A “terceira via” democrática virou Centrão; Por Paulo Elpídio

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“Viver é um ato politico”, Clodovil Hernandez, estilista brasileiro

“Nada é tão admirável na politica quanto uma memória curta”, John Galbraith

Não deveriam surpreender as falas intermitentes deste experiente gestor de oportunidades. É de Gilberto Kassab que se fala. Tampouco deverá parecer mera coincidência que ainda exista uma sigla partidária designada por “P S D”.

Na memória política brasileira, desde a restauração da democracia, após o Estado Novo, o Partido Social Democrático correu pelo centro do campo, encosto de todos os governos e base de todas as coalizões majoritárias.

Criado por Getúlio Vargas para pôr em campo um time burguês, de paletó e gravata, tinha como estratégia neutralizar o trabalhismo de Jango Goulart, braço proletário dissimulado do getulismo.

A UDN teve papel relevante eleitoral e politicamente como instrumento de legitimação do “pessedismo”. Dela, diziam os radicais de esquerda tratar-se de uma formação de direita, esteio de resistência de um liberalismo de ricos… Com a morte de Getúlio, Café Filho quase se tornou governo. Idas e vindas permitiram, entretanto, eleição e posse de Juscelino Kubitsheck, sob garantia militar. O memorável “golpe preventivo” que sob a espada de Henrique Duffles Teixeira Lott manteve por algum tempo as franquias propícias a governos eleitos com povo e voto impresso, além de outras veleidades democráticas…

“1964” teria sido, segundo analistas de prontidão, a encarnação tardia do udenismo na defesa do avanço do sindicalismo sobre o aprovisionamento de ideias democráticas em final de estoque.

Do PSD, cuidou também Getúlio e o fez com tal dedicação a oonto de incrustar na sua presidência — o genro, almirante sem belonave, nem batalhas encouraçadas em alto-mar, Ernani Amaral Peixoto. E trouxe Alzirinha, a filha querida, como ouvidora de confiança para a troca de indiscrições do poder.

A vocação governista, trazia-a, de colo, o poderoso PSD velho de guerra. À falta de uma esquerda e de uma direita com bala na agulha, o PSD, nos primeiros tempos, não recebera o apelido de “Centrão”. Mas era a “situação”, o governo personificado por figuras preeminentes e respeitáveis, naqueles tempos. Ao seu redor juntavam-se os aderentes, a larga e crescente clientela nascida aos pés dos governos. As confrontações não se travavam no campo ideológico; pesavam os interesses das oligarquias.

Tecnicamente, se assim podemos registrar o fenômeno, o PSD e as siglas que o substituíram trouxeram às antigas combinações e relações oligáquicas endogâmicas a possibilidade de redução de polarizações familiares a fatos políticos relevantes.

Com o passar do tempo, esse poderio permaneceu com o PSD, enquanto existiu. Golpes, revoluções e o que mais possa ter acontecido, mantiveram, por hábito e necessidade, a clientela habitual dos governos. Foi o caso da Arena,do PDS e do PFL. Hoje, são 37 partidos, sem bandeiras, alinhamento ou plataformas eleitorais que os difereciem entre si. São máquinas azeitadas pelas Emendas Parlamentares, com a dotação de mais de 5 bilhões de reais, por baixo, à parte o custeio atendido pelo Fundo Partidário.

Pois foi nesse cenário milionário que renasceu o PSD de Kassab, com as velas abertas ao sopro dos ventos amigos em bem sucedida navegação de cabotagem eleitoral.

Sobre o significado real dos adjetivos “social” e “democrático”, ninguém demonstrou interesse, até agora, para saber em qual acepção são empregados. Porém, claro está que o seu programa de arregimentação de recursos, coberturas e adesões úteis e desejadas pelos que detêm o controle da máquina do governo, fez escola entre nós.

Paulo Elpídio de Menezes Neto é articulista do Focus, cientista político, membro da Academia Brasileira de Educação (Rio de Janeiro), ex-reitor da UFC, ex-secretário nacional da Educação superior do MEC, ex-secretário de Educação do Ceará.

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