Crise em Ormuz inaugura nova fase da desordem global e cria oportunidade para o Brasil. Por Aldairton Carvalho

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Por Aldairton Carvalho

Há 15 dias fizemos a previsão de um conflito prolongado entre Estados Unidos e Irã, o que se confirma não apenas pela duração das hostilidades, mas sobretudo pela profundidade de seus impactos na economia global, tendo o fechamento do Estreito de Ormuz, esse que é um dos corredores energéticos mais estratégicos do planeta, o início de uma crise sistêmica com efeitos que transcendem o campo militar.

Por Ormuz transita cerca de um quinto do petróleo mundial. Sua interrupção provoca um choque imediato nos preços da energia, pressionando cadeias produtivas inteiras. O petróleo caro eleva custos logísticos, encarece a produção industrial e reduz o poder de compra das populações.

Paralelamente, emerge um vetor ainda mais crítico: a disrupção no fornecimento de fertilizantes. Países dependentes de insumos nitrogenados, fosfatados e potássicos enfrentam dificuldades logísticas e financeiras para manter a produção agrícola. O resultado previsível é uma combinação de queda na produtividade com aumento nos preços dos alimentos, criando um cenário historicamente associado a instabilidade social e política.

Mesmo que um cessar-fogo fosse estabelecido no curto prazo, os efeitos dessa ruptura não seriam imediatamente revertidos. Cadeias globais (contratos, estoques, rotas logísticas e ciclos produtivos), já foram afetados. O “gatilho sistêmico” foi acionado, e seus desdobramentos tendem a persistir por meses, possivelmente anos.

No campo tecnológico, os impactos são igualmente relevantes. A indústria de semicondutores, altamente dependente de cadeias globais estáveis e energia abundante, sofre pressão dupla: aumento de custos energéticos e risco logístico em rotas estratégicas. A produção de chips (concentrada em regiões como Ásia Oriental) depende de insumos químicos e energia constante. Essa instabilidade prolongada ja resulta em atraso de entregas, encarecimento de dispositivos e desaceleração de setores como inteligência artificial, computação em nuvem e veículos autônomos.

Além disso, data centers (base física da economia digital) são grandes consumidores de energia. O aumento do custo elétrico impacta diretamente empresas de tecnologia, reduz margens e pode desacelerar investimentos em IA, justamente em um momento de expansão exponencial da demanda computacional.

Diante desse cenário, as sinalizações para mitigação da crise passam, inevitavelmente, por uma transição energética acelerada. Países com maior participação de fontes renováveis: solar, eólica, hidrogênio verde, tendem a apresentar maior resiliência. A descentralização da geração energética reduz a vulnerabilidade a chokepoints geopolíticos como Ormuz.

No médio prazo, a crise atual pode atuar como catalisador de uma reorganização estrutural: cadeias produtivas mais regionalizadas, estoques estratégicos ampliados e investimentos massivos em autonomia energética. Para países como o Brasil, com abundância de recursos renováveis e minerais, abre-se uma janela histórica de protagonismo, desde que haja coordenação estratégica e investimento em infraestrutura.

O mundo entra, assim, em uma nova fase: menos previsível, mais fragmentada e profundamente influenciada pela interseção entre energia, geopolítica e tecnologia. O conflito no Irã não é apenas uma guerra regional, é um ponto de inflexão no sistema global.

Aldairton Carvalho é advogado, pós graduado em Ciência Política, mestrando em Ciência Política pela Universidade de Lisboa, presidente do IBGOV- Instituto Brasileiro de Governança e CEO da Infinity Tokens tecnologia

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