
Fui secretário de educação, apesar — conquanto e não obstante — de não ser politico.
Eram tempos de mudanças anunciadas, sob a liderança de um empresário de sólida compleição política, na acepção verdadeira, respeitosa e maiúscula da palavra.
As antigas oligarquias rural-urbanas, fortalecidas com a presença dos “coronéis”, portadores de patentes militares reais (Virgílio, Cals e Adauto), iriam defrontar-se com as novas lideranças civis, saídas do setor moderno da economia cearense. Os “jovens empresários”, com Tasso Jereissati e Beni Veras, amparados pelo prestígio e a larga influência do CIC [O “Centro Industrial do Ceará”, fundado em 1919, passara a representar o “lado moderno” da economia do Ceará], abraçavam a bandeira do “movimento das mudanças” sob a liderança de Amarílio Macedo.
Gonzaga Mota apontará, é verdade, como o primeiro sinal de ruptura com o “coronelismo”. Feito governador por eleição direta, a primeira desde 1964, saiu de indicação pessoal de VT. A intervenção cirúrgica, persistente e determinada, no modelo oligárquico de governo (mas não o golpe de misericórdia que muitos aguardavam), viria, entretanto, com Tasso e Ciro.
A acomodação inevitável aos interesses dominantes, ainda que politicamente previsível, ocorreria graças à renovação das alianças ancestrais. A força de interesses compartilhados no correr de gerações é incontrolável; a história está aí para não nos deixar mentir.
Cogitado, rejeitado, ungido, finalmente, em um grupo de homens e mulheres, procedentes de horizontes ideológicos diversos, pesou em meu favor a “folha corrida” contraída em 1964, e o saldo bem temperado de uma gestão irrigada pelas ideias que pude desenvolver à frente da nossa Alma Mater, a pioneira Universidade do Ceará.
[Não busquei apoio, não postulei a indicação, fui convidado por Beni Veras, em nome do Governador. Fechei minhas gavetas no Ministério da Educação, bati o pó brasiliense, e exonerei-me da Secretaria Nacional de Educação Superior, no pico do governo Sarney, ministro o senador Jorge Bornhausen.
Do balcão de trocas que deu vida e viço às oligarquias cearenses, a educação terá sido, historicamente, o canal mais eficiente para os ajustes essenciais para uma equilibrada governabilidade de interesses majoritários.
Tasso Jereissati brandiu a flama (melhor teria sido “as armas”), de uma regeneração de hábitos e práticas consumados, no plano da gestão pública e do planejamento. Surgiu como cavaleiro de armas para um prélio jamais terçado por estes cantos.
Na educação, as conquistas foram, todavia, mais frágeis. Predominaram as velhas querências partidárias e as pendências para a adequada e necessária distribuição do poder. Não que ao governador escapasse a percepção da suspeita das pressões sobre os apoiadores dotados de maior capacidade de “influência”. Sabia e tentou resistir bravamente a esses conluios discretos de aliados próximos.
Mudar a cabeça do eleitor e levá-lo a refletir sobre o real papel da educação em uma sociedade aberta é um desafio que a poucos pode animar.
Tranquilizem-se, não vou descer a análises extemporâneas e incômodas sobre situações que muitos haveriam de querer esquecidas. Deixo-me, entretanto, levar pelo veio de cronista, que para essas abluções de memória servem, de algum modo, as criaturas longevas…
Aprendi, nas minhas desobrigas frequentes pelo Interior, passando pelas Delegacias Regionais e escolas estaduais, de conversa com prefeitos, deputados e vereadores, que era possível formar opinião sobre uma diretora escolar, antes de entrar no prédio das suas predicações e litanias pedagógicas.
O jardim bem regado e aparado, o portão sem mossas visíveis, a limpeza revelavam por antecipação a diretora que iria encontrar. Nunca as minhas conjecturas e pressentimentos falharam. A escola traz, nas pequenas coisas estampado, o rosto de quem a dirige e de quem nela trabalha.
De outra feita, por solicitação do vice-governador, político paciente, homem de bem, lhano no trato e na diligência dos seus atos, indicado por escolha consensual para dar suporte e governabilidade ao governo das Mudanças, reuni, com a sua participação, um grupo ao qual fora atribuída a escolha da diretora de uma DERE em região de muito prestigio. Sentados à mesa, o vice-governador, dois deputados de razoável visibilidade, duas diretoras de escolas e, justamente, a candidata majoritária à vaga a ser preenchida. Em pauta, a escolha da nova diretora, dentre tantos postulantes e discretas sinalizações.
A conversa avançara, com os circunlóquios costumeiros, que político de boa cepa não diz o que pensa. Insinua.
Exaurido, consumido por tanta conversa jogada fora da bacia, não me contive:
” Estamos há quase duas horas a falar de nomes, de apoios e candidaturas para uma função relevante — e ninguém dispôs-se a falar sobre educação! Afinal por que estamos aqui?”.







