
Por Catarina Rochamonte
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O genial filósofo cristão Blaise Pascal tem uma frase de que gosto muito: “O coração tem razões que a própria razão desconhece.” Por uma dessas desconhecidas razões, o meu coração levou-me inicialmente à política mais por um sentimento humanitário do que por um sentimento patriótico, já que o momento em que saí da minha letargia, ou – para brincar com a expressão kantiana – do meu sono (político) dogmático deu-se pelo despertar de um sentimento de compaixão e solidariedade em relação à luta que se travava em uma nação vizinha: Venezuela. Esse nome, outrora sem significado algum para mim, passou a simbolizar a luta política real para o meu tempo, a luta digna de ser travada, o bom combate.
Acompanhei os desdobramentos da tragédia desse país como se assistisse a uma série de TV, mas era diante do drama real de um povo que eu estava. Conheci pela mídia tradicional, mas principalmente pelas redes sociais os personagens principais dessa história: vi a deputada María Corina Machado ser espancada em plena Assembleia Nacional pelos chavistas, mas não se dobrar e continuar a luta contra o despotismo; vi o ex-prefeito de Chacao, Leopoldo López ser preso em meio a um discurso de resistência pacífica e assisti à Guarda Nacional Bolivariana arrancar o ex-prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, do sossego do seu lar e levá-lo preso. Vi com profundo desgosto a então presidente do meu país, Dilma Roussef recusar-se a receber Lilían Tintori (esposa de Leopoldo Lopez) e Mitzy Capriles (esposa de Ledezma) para, ao invés disso, receber com afagos e sorrisos o homem forte de Maduro, Diosdado Cabello. Vi jovens venezuelanos irem às ruas enfrentar a ditadura e sensibilizei-me sobremaneira diante da imagem do cadáver do estudante Kliver Roa, de 14 anos, assassinado pela Polícia Nacional Bolivariana com um tiro na cabeça durante protesto nas imediações da Universidade Católica de Táchira, enquanto, no Brasil, viralizava o vídeo de jovens do Levante Popular da Juventude dançando o hit “sou do levante, tô com Maduro”, testemunhado o retardamento mental e a desgraça moral que ainda acomete boa parte dos estudantes brasileiros.
Foi devido à minha indignação com a ditadura na Venezuela e com o apoio explícito que o Brasil dava a ela que eu comecei a escrever textos para think thanks liberais. Não era difícil tomar partido, não era difícil se posicionar politicamente naquele momento porque o certo e o errado estavam claros para qualquer um que tivesse um senso moral genuíno, ainda não deturpado, ainda não embotado ou pervertido. Assim, em Fevereiro de 2015, eu escrevia um pequeno texto para o Instituto Liberal intitulado Nota de solidariedade ao povo venezuelano no qual me solidarizava com as mães dos estudantes assassinados, com os estudantes que iam às ruas arriscar suas vidas, com as esposas e filhos dos oposicionistas sequestrados e com toda a corajosa oposição ao governo. Naquela ocasião eu expunha também o “meu total desprezo ao governo brasileiro, alertando que qualquer postura que ele venha a ter em relação a esse problema será uma concessão política à pressão da oposição porque a ideologia que cega os ativistas do PT e da qual se servem os seus dirigentes é a ideologia da justificação do mal. O mal que mais uma vez está diante de nossos olhos e cuja análise e crítica os intelectuais de esquerda deixarão para os historiadores do futuro enquanto continuarão se ocupando da nossa ditadura que passou.”
A tendência da esquerda brasileira à justificação do mal continua e o apoio do PT à ditadura venezuelana entrará para a história como um dos mais deprimentes episódios da política brasileira. Esse apoio é desavergonhado e insistente. Mais uma vez o partido de Lula ostentou seu apoio à narco-ditadura vizinha com a presença da presidente do partido, Gleise Hoffmann, na posse do tirano Nicolás Maduro. Questionada, a petista alegou como uma das razões para sua presença no evento repudiado pela comunidade democrática internacional a necessidade de “marcar posição contra a grosseira relação do governo Bolsonaro com a Venezuela”. Sobre a grosseira relação da ditadura da Venezuela com o povo venezuelano – que inclui repressão, tortura e assassinato – Gleise Hoffmann não disse nada.
Desde 2017 a ditadura venezuelana passou a ser denunciada por organismos internacionais, da ONU à OEA, e pelas mais reconhecidas entidades de Direitos Humanos, como é o caso da Human Rights Watch (HRW). Se antes apoiar o regime de Maduro poderia ficar na conta da ignorância, hoje em dia tal atitude só pode cair na conta de mau-caratismo. No curso das violentas repressões daquele ano, foram denunciados, além das prisões e assassinatos, casos de tortura com “choques elétricos, asfixia e agressão sexual”. Um relatório conjunto da HRW e da organização venezuelana Fórum Penal (FP), intitulado “Crackdown on Dissent: Brutality, Torture, and Political Persecution in Venezuela“, documentou 88 casos envolvendo pelo menos 314 pessoas, que relataram ter sido submetidas a graves violações de direitos humanos entre abril e setembro de 2017. Ao todo, neste período, o relatório acusa que as autoridades detiveram pelo menos 5.400 pessoas. Seguem-se vários registros de todo tipo de arbitrariedades, maus tratos e torturas. Nicolás Maduro negou tudo e acusou a HRW de “fazer parte de uma conspiração financiada pelos Estados Unidos para barrar o socialismo”.
