Por que o data center do TikTok no Pecém pode redesenhar a economia do Ceará

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Datacenter. Foto: Reprodução/Freepik

A construção do que deve ser o maior data center do Brasil, um investimento estimado em R$ 200 bilhões no Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CE), marca um movimento de expansão da infraestrutura digital no país e consolida o Ceará como ponto estratégico para operações de nuvem. O projeto, desenvolvido em parceria com empresas como Omnia e Casa dos Ventos, reúne fatores decisivos para sua localização no Estado: disponibilidade de energia renovável em larga escala, conexão direta com a principal malha de cabos submarinos que liga o Brasil à América do Norte, Europa e África, além de um ambiente tributário competitivo. A iniciativa também coloca em pauta impactos econômicos, demanda energética e eventuais desafios socioambientais associados a empreendimentos de grande porte.

O que está sendo anunciado

Se trata do primeiro data center da ByteDance (controladora do TikTok) na América Latina, com implantação na Zona de Processamento para Exportação (ZPE) do Pecém. O empreendimento deve ser executado em fases, com capacidade inicial de energia prevista em cerca de 300 megawatts e previsão de operação já a partir de 2027. Omnia, empresa de infraestrutura de data centers, e Casa dos Ventos, geradora eólica, aparecem como parceiras na operação.

Por que o Ceará?

Três fatores combinados ajudam a entender a opção pelo Pecém:

1. Conectividade submarina: Fortaleza é o principal ponto de aterragem de cabos submarinos no Brasil, concentrando a maior parte do tráfego internacional do país. A proximidade com esses hubs reduz latência (tempo de resposta) e o custo para operar serviços exportáveis, um ponto crucial para plataformas que disputam clientes globais por desempenho.

2. Energia renovável abundante: o projeto foi anunciado com compromisso de operação com energia 100% renovável, principalmente eólica, por meio de parques dedicados que serão conectados ao empreendimento. O Brasil ampliou fortemente a geração eólica e solar na última década, o que torna a oferta local de energia limpa um atrativo para centros de dados que buscam reduzir emissões e cumprir metas de sustentabilidade.

3. Incentivos e estrutura portuária/ZPE: a instalação na ZPE do Pecém facilita operações orientadas à exportação e tende a oferecer benefícios fiscais e logísticos que tornam o projeto mais competitivo frente a outras localidades. Além disso, pacotes regulatórios recentes (como regimes especiais para datacenters) têm estimulado o interesse de investidores.

Potenciais impactos econômicos

Geração de empregos: relatos iniciais apontam a criação de milhares de postos, entre temporários (obra) e permanentes (operação e cadeia local), além de demanda por serviços de logística, construção, segurança e manutenção. Estima-se que mais de 4 mil empregos diretos em fases de implantação e operação inicial.

Ativação de fornecedores: um projeto dessa escala tende a mobilizar fornecedores nacionais em eletrônica, construção, engenharia elétrica, e também de serviços especializados (consultoria, telecom, segurança). A presença de um hiper-hyperscale client como a ByteDance pode atrair outros grandes players para a região.

Receitas e exportações de serviços: ao operar com foco em exportação de capacidade de processamento e armazenamento, o centro pode aumentar receitas cambiais do Estado e do país, mudando parte da balança de serviços digitais no Nordeste.

Energia e meio ambiente

Data centers consomem muita energia e geram calor significativo; por isso, o tema climático e de recursos naturais aparece central:

Consumo elétrico: estudos e levantamentos do setor mostram que a fatia dos data centers no consumo elétrico vem crescendo e, em escala global, já representa parcela relevante da demanda. Embora o projeto venha atrelado a energia renovável, é preciso planejar integração com a rede para evitar sobrecarga e garantir estabilidade.

Refrigeração e água: dependendo da tecnologia de resfriamento usada, data centers podem demandar volumes consideráveis de água (em sistemas evaporativos) ou infraestrutura robusta de resfriamento líquido. A opção por soluções mais eficientes e por fontes hídricas compatíveis com a disponibilidade local será determinante para minimizar impactos.

Uso de terra e biodiversidade: parques eólicos e a própria expansão física do complexo devem respeitar análises ambientais e condicionantes locais, sobretudo por se tratarem de áreas costeiras com ecossistemas sensíveis.

Riscos e desafios regulatórios

Dependência de incentivos fiscais: a atratividade do projeto passa por regimes especiais que reduzem tributos de importação e operação. Isso levanta debates sobre custo-benefício para o fisco e sobre cláusulas de contrapartida social e ambiental exigidas do investidor.

Segurança e soberania de dados: a instalação de grandes servidores em território nacional envolve discussões sobre jurisdição, proteção de dados e requisitos de resiliência frente a riscos físicos e cibernéticos. Políticas públicas e acordos contratuais precisam estar alinhados.

Pressão sobre infraestrutura local: a chegada de um grande consumidor de energia e banda pode exigir reforços na malha elétrica, nas estradas, no porto e na oferta de mão de obra qualificada, o que demanda coordenação entre governo, empresas e instituições de formação técnica.

O que muda para o Ceará e para o Brasil

Se o projeto avançar conforme anunciado, o Ceará pode consolidar-se como um dos grandes polos digitais da América do Sul, beneficiando-se de sua posição geográfica e da expansão das renováveis. A presença de um cliente dessa escala do TikTok pode acelerar investimentos em formação técnica, atração de fornecedores e ampliação da infraestrutura de fibra e energia no estado. Ao mesmo tempo, trará à tona a necessidade de regras claras de governança, garantias ambientais e mecanismos de participação local nos ganhos econômicos.

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