
“N’est-ce pas un signe, tous ces intellectuels venus de tous les coins de l’horizont, qui se groupent sur une idée et que s’y tiennent innébranlables?” Georges Clemenceau
[O termo “intellectuel” foi empregado pela primeira no artigo”À la dérive“, no jornal “Autore”, do qual Georges Clemenceau era diretor, publicado em Paris, em 23 de janeiro de 1898]
Chamavam-se, outrora, “igrejinhas” esses nichos de mútua proteção ao qual se recolhiam com seus improváveis talentos, os intelectuais e os artistas. Os sindicados tinham outra serventia, na defesa de direitos sociais dos trabalhadores menos protegidos pela sorte.
Na politica, os partidos e certas facções militantes buscavam proteção e reconhecimento entre os da mesma grei. No campo das ideologias e pela motivação de pendores autoritários aliciadores, a solidariedade e as adesões eletivas cumpriam o seu papel agregador.
As oligarquias cumpriram este papel no passado, como centro de poder no qual o prestigio, a familia e os aderentes celebravam um pacto weberiano de proteção e dependência.
De todas as formas de “associação” a mais forte, além das relações de adesão e lealdade espiritual das seitas religiosas, foram os círculos intelectuais, na universidade e na “República das Letras”, isto é, nos domínios onde supostamente o saber era produzido, cultivado e compartilhado. Alguns desses centros notabilizaran-se pelo papel gerador desempenhado no berço e nas fontes de toda a civilização ocidental. Vocação e desejo contrapõem-se pela própria natureza.
Arte e militância não cabem no mesmo saco de trivialidades e ambições do poder. Talento e oportunismo não se confundem.
A dominação da Igreja sobre as fontes e matrizes da produção do conhecimento e dos dogmas da fé e da moral cederam lugar, não sem lutas ferozes de resistência, à “República das Letras”, nos albores do Renascimento [séculos XV e XVI, na Itália], anterior ao século das Luzes [Iluminismo, séculos XVII e XVIII, na França]. A este rótulo genérico atende toda a verberação intelectual, nas ciências, na literatura e nas artes, ocorrida após a fortuna cultivada do saber nos monastérios, nas bibliotecas, nos laboratórios, na tipografia, na universidade, com o advento dos sodalícios, das academias, na mídia… em pleno dominio do território da “República das Letras”.
A categoria “intelectual” que serve de abrigo até mesmo para escritores e poetas, filósofos e pensadores, é de data recente. Nasce na pia batismal graças à inspiração um tanto irônica, senão satírica, de Georges Clemenceau, jornalista, que menciona “intellectuel”, substantivo, ao referir-se aos escritores e artistas que defenderam e acusaram Alfred Dreyfuss, objeto da sórdida condenação que recebera do Exército francês. [“À la dérive”, artigo publicado no jornal “L’Aurore”, Paris. 23/01/1898].
127 anos decorridos, a palavra “intelectual” associou a classe gramatical de substantivo à de adjetivo. O uso conferiu-lhe poder para a sua designação e qualificação, em português e nas principais línguas modernas. Transformou o intelectual em militante, enquadrou-o como categoria guerreira, “influencer” na acepção gramsciana de quem tem poderes para influenciar o comportamento de terceiros.
O “Intelectual” passou a deter o “status” legítimo de uma forma acreditada de representação politica, ainda que não lhe tenha sido atribuído mandato ou lhe tenha valido eleição. O “intelectual” pronuncia-se, exala ideias e meias-verdades, exerce cargos, guardado pela proteção dos seus pares. Considera-se “trabalhador intelectual”, argui direitos próprios, inalienáveis. Interpelado na alfândega por um desses aborrecidos servidores do fisco sobre a profissão, responderá:
“Sou Intelectual!”
Não são todos, Deus sabe do que fala e do que faz. Muitas criaturas que conheço, dotadas de conhecimento, saberes e talento são intelectuais, sem que para tanto se anunciem ou pertençam a um círculo nomeado com os seus bens e saberes arrolados e convalidados por essa liturgia solidária… dos “intelectuais”…