De 2017 para cá, a situação da Venezuela degradou continuamente, com a miséria se alastrando e os desvalidos fugindo em massa, inclusive para o Brasil. Durante todo esse tempo os corajosos opositores foram sistematicamente às ruas para enfrentar uma feroz repressão. É essa altiva, honrada e corajosa oposição que os progressistas brasileiros, sempre apaixonados por ditaduras de esquerda, difamam chamando de fascista.
Todo mundo já sabe da situação de ilimitadas desgraças a que o chavismo levou a Venezuela, mas será sempre ilustrativo mostrar alguns dados bem atuais: ao abrir de 2019, a inflação ultrapassou em muito a casa de 1.000.000% (Hum milhão por cento) ao ano. Maduro reagiu reclamando do “dólar criminoso” e reajustou o salário mínimo em 300%, passando de 4.500 bolívares soberanos para 18.000 bolívares soberanos por mês. Com toda soberania, esses 18.000 bolívares equivalem a seis dólares, o que dá aí uns 22 reais.
Esse governo, produto do “Socialismo do Século XXI” – também chamado chavismo ou bolivarianismo –, conseguiu um novo mandato em eleições realizadas sob pressão do terror policial e de milícias chavistas, com interdição de vários candidatos oposicionistas e fraudes escandalosas. Esse governo já vem sendo internacionalmente chamado pelo que realmente é: ditadura. Essa narcoditadura corrupta e assassina não pode encontrar guarida por parte da comunidade internacional, sendo, pelo contrário, exigência humanitária a pressão internacional pela sua destituição.
A tragédia da Venezuela, causada por um governo despótico e populista que afundou o país na miséria, fome e violência é a questão mais séria do ponto de vista democrático e humanitário na América do Sul, por isso não é de estranhar que esse tenha sido um dos temas principais do encontro dessa semana entre o presidente do Brasil e o presidente da Argentina, Maurício Macri, que fez a seguinte declaração à imprensa após seu encontro com Bolsonaro: “Não aceitamos ditadura na democracia. E muito menos a tentativa de quem quer ser a vítima e, na verdade, é o algoz. A comunidade internacional já se deu conta de que Maduro é um ditador que busca perpetuar-se no poder com eleições fictícias prendendo os opositores e levando a Venezuela a uma situação desesperadora e agoniante.”
Tudo indica que essa situação desesperadora e agoniante está chegando ao fim. Na semana passada, o presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Juan Guaidó, já havia declarado sua intenção de assumir interinamente a presidência do país e convocar eleições; agora passou da intenção para a decisão. Na terça-feira, 15/01, a Assembleia Nacional da Venezuela decidiu, formalmente, declarar Nicolás Maduro como “usurpador”, declarando nulos todos os atos do novo e ilegítimo mandato. Na mesma declaração foi previsto o estabelecimento de um governo de transição que cuidará de realizar “eleições livres e transparentes no menor tempo possível”.
O documento da Assembleia é cauteloso e consistente, prevendo, inclusive, “um marco legislativo que conceda garantias para a reinserção democrática, de maneira que se criem incentivos para que civis e policiais, assim como integrantes das Forças Armadas, deixem de obedecer a Nicolás Maduro”; Trata-se de um caminho promissor para a libertação do povo venezuelano, caminho este que vinha sendo construído já há alguns dias com a participação ativa da nova diplomacia brasileira.
Alvo de rasteira campanha de desqualificação, o Ministro das Relações Exteriores do Brasil fez em poucos dias pela causa da democracia na Venezuela mais do que os seus antecessores fizeram em quase duas décadas. A diplomacia dos governos petistas foi sempre favorável ao despotismo chavista e, de resto, favorável a todos os despotismos de esquerda. A diplomacia do governo Temer, tendo à frente um ministro tucano, ficou em cima do muro, foi omissa (o que não deixou de ser um avanço em face da ativa cumplicidade pró-ditadura da diplomacia petista). Já o chanceler Ernesto Araújo, além de ter conduzido o Grupo de Lima na declaração de ilegitimidade do novo mandato de Maduro, manteve o Brasil na linha de frente dos países que pressionam pela volta da democracia na Venezuela.
O caminho que se abriu para a Venezuela é promissor, mas é incerto e cheio de perigos. A ditadura tem a seu lado parte das forças armadas e as milícias chavistas, além do apoio de Cuba, Nicarágua e a simpatia velada da China e da Rússia. A Assembleia Nacional tem a seu lado o povo venezuelano e a solidariedade da grande maioria dos países democráticos, inclusive, agora, do Brasil. Por aqui os democratas, os liberais, os conservadores enviaremos nossa mensagem de solidariedade ao povo guerreiro da Venezuela. Já o Partido dos Trabalhadores e a esquerda antidemocrática apoiarão, como sempre, a ditadura de Maduro. Nossa solidariedade ao povo da Venezuela talvez não tenha grande poder efetivo, mas o apoio do PT ao ditador também não pode muito. Mas não pode porque nós afastamos o PT do poder no Brasil e esta foi a maior contribuição dos brasileiros à causa da liberdade na Venezuela.







