Boca aberta do pitbull; Por Angela Barros Leal

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Alguns minutos após o estouro barulhento dos fogos indicativos da passagem do ano, minutos depois de esmaecerem as luzes coloridas no céu, de findarem os abraços coletivos, os brindes com o toque de latas de cerveja, o desejo de bons augúrios para o ano que nascia, a roda familiar de cadeiras na calçada foi surpreendida pela chegada, em desabalada carreira, de um enorme cachorro da raça pitbull.

Em retrospecto, talvez não fosse o cão tão enorme assim. Mas era sem dúvida um pitbull, de pelo escuro, resfolegante, dentes pontudos expostos, língua pendurada para fora de uma bocarra gigantesca, cujo interior foi visto bem de perto pelos que permaneceram sentados.

Mais tarde iriam lembrar que o animal não usava coleira, que vinha cansado, como se tivesse corrido uma boa distância, e que nos olhos dele havia mais medo do que agressividade. Mas essa avaliação só surgiria depois. Na hora que se aproximara da família na calçada, em uma corrida que lembrariam como se fosse em câmera lenta, as patas levantando poeira do calçamento, não houve tempo para análises do tipo.

Dispersaram-se todos, as mães, os pais, os avós, carregando filhos e netos no colo, fugindo em todas as direções, distanciando-se daquele monstro que dava indícios de querer iniciar pavorosa investida contra todos.

Maria, a minha sábia Maria, que vivenciou a história, permaneceu sentada. Tinha assistido no Instagram alguém dizer que, em caso de ataque assim, era recomendado se manter imóvel, para não atrair a atenção do atacante (também pode ser que tivesse simplesmente congelado de medo, nem ela sabe ao certo).

O cão deu duas voltas ofegantes em torno da cadeira dela, os olhos brilhando feito os fogos que tinham acabado de estourar. Como o portão estava aberto, o animal disparou de terreno adentro. Mais do que depressa, todos acorreram para fechar o portão, deixando o cachorro preso no território da casa. A família buscou refúgio no vizinho, insegura sobre o que fazer.

O genro da Maria, dono da casa ocupada, armou-se de coragem e entrou com um pedaço de pau na mão, pronto para se defender de qualquer avanço do animal.

Que, para sua surpresa, encontrou escondido embaixo da pia da cozinha, tremendo. Podia estar com medo, podia estar doente, quem ia saber.

Um outro vizinho, convenientemente um adestrador de animais, foi convocado a tentar resolver o imbróglio. Com experiência profissional, fez com que o pitbull saísse de onde estava, e o seguisse até o quintal, onde havia um portão. E no quintal o cachorro ficou trancado. Apesar disso, as crianças se recusaram a dormir na casa invadida e foram todos para a casa da avó, a dois quarteirões de distância.

O pitbull latiu o restante da madrugada, enquanto forçava o portão, incansável na tentativa de escapar. Os donos da casa mal dormiram, pensando no que iriam fazer para retomar de volta o lar ocupado.

Logo de manhã cedo ligaram para a Polícia. Para os Bombeiros. Para uma casa de assistência a animais. Aparentemente, o problema não era da responsabilidade de nenhuma área do serviço público, e o que era privado não se encontrava disponível.

No final do dia, Maria ouviu alguém bater palmas no portão da casa dela. A mulher para quem abriu o portão se identificou como a dona – ou tutora – do cachorro. Morava a uns dez quarteirões de distância, em outro condomínio. O troar mudo dos tambores da selva digital havia chegado até ela, e assim se dirigira à casa da Maria.

Quando começou o estouro dos fogos, o pitbull apavorado arrebentou o portão, cadeado e tudo, e disparou em rumo ignorado. Era o primeiro réveillon dele, a mulher explicou, se desculpando.

A família toda marchou de volta para onde o cão estava trancado, curiosa em acompanhar o desfecho do evento. Quando a mulher chamou o animal pelo nome, ouviram em resposta um ganido choroso, de pura emoção canina. Ao ser aberto o portão, o pitbull ergueu-se nas patas traseiras, arranhando o peito, a barriga, a calça jeans da mulher, tentando saltar para os braços dela. Parecia uma criancinha reencontrando a mãe – me disse Maria.

Ele não queria atacar ninguém – ela completou. Estava com mais medo do que a gente.

É tudo uma questão de percepção, digo a ela. Estou sensibilizada pelo final feliz, tentando, porém, extrair alguma moral para a história. E completo: O que pode parecer um ataque, muitas vezes esconde um pavor mal revelado.

Mas vá dizer isso a quem tem pela frente a boca aberta de um pitbull! – ela me responde, de olhos arregalados, e eu silencio minhas vãs filosofias. Mais uma vez, a sábia Maria tem toda razão.


Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.

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