
Mediunidade e responsabilidade moral: “Se o pastor se perverte, acusaremos de vã a própria atividade de pastorear?”
Por Catarina Rochamonte
Articulista Focus.jor
Apesar de também atuar na área de jornalismo e, por isso, precisar estar atenta, eu não tenho o hábito de correr atrás das últimas notícias, principalmente daquelas que configuram escândalo. Na verdade, tenho até resistência em lidar com notícias que envolvem o que há de frágil, grotesco e pervertido nos seres humanos. Sendo assim, eu soube, en passant, que o midiático líder espiritual brasileiro chamado Prem Baba ( “Prem” significa amor divino e “Baba” pai espiritual) havia sido acusado de abuso sexual e só agora – após a divulgação do escândalo envolvendo o famoso e não menos célebre líder espiritual e médium João de Deus – eu me vi na obrigação de tecer algumas considerações sobre esse tipo de caso. Eu o faço não apenas com o olhar neutro de uma professora e jornalista, mas com a experiência de quem é praticante de Yoga, médium e espírita e que, portanto, tem familiaridade com o contexto espiritual de onde emergiram os dois abusadores supracitados.
Acredito poder afirmar que nunca fui propensa a me submeter a líderes religiosos, gurus ou coisa parecida. Embora eu tenha certa abertura para uma espiritualidade alternativa e a linguagem new age de chacras, energias sutis, veganismo, iluminação, Awaken LOVE, etc. me seja familiar, toda a aproximação que tive desse tipo de coisa sempre esteve acompanhada de um saudável ceticismo, a despeito da curiosidade. Menos pelo conteúdo em si do esoterismo e mais por desconfiança em relação aos que nele foram iniciados, sempre me enchi de cautela ao lidar com essas questões.
Aos dezenove anos comecei a praticar Yoga no método (swásthya) de um tal mestre De Rose. A pouca idade não impediu que eu me desse conta de que se tratava de uma mistura de fanatismo, frouxidão moral, aliciamento de mentes e elitismo. Havia ali uma ética própria, voltada para um hedonismo transgressor e uma liberação sexual sem culpas por meio da velha desculpa das práticas tântricas. Os livros recomendados eram do próprio De Rose e tudo era bem orquestrado para criar no aluno uma devoção. Para entrar na “universidade”, chamada UniYoga, havia que se preencher também um formulário ao final de um livro básico que nada mais era do que um atestado de demência, submissão doutrinária e servilismo intelectual e moral.
Mas o Yoga não se resume a essa deturpação denominada Swásthya Yoga e não é por existir um De Rose que não existiu um Hermógenes e tantos outros professores brasileiros dignos. Uma maça podre não prova que não há pomar. Um escândalo como o do médium João de Deus não anula nem o fenômeno mediúnico nem a grandeza de médiuns do bem, como Chico Xavier e tantos outros, assim como não atinge a doutrina sistematizada por Allan Kardec; além do mais, João de Deus era médium, mas não espírita.
O espiritismo não se reduz à mediunidade, nem a mediunidade compõe o espiritismo em sua totalidade. Não precisamos nos sentir afligidos por aqueles que malversaram os seus dons mediúnicos, nem tampouco nos cabe julgá-los excessivamente como párias e desertores. O ofício de médium não traz consigo a moralidade nem a moralidade impõe a mediunidade.
É necessário cautela, é necessário zelo e é necessário responsabilidade com os dons que a graça divina nos concedeu. Mas precisamos dessa responsabilidade em qualquer área da vida. Todo aquele que faz mau uso do seu talento, do seu trabalho, da sua profissão, do seu poder haverá de prestar contas à sociedade e à própria consciência.
O ambiente espiritual é realmente propício ao charlatanismo e ainda mais propício ao desvio de ego daqueles cujos poderes são mal utilizados. Nem por isso poderemos ou deveremos prescindir daqueles cujo dom da cura, da oratória, da mediunidade, da escrita, etc o torna capaz de conquistar simpatias e angariar pessoas em torno de uma causa. Se uma ovelha se perde condenaremos todo o rebanho? Se o pastor se perverte, acusaremos de vã a própria atividade de pastorear?
Prestemos atenção às armadilhas, às tentações. É preciso paciência e persistência no exercício de autoconhecimento para que aqueles cujos poderes (mediúnicos ou não) nos deslumbra não nos ceguem ao ponto de nos fanatizar.
Em qualquer situação temos o bom senso, a racionalidade, a capacidade de reflexão e a lucidez. Em qualquer situação temos a responsabilidade conosco e – por mais fragilizados que nos encontremos – não podemos delegar a outrem nossa consciência, atribuindo boa fé absoluta a quem quer que se apresenta diante de nós como sendo dotado de tal ou qual sabedoria, favorecido de tal ou qual faculdade.
O homem é dotado de capacidade de autorreflexão e responde pela sua própria sustentação moral. O único pastor verdadeiro é Jesus. Todos os outros são seres humanos capazes ou não de nos ajudar na busca que é nossa e na necessária auto-iluminação, que é de nossa inteira responsabilidade.







