
“Houve um tempo
Em que, sem cérebro, um homem morria,
E isso era o fim; agora eles retornam”
William Shakespeare, Macbeth
Houve um tempo em que a morte era silêncio definitivo. Um ponto final sem rodapé, sem explicação, sem retorno. O corpo caía, a voz cessava, e a memória ficava entregue à fragilidade dos vivos. Hoje, não. Hoje, os mortos retornam. Não em carne, mas em fragmentos. Em imagens. Em áudios. Em mensagens guardadas. Em rastros digitais que se recusam a desaparecer.
Vivemos a era dos sobreviventes virtuais. Pessoas que partiram continuam falando nos aniversários, surgem em lembranças automáticas, reaparecem em fotografias que o algoritmo insiste em mostrar. É como se o tempo tivesse perdido a autoridade sobre o fim. Como se a ausência precisasse ser constantemente renegociada.
Isso consola e inquieta.
Consola porque ninguém quer perder por inteiro quem amou. Inquieta porque o luto pede silêncio, e o silêncio já não é respeitado.
Antes, a dor tinha um ritmo. Havia o velório, o choro, os dias difíceis, e depois, lentamente, a vida retomava seu curso. Hoje, a perda se repete. Volta em notificações. Ressurge em vídeos. Revive em memórias fabricadas por máquinas que não conhecem saudade, mas sabem reproduzi-la.
O morto retorna sem pedir licença.
E nós, vivos, precisamos aprender a conviver com fantasmas que não vêm do além, mas da nuvem.
Talvez Shakespeare estivesse nos avisando que a fronteira entre presença e ausência sempre foi frágil. Apenas mudou de forma. Antes, era o delírio, o sonho, a lembrança. Agora, é o arquivo, o backup, o histórico.
A pergunta não é mais se eles retornam. Eles retornam. Sempre.
A pergunta é: estamos preparados para conviver com esse retorno sem perder a inteireza da nossa própria vida?
Porque viver também exige saber deixar ir.
E, às vezes, o maior gesto de amor não é manter alguém eternamente acessível. É permitir que descanse dentro da nossa memória, sem ser aprisionado por telas, códigos e lembretes.
Talvez o verdadeiro descanso, hoje, seja aprender a silenciar até aquilo que a tecnologia insiste em gritar.







