Focus Colloquium com Marco Dalpozzo: o militante do vento e da sustentabilidade

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O economista Marco Dalpozzo, sócio da Organizações Contemporâneas, professor da Fundação Dom Cabral e membro do conselho consultivo do Coppead (UFRJ).

 A terra do vento: desenvolvimento que avança, sustentabilidade que desafia
Focus Colloquium com Marco Dalpozzo — economista e empresário
Veja a entrevista completa 

A abertura

Italiano de Bolonha, há mais de três décadas entre Brasil e Itália, Marco Dalpozzo enraizou-se no Ceará há 25 anos. Fez carreira como executivo de RH (Unilever, Vale, L’Oréal, CBF), tornou-se consultor e professor (FDC e FAAP) e, no litoral, empreendeu com o Grupo e*Vila Kalango (Jericoacoara), Rancho do Peixe (Preá) e Surfinsemfim. Ele chama o Ceará de “terra do vento”: ventos alísios constantes que trouxeram esportistas, turistas e investimentos — e o dilema central do nosso tempo: crescer preservando.

Por que importa

  • O litoral cearense virou vitrine global de turismo de vento e de experiências.

  • A pressão por mais renda e infraestrutura disputa espaço com meio ambiente, ordenamento e comunidade.

  • O caso Jeri–Preá é um laboratório brasileiro para o equilíbrio entre negócio e natureza.

As ideias-força de Dalpozzo

  • Negócio + natureza é possível: “É possível fazer negócio com a natureza, aprimorando a natureza.

  • Execução, não lei: “O problema não é legislativo; é aplicar e fiscalizar a lei.

  • Comunidade conta: “Jericoacoara tem uma comunidade forte que freia excessos; no Preá, o business puro fala mais alto.

  • Escolhas de longo prazo: “Posso lucrar 25% ao ano e destruir a essência — ou 8% e deixar legado. Eu fico com o legado.

  • Custo da (não) sustentabilidade: “Sustentabilidade custa, mas o custo de não fazer é muito maior.

  • Brasil como terceira via: “Precisamos de um modelo à brasileira, entre o mercado puro e o welfare que não fecha a conta.

  • Vento como matriz limpa: “Andei 1.800 km de kitesurf, de Jeri ao Oiapoque, sem gasolina — vento é a ‘gasolina’.

O fio da narrativa

Dalpozzo encontrou no vento o norte do empreendimento. Desde os anos 1990, sua tese prática foi simples e exigente:

  1. Gente primeiro — respeito e protagonismo dos locais.

  2. Baixa interferência — arquitetura e materiais do lugar.

  3. Experiência ao vento — esporte, hospitalidade e paisagem preservada.

Os 59 coqueiros que comprei continuam lá. Quando um morre, planto dez.

O que está dando errado

  • ROI de curto prazo: pressão por ampliar quarto, concreto e tráfego sobre duna.

  • “Lei para inglês ver”: licenças frouxas, fiscalização ausente, praia usada como via motorizada.

  • Negacionismos: “O mar subiu; uns dizem ‘sempre foi assim’. Isso bloqueia soluções.”

O que está dando certo

  • Capital natural único: vento carimbado, mar morno, downwinds diários — uma “Compostela do vento”.

  • Organização social em Jeri: conselhos, cuidado do comum, cultura que limita excessos.

  • Tecnologia suficiente no interior da costa (solar, eólica, conectividade) que ensina o essencial.

Ponto de política pública

Tem lei e está boa. Falta órgão que fiscalize e puna quem desrespeita.

Tradução em governança: capacidade estatal (prefeituras, órgãos ambientais, Detran, polícia) + pacto com setor privado e comunidade. Sem isso, o crescimento corrói o próprio ativo que o atrai.

 

Frases que ficam

  • O Brasil me adotou. Aqui, o estrangeiro não se sente estrangeiro.

  • O Brasil precisa primeiro manter de pé o que ainda está de pé; regenerar vem depois.

  • A terra do vento é uma pérola — se preservarmos, o mundo aplaude e a riqueza vem.

A síntese Focus Poder

Desenvolver preservando não é utopia estética; é estratégia econômica. Na terra do vento, quem ignorar a comunidade, o limite ambiental e a execução da lei quebra o próprio negócio. Quem alinhar lucro, paisagem e pertencimento cria valor durável.

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