Um primário mal feito, por Ricardo Alcântara

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Ricardo Alcântara é escritor e publicitário. Filiado à Rede Sustentabilidade.

Por Ricardo Alcântara
focus@focuspoder.com.br
Na semana anterior ao Carnaval o País já se via às voltas com exóticas fantasias: o ministro da Educação, que ainda não houvera oferecido ao País sequer uma ideia relevante, sugeriu que diretores de escolas registrassem seus alunos entoando o Hino Nacional e bradando o lema do Governo do qual faz parte.
Como tem sido frequente, logo o assunto passou a ser discutido em seu aspecto acessório: cantar ou não cantar o hino, eis a menor questão. Não vejo problemas: há anos é procedimento obrigatório nos estádios de futebol sem que a liturgia cívica tenha acrescentado uma grama de altruísmo e resiliência ao nosso povo. Creditar ao ato possível superação para limitações cuja raiz desce fundo ao solo de nossa origem como nação, só por mediocridade ou diversionismo. Dada a dimensão dos desafios da Educação, um ministro indicado para liderar o esforço deveria se privar de tratar de qualquer aspecto que não seja fundamental.
Bem, mas até aqui está fácil: ministros são demissíveis tão logo fique demonstrada sua inaptidão para o serviço. O pior veio quando o próprio presidente debitou a desproporção entre os investimentos em Educação e os níveis de aprendizagem a questões de ordem ideológica: a “influência marxista”! Ai, ai. Nossos professores do ensino fundamental, em sua modesta formação (e este, sim, é o cerne do problema), não compreendem Karl Marx ao ponto de se deixar influenciar por ele. Ainda que sim, restaria ao presidente explicar por que, então, a Cuba marxista obtém, há 40 anos, a liderança de aprendizagem escolar na América Latina, apesar de seu regime com prazo de validade vencido – ou seja, não faz mal aqui e não é o que faz bem por lá.
Surpreendo-me a cada dia com o despreparo deste senhor, apesar de sua presença assídua por trinta anos no congresso nacional – uma excelente escola para quem lá se dedica a acompanhar os debates nas diversas comissões temáticas, onde são ouvidas, em dois turnos de terça a quinta, acreditadas vozes em todas as áreas. Dele vem aí mais um truque para manter a atenção popular focada no acessório, enquanto o fundamental é decidido longe de seus olhos: a “Lava Jato da Educação” – um artifício que, sob a motivação de apurar desvios éticos (a princípio, uma responsabilidade de Estado mesmo), se dedicará a introduzir conceitos ideológicos sob o pretexto de combatê-los. De tão tacanho, Bolsonaro faz o general Mourão parecer um senador nórdico.
Por falar em Educação, é nisso que dá um curso primário mal feito.
 

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