Minha mãe dizia que a palavra mulher trazia, em si mesma, um certo conteúdo pejorativo. E exemplificava: Se, por um triste acaso, duas mulheres são atropeladas no Centro da cidade – nas proximidades, digamos, do Mercado Central, ali onde o ruge-ruge de gente e o volume de sacolas se confunde com o barulho dos motores, e com o movimento das cargas embarcadas em carros e caminhões –, a manchete jornalística vai trazer o seguinte texto: DUAS MULHERES ATROPELADAS NO CENTRO DA CIDADE.
Se, entretanto, prosseguia minha mãe, duas mulheres fossem, por infelicidade, atropeladas diante de um dos clubes sociais da Aldeota, dali de onde se ouve o murmúrio das ondas e o ondular das palmas dos coqueiros, dali onde mais se sente o sopro salgado da maresia, onde “o mato cresce de banda” – no dizer dos que aguardam o ônibus à sombra dos paredões verdes, ostentados hoje pelos novos edifícios residenciais –, nesse caso a manchete ia ser: DUAS SENHORAS ATROPELADAS DIANTE DO CLUBE.
Dava o que pensar.
Apesar da observação, ela nada tinha de feminista. Não dispensava o salto alto e o batom, mesmo dentro de casa, e não acompanhava os chamados movimentos de liberação feminina das décadas de 1960 e 1970. Mais frequente era que abrisse um dicionário para buscar esclarecimentos, como a professora que foi por algum tempo.
Gostava de consultar dicionários. E lá estavam as expressões que respaldavam seu pensamento, associadas à palavra mulher: à toa, da rua, da vida, de programa, mulher fácil, mulher fatal. Aqui e ali, uma mulher de negócios, do lar – ou uma mulher de sociedade, como as fictícias senhoras atingidas por um veículo diante do clube.
O Aurélio, o Michaelis, exibiam a outra face da pesquisa, que ela não perdia tempo para fazer: Homem da lei. Homem de ação. Homem de bem, de Deus, de Estado, homem de letras. Homem de palavra, ou de poucas palavras. Homem de pulso, homem público – este último, de uso recomendado a um único gênero…
Minha mãe era uma pessoa prática. Não era dada a sentimentalismos, nem sofria de incontinência lacrimal. Era mais vocacionada para o silêncio, para frases curtas, do que para graves, ou longos, pronunciamentos. Por isso ouvíamos com atenção o que ela dizia, como se dava na diferenciação entre mulher e senhora, no fim das contas algo que nos parecia ser mais ligado à questão de status social.
Não era uma mulher religiosa, de terço na mão, de missa diária. Sua lei era a de não fazer mal a ninguém, e de seguir a regra de ouro: trate os outros como você gostaria de ser tratado. A escassez de fé havia herdado da mãe dela. Ao saber que um dos filhos aspirava ser padre, minha avó, que possuía carteira de chauffeur desde a década de 1930, e que revelava fotografias em um quarto escuro improvisado, cortara com firmeza: Não nasci para ser mãe de padre.
Minha mãe praticava exercício físico em casa, no tempo em que ainda não haviam inventado as academias. Curvava-se com agilidade e encostava as mãos no chão, os cabelos naturalmente escuros jogados para frente, sem um fio sequer de cabelos brancos. Tocava piano, como era de se esperar, e se destacava em La Cumparsita, dedos de tango sobrevoando as teclas.
Tinha um sorriso maravilhoso, daqueles que extraem de quem está por perto a vontade de sorrir com ela. Não lembro, durante os seus 95 anos de vida, que alguma vez tenha elevado a voz. Aborrecia-se muitas vezes, é claro, mas o aborrecimento não chegava às cordas vocais. Na nossa infância, não corria atrás de nós para repreensão. Mantinha-se parada, e com o indicador firme, apontado para seu lado direito, ordenava: Venham já aqui. E nós, de cabeça baixa, obedecíamos ao inescapável comando.
Há um dito popular: “Mãe é tudo igual, só muda de endereço”. A minha mãe não era diferente da sua mãe, das outras mães, em termos de amor, dedicação e cuidado. A verdade é que nos assemelhamos todas, cada uma com nossas características próprias.
E se hoje, dia 6 de fevereiro, peço licença para trazer minha mãe aqui, a este espaço entre colunas, é porque hoje seria o aniversário dela. Compenso o nepotismo respaldada pelo poema de Drummond, apropriadamente intitulado Para sempre: “Fosse eu Rei do Mundo/ Baixava uma lei/ Mãe não morre nunca/ Mãe ficará sempre/ Junto de seu filho/ E ele, velho embora/ Será pequenino/ Feito grão de milho.”

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.







