
[Máximo Górki compreende que a verdadeira educação vem das experiências da vida, não procedem das instituições. A universidade é “aprender a viver e pensar”…]
“Amigos quer-se-os como os vinhos raros, sutis no odor, no paladar discretos, quanto mais simples, tanto mais amados“. Otacílio Colares — “Amigos“.
Com este titulo — “as minhas universidades” –, Gorki dissimula suas memórias sobre as experiências de vida e as vivências acumuladas em relações afetivas e intelectuais. Certamente, não me calham evocações que lembrassem as recordações do imenso escritor.
As minhas “universidades” são feitas de palavras, gestos e afinidades eletivas de uma gente moldada em de barro humano, desejavelmente, insubstituivelmente, humano. Situo-as nas cidades por onde andei, pelos lugares aos quais retornei e retornaria, ainda, não fossem as imposições da idade e esse conformismo que o ato de viver nos traz.
Minha geografia sentimental cobre muitas paragens, está preenchida pelas criaturas que as habitavam. Nestas estâncias próximas ou distantes desenhei a minha carta de navegante.
Ao som do coro da Catedral de Colônia, ao refrão das beatas das novenas da igrejinha de São Pedro, na praia de Iracema, no boul’Mich em Paris, ao tempo de estudos e experimentos de vida fiz-me passageiro do tempo. No Rio de tantos janeiros, idos e vindos, dos mestres queridos e da doce cumplicidade de juventude de meus alunos, no Benfica, em um clima caloroso de sedição (sedução) permanente, com bons e bravos comparsas, prontos para mudar o mundo, vimos o tempo escorrer com as nossas provisorias e passageiras intenções.
Amigos, tenho-os solidários e bons, todos muito antigos, um pouco gastos, assim como eu, são vinhos de festejada cepa, envelhecidos nas conversas sem-fim, que nestas questões de amigos, fazemo-los para durarem. Guardo-os como os vinhos velhos, discretos e simples, ao gosto do poeta Otacilio Colares. Os novos amigos vão entrando para a confraria, com aquele “à vontade” de quem sabe será recebido com agrado.
Da família, dos laços de cumplicidade afetiva sou latifundiário de amizades e afetos consignados. Por graça e pela sorte, mais do que por merecimento.
De coisas, ideias, presunções e esperanças construímos essas “universidades” e nelas vivemos em um círculo de amorável cumplicidade. Habito uma delas por livre escolha e risco calculado e nela construí as aspirações da vida inteira.
Foi o que tentei realizar, “malgré tout”. Com sucesso, aliás, não tenho porque me lamentar…
Se valeu a pena? Por certo, como não? Estamos inteiros e cheios de coragem. Cáspita!

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