A doçura que sobrevive ao disfarce; Por Walter Pinto Filho

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Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim.”
Isaías 29:13

Dezembro se aproxima…

E com ele, a temporada de muitas aparências. É quando o patrão descobre o dom da simpatia e o chefe, de súbito, recorda o nome dos subordinados. É quando o bom convívio ganha sabor de ceia fria, e as taças tilintam como sinos falsos de uma fé ausente.

As confraternizações se multiplicam: salões decorados, discursos ensaiados, abraços protocolares. O clima é de festa, mas o ar — denso — carrega fingimento. Lá estão eles, os mesmos rostos que durante o ano inteiro mantiveram o semblante severo, agora sorrindo entre garfadas e clichês de gratidão. Falam de: união, espírito de equipe, e tempo de recomeçar. Palavras bonitas, ditas quase sempre com a voz confiscada.

E o trabalhador, cansado, comparece. Porque sabe que até a ausência pode custar caro. Senta-se à mesa, escuta os elogios mecânicos, aplaude por dever, ri sem vontade. No fundo, sente o gosto amargo da contradição: é o mesmo cenário em que a exploração se disfarça de apreço, o mesmo palco onde a humilhação veste roupa de confraternização.

Alguns, para aliviar a própria culpa, distribuem cestas básicas. É o dízimo da hipocrisia. Querem comprar com arroz e óleo barato o perdão por um ano inteiro de brutalidade. Imaginam que Deus também aceita doações parceladas.

Durante o ano, o temor foi o verdadeiro patrão — medo de errar, de ser cortado, de não bater a meta. Agora, o mesmo sistema que o oprime oferece refrigerante e palavras doces como prêmio pela docilidade.  Alguns acreditam mesmo no rito. Outros fingem acreditar, porque fingir é mais seguro. E quando o brinde final ecoa, há quem sinta um alívio: acabou-se a cerimônia da mentira. A vida real, com sua aspereza habitual, já os espera na dura jornada.

Nietzsche escreveu que “as pessoas mentem mais por hábito do que por malícia”. Talvez por isso esses encontros se repitam, ano após ano, como um teatro que já esqueceu o enredo. Não é crueldade — é costume. O ser humano aceita a própria falsidade, e a chama de convivência. O erro não está no riso, mas na obrigação de rir.

Mas há outros encontros — sem rótulos, sem discursos. São os que acontecem no dia comum, entre amigos, onde o afeto não precisa de data nem de plateia. É o café repartido, a conversa na calçada, o abraço que chega sem motivo. A vida, quando é sincera, já é celebração. Sim, celebrem o Natal — mas vivam o espírito todos os dias.

Dezembro é muito bonito por fora. Por dentro, há muito disfarce. Mas há um consolo — alentado, quase sagrado: o olhar das crianças. Talvez o verdadeiro Natal more no olhar delas — o último espelho limpo num mundo de rostos disfarçados.

*Walter Pinto Filho é Promotor de Justiça em Fortaleza, autor dos livros CINEMA – A Lâmina que Corta e O Caso Cesare Battisti – A Confissão do Terrorista. www.filmesparasempre.com.br

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