcântara

A banalidade do esquecimento e da recordação; Por Paulo Elpídio de Menezes Neto

Contrata+Brasil chega a Fortaleza com foco em pequenos negócios

Quaest: três medidas recentes de Lula, incluindo bets, têm apoio da maioria na reta final da eleição

Siará Tech Summit 2026 transforma o Centro de Eventos no Pavilhão da Inovação

Coligação de Ciro Gomes tenta barrar pesquisa Atlas/Focus, mas TRE rejeita e impede censura

TSE trava campanha de Roberto Cláudio e Wagner

Atlas/Focus a seis dias da eleição: Elmano 49% x Ciro 47,6%

Atlas/Focus: Elmano avança entre os mais velhos e nas faixas de maior renda; Ciro concentra vantagem entre jovens