
Por que importa: o Ceará confirma que o empreendedorismo individual virou uma das principais portas de entrada — e permanência — no mercado de trabalho formal.
O estado soma 462,8 mil microempreendedores individuais (MEIs) em janeiro de 2026, o que representa 2,84% do total brasileiro. No Nordeste, ocupa o 3º lugar, atrás da Bahia e de Pernambuco. No ranking nacional, aparece em 10º, em um país liderado por São Paulo, seguido por Minas Gerais e Rio de Janeiro. O Amapá fecha a lista, com apenas 27,5 mil registros.

O pano de fundo: os dados constam no Enfoque Econômico nº 312, do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece), elaborado a partir de informações da Receita Federal. O estudo reforça que o MEI deixou de ser apenas um instrumento de formalização inicial e passou a funcionar como válvula estrutural de adaptação ao enfraquecimento do emprego formal.
O retrato de gênero: homens representam 55,12% dos registros no Ceará, enquanto mulheres somam 44,87%. O equilíbrio relativo desaparece quando se observa a natureza das atividades. Construção, transporte e logística são amplamente masculinos. Serviços domésticos, saúde humana e atividades pessoais concentram majoritariamente mulheres. O padrão indica a persistência de uma segmentação ocupacional guiada por construções sociais de gênero.
Onde estão os negócios: o MEI cearense está fortemente ancorado no setor de serviços. Comércio e reparação de veículos concentram cerca de um terço dos registros, seguidos por alojamento e alimentação e por outras atividades de serviços. A estrutura revela baixa diversificação produtiva e alta dependência de atividades sensíveis ao ciclo econômico.
O fator idade: a maior parte dos MEIs no Ceará está entre 31 e 40 anos, seguida pelos grupos de 41 a 50 e de 21 a 30 anos. Estudos do IBGE indicam que empreendimentos liderados por trabalhadores mais jovens tendem a apresentar menor taxa de sobrevivência, enquanto faixas etárias mais altas refletem estratégias de reinserção ocupacional no pós-2020.

Em síntese: o avanço do MEI no Ceará não é apenas sinal de dinamismo empreendedor. Ele também expõe um mercado de trabalho pressionado, em que a formalização individual funciona, ao mesmo tempo, como oportunidade, refúgio e limite estrutural de crescimento econômico.







