
Não vou contar em fino detalhe como tudo aconteceu. Foi algo privado, causador de ondas de choque de sofrimento, foi algo que a mim não pertence, mas que tem me servido de lição. É suficiente que se saiba a essência do fato, de como tudo começou quando ele sentiu, em um finzinho de tarde, aos 45 anos de idade, que estava morrendo.
Até então tinha sido um homem prático, objetivo, mergulhado em números. Um vitorioso, conforme comprovava seu renome em uma carreira paulistana consolidada por cifrões, recebendo anualmente bônus de valores estratosféricos que o permitiam atender aos sonhos da esposa e das filhas.
Seus próprios sonhos não, pois sequer os tinha, além do que se mostrava claro: escalar aos mais altos postos de liderança na empresa. O foco era trabalho e mais trabalho, em um meio reconhecidamente competitivo, no qual ele se destacava pela impiedade.
Impiedade era a chave que acionava seus motores, e que aprendera a usar sem fazer ruído. Desprezava a carnificina explícita, embora mantivesse um gosto agudo por sangue. Como um elegante predador, costumava atacar quando a vítima se encontrava indefesa, distraída. Não o incomodava agir pelas costas. E era capaz de gestos violentos, de ações impulsivas. Depois, alinhava a gravata ao colarinho, empurrava o cabelo para trás, abria um sorriso e era como se nada houvesse acontecido.
Mas estava sozinho em seu apartamento quando seu cérebro começou a sangrar por dentro. A dor o derrubou ao chão e ele sentiu, pela primeira vez em sua vida, que estava morrendo.
Conseguiu arrastar-se até a porta, conseguiu chamar o elevador, e rastejou até onde estava o porteiro. Não trazia um único documento no bolso da bermuda, o que dificultou seu registro no hospital, aonde chegou inconsciente, levado por um vizinho.
A mulher e as filhas, que estavam em outra cidade, foram avisadas por amigos. Retornaram apressadas, a tempo de acompanhar a entrada dele na UTI, onde se demorou por onze dias, cada um deles uma morte e um renascimento.
O homem que deixou o hospital não era o mesmo que havia entrado. O AVC causara fundas consequências. Tinha lapsos de memória. Por algum tempo perdeu a capacidade de falar. Não conseguia executar alguns movimentos. A caneta tremia em sua mão na simples tarefa de assinar seu nome. Precisou submeter-se a meses de terapias diversas para recobrar capacidades básicas, e interagir com a família. Melhorou o suficiente para vestir paletó e gravata e retornar ao escritório, mas não o bastante para retomar sua lida com números, valores, percentuais, como estava habituado a fazer.
Estabelecera uma espécie de afinidade, um reconhecimento que nunca sentira pelo sofrimento alheio. Passara a se identificar com os que disputavam com ele os mesmos cargos. Não entendia mais o que era ambição, ou qual a razão daquela corrida cega na direção do topo. Perdera, de todo, o gosto por sangue, o instinto para a impiedade, essencial para a empresa – que impiedosamente o demitiu.
Quando os recursos financeiros se esgotaram, passou a depender da ajuda dos pais. E ele, que nunca lera um livro de filosofia, muito menos de poesia, começou a escrever poemas filosóficos. Surgiram nele questionamentos internos que jamais o haviam incomodado.
Como ele mesmo registrou no livro de poemas que está prestes a lançar, “a vida tira e, em troca, dá. Talvez seja uma verdade simples, talvez não. Fui obrigado a aceitar outra perspectiva, aquela que eu teimava em recusar como minha. Até que a vida me deteve, e não me deixou alternativa senão encarar o estranho no espelho”.
No espelho ele viu sua única certeza: “O agora é tudo o que nos é dado. O amanhã não nos pertence. A ilusão de controlar o futuro nos promete uma eternidade conveniente, onde nunca morremos”. Aprendera que “quando a dor não nos derruba por completo, ela se torna caminho e mestre. No meu caso – alguém que acreditava ter tudo sob controle, a vida, sábia, deu o seu recado: coube-me acolher o aprendizado”.
Meu querido sobrinho. Seu livro foi escrito para os que duvidam, e para os que precisam aprender a duvidar. E nada mais perfeito do que a pergunta incômoda (e irônica) com a qual você se identifica em suas redes sociais, três palavras que são como uma lâmina de prata a perfurar a consciência de quem lê: Are you sure?
Por culpa da sua experiência as minhas certezas estremeceram. Delas, acho que vai restar tão somente uma, a mais primária, a que deveria residir em todos nós: a certeza que, de um minuto a outro, tudo pode mudar.

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.







