Economia e ilusões

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

Por Rui Martinho

Já não havia quem disse como um ex-governador que, refutando críticas por haver contraído muitas dívidas, declarou ter um grande arrependimento por não haver endividado mais o governo, porque Estado não quebra e o crédito alavanca a economia. O Rio de Janeiro e o Rio Grande do Sul, como Portugal, Grécia e, em diversos momentos, o Brasil desmentem a ilusão de que Estado não quebra. A alavancagem só funciona se o crédito for aplicado criteriosamente e se o endividamento não exceder certos limites. A partir de 2008 nos endividamos sem investir. Logística, saneamento e quase tudo foi sucateado. Contraímos dívidas ao tempo em que a arrecadação crescia vertiginosamente, quase duplicado em pouco mais de vinte anos. Era como alguém que tivesse o salário duplicado, analogamente a participação dos tributos no PIB, dobrasse as dívidas e não fizesse investimento. Despesas correntes eram o sorvedouro dos recursos.

Sucessivas crises nos anos setenta e oitenta do século XX, pelo mundo afora, abalaram o romantismo de economistas e políticos. A ortodoxia econômica parecia vitoriosa. A crise de 2008, todavia, produziu a recaída romântica. Grande parte do público prefere alimentar bons sonhos ao invés de acordar para os duros desafios da realidade. O voto desta parcela de eleitores e (de)formadores de opinião mobiliza muitos políticos e economistas. O velho pensamento mágico voltou com o nome de “nova matriz econômica”. Passamos a defender gastos ilimitados. A austeridade fiscal foi demonizada.

O desequilíbrio das contas públicas, porém, gera dívida. Quem quer gastar o que não tem precisa de crédito. Mas os românticos querem buscar empréstimos demonizando o mutuante, como se dissessem: “me dá um dinheiro aí seu canalha”. Pior: querem empréstimos sem pagar juros ou juros baixos quando o mutuário tem as contas desequilibradas. Dizer quanto o outro deve ganhar, ou até dizer que não deve haver ganhar nada é próprio dos “esclarecidos” ferozmente românticos.

Deslocaram o debate do campo do cálculo atuarial e da contabilidade para os direitos. É certo sopesar este aspecto, mas dentro dos limites da reserva do possível. Não tem sentido ter direito de somar um mais um achar trinta. O romantismo é inspirado no herói semidivino, Titã, que queria escalar o céu rompendo os limites da realidade, tornando-se absoluto. Este é o DNA do totalitarismo. É também a semente do fracasso na administração. Mas os românticos só têm projeto de poder, não de sucesso no mundo real. Um dos seus gurus disse que não era bruxo para retirar do caldeirão da história as formas do futuro. Isto é, o projeto deles é só a prática processual da luta pelo poder. Têm grande competência nisso, até porque só no que pensam e seguem a ética dos fins, que não passa de oportunismo.

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