O ensino jurídico e o método Disney

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Mario de Quesado Miranda Bezerra, Advogado, Mestre em Direito Constitucional nas Relações Privadas, professor no Centro de Ensino Superior do Ceará – Faculdade Cearense (FaC).

Mário Bezerra
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O século XXI tem como um de seus maiores marcos o grande avanço das tecnologias, englobando diversos ramos, tais como a transmissão e proteção de informações, a manipulação genética e a criação e utilização de inteligências artificiais.
Isto posto, cabe perceber que o advento dessas inovações impactou o mercado de trabalho hodierno, pois, segundo o Fórum Mundial de Economia,  atividades de cunho meramente manual, cognitivo e rotineiro acabaram por não mais necessitarem de força de trabalho humana para sua execução, uma vez que existem máquinas e aparelhos eletrônicos para a realização daquelas.
Neste sentido, é imperioso salientar que a atividade do jurista também sofreu repercussões desses avanços, sendo essa, nos próximos vinte anos, maior do que nos dois séculos passados; a exemplo disso, o surgimento das legal techs que se utilizam de inteligências artificiais para efetuar atividades que outrora eram realizadas por pessoas.
Também é importante destacar a corrente da descentralização da oferta de serviços jurídicos, de forma que instituições que, prima facie, não os prestavam, passaram a competir nesse mercado.
Frente a isso, é eminente que o profissional da ciência jurídica busque meios para desenvolver habilidades que consigam ser destaque nesse ambiente de disrupção. Capacidades essas como: liderança, comunicação, inteligência emocional e pensamento criativo.
Nesta linha de pensamento, são cabíveis indagações acerca da forma como esses profissionais são habilitados, ou seja, como o ensino da ciência jurídica é feito e se essas competências necessárias estão sendo abordadas durante a graduação.
Constata-se que universidades americanas, tais como Yale, Stanford, Harvard, apresentam em suas matrizes curriculares disciplinas voltadas ao desenvolvimento dessas atribuições, tais como: Visual Law Project, da Universidade de Yale, que visa a capacidade de storytelling do jurista, com enfoque no modo criativo de narrar fatos e na concatenação de argumentos; Stanford, por sua vez, promove o estudo das relações entre Direito e Arte, de maneira a correlacionar o pensamento criativo com as situações jurídicas, visando, assim, a busca de soluções inovadoras para as questões da atividade; Harvard, por fim, tem um programas chamado Law Without Walls, cuja finalidade consiste no treinamento de juristas capazes de resolver conflitos de forma criativa e inovadora, de modo a compreender as necessidades de seus clientes de forma empática; líderes com aptidões multidisciplinares, com tolerância a situações de alto risco e capazes de desenvolver trabalhos em equipes plurais (culturas, países e disciplinas); além de especialistas em situações negociais, competentes no uso de tecnologias e mídias sociais, com enfoque na comunicação e colaboração.
Contrapondo-se a tais separações, as universidades brasileiras ainda caminham de forma lenta no englobamento de disciplinas voltadas ao desenvolvimento dessas habilidades, contudo, é importante destacar que somente a Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas possui uma grade curricular mais avançada nesse diapasão, pois apresenta diversos projetos multidisciplinares com fulcro na experiência prática e multifacetada da atuação do jurista.
Nesta perspectiva, é interessante compreender que, para superar os desafios do lecionar da ciência jurídica, podem ser utilizados métodos de outras áreas para o desenvolvimento das competências do século XXI, evidencia-se que metodologias de gerência são aptas.
Assim, surge a possibilidade do Método de Treinamento Disney, conhecido como Practical Magic, ser a ferramenta de promoção dessas competências. Voltada à superação das expectativas dos clientes, por meio do foco nos detalhes e sustentado pelos critérios de Segurança, Cortesia, Performance e Eficiência, essa metodologia pode ser aplicada em sala de aula de forma a desenvolver habilidades como:

  • Comunicação – Inicia-se ao abordar quais os elementos da mensagem, com intuito de observar quais as falhas presentes nessa, de modo a distinguir a vontade real da vontade aparente. Por meio de simulação e casos práticos;
  • Emocional – Pela compreensão do valor das emoções e quais os anseios do outro, com feitio de, empaticamente, promover ações conjuntas para a situação de conflito;
  • Criatividade – Com foco na criação de soluções alternativas para litígios, de modo que sejam inovadoras e capazes de agregar as partes em prol da busca de um bem comum. Utilizam-se técnicas de brainstorming e se faz análise da viabilidade de concretização dessas ideias;
  • Liderança – Uma vez apresentados os conceitos de liderança, passa-se a buscar raciocínios para a tomada de decisões que sejam aptas a proporcionar situações de ganha-ganha-ganha (ganho do indivíduo, do conjunto e da sociedade). Colocam-se em foco as diversas maneiras de articulação de ideias para o gerenciamento de situações de divergência.

Assim, fica evidente que a eficaz interação entre seres humanos é a resposta para a questão da tomada de espaço no mercado de trabalho pelos meios tecnológicos.
Desta forma, conclui-se que, em face da nova realidade hodierna que vem se formando, as soft skills tomam posição de destaque para o jurista, uma vez que essas habilidades interpessoais promovem meios mais céleres de solução de conflito, como também possibilitam que aquele ator da ciência jurídica tenha um diferencial em um ambiente cada vez mais tomado por tecnologias impessoais.

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