Ofensa virou regra. Onde estão as ideias? Por Leopoldo Cavalcante

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Leopoldo Cavalcante é criador/autor do @resenhador e articulista de cultura do Focus. Estuda Jornalismo na Cásper Líbero (SP) e Direito no Largo São Francisco (USP).

Os piores inimigos

Semana passada, falei sobre amizades e toquei em alguns espinhos. Para lembrar, falei sobre o caso entre Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa, que pararam de se falar por discordâncias sobre os rumos do socialismo real, e a faca puxada por Fagner para ameaçar o Belchior.
Um breve esclarecimento sobre essa segunda história: minha mãe – a leitora mais atenta e crítica dessa coluna – veio perguntar se era verdade, porque senão seria sacanagem com a imagem do Fagner. Bem, esse caso está na primeira edição da biografia do Belchior, escrita pelo jornalista Jotabê Medeiros, publicada pela Todavia em 2017. Além disso, não é nenhum segredo as divergências dos dois e a personalidade dura do Fagner.
Seres humanos são confusos e quase nenhum artista é santo. Histórias de brigas são, em geral, máculas na biografia das pessoas, mas nem por isso deixam de ser verdade. Nelson Rodrigues escrevia atrocidades não por que ele era polemista e gostava de incomodar, mas por que, como ele mesmo dizia, cresceu num bairro pobre e via o que há de pior na realidade. Realismo não é pessimista só por causa da alma torturada dos artistas, mas também pelo podre ululante do mundo.
Mas não é sobre pessimismo que eu queria falar hoje.
Como leitor e fã de longa data do colunista e cientista político João Pereira Coutinho, acato todas as recomendações dele. Em dezembro de 2017, ele escreveu sobre um documentário que está na minha lista de favoritos desde então, o Best of Enemies.
Em dez encontros ao vivo, o progressista Gore Vidal debateu contra o neoconservador William Buckley Jr. sobre as preliminares dos partidos democratas e republicanos em 1968, um dos anos mais turbulentos da história moderna norte-americana. Lá estava acontecendo os protestos contra e a favor da guerra do Vietnã, os movimentos raciais demandando direitos sociais e respondidos pela repressão, o assassinato há poucos anos do democrata John F. Kennedy etc.
A emissora ABC, a terceira colocada, atrás da NBC e da CBS, buscava desesperadamente um espaço entre as gigantes. A solução encontrada foi o culto à polêmica. Sob ótica nenhuma daria para imaginar um elo de amizade ou de empatia mútua entre Gore Vidal e William Buckley. Não estamos conversando sobre ex-amigos, mas sim inimigos explícitos. Um via no outro o que há de pior no mundo. Para Buckley, a homossexualidade aberta de Vidal era o sinal da pior depravação do mundo e um dos destruidores da moral cristã. Para Vidal, o belicismo de Buckley levaria os EUA a um culto à guerra e ao conflito insustentável. Só havia um traço em comum entre ambos.
Nascidos em famílias ricas e bem-educadas, os dois tiveram uma formação parecida. Apesar de Vidal se orgulhar de nunca ter feito universidade, o seu ar elitista era inegável. Ele estava no sotaque, nos costumes e no senso estético. Buckley falava com o mesmo nariz empinado, orgulhoso de sua formação tradicional, cultuava suas origens e as tradições. Um não conseguia entender as escolhas do outro. Explico: Vidal não entendia como um homem tão inteligente quanto Buckley seguiu um percurso tão conservador, enquanto Buckley não aceitava alguém educado e vindo de uma família nobre desviar tanto do padrão esperado. No bojo, o que estava em questão é que um via no outro o que poderiam ter sido se tivessem dado um passo diferente. E, como bem se sabe, Narciso acha feio o que não é espelho.
O documentário está no Netflix. Não entrarei em mais pormenores. Para isso, recomendo o texto do João Pereira Coutinho e o filme em si. Quero fazer outros comentários.
Não conheço muitos casos de intelectuais brasileiros que tenham atingido o patamar de “pop”. A liberdade de imprensa norte-americana, com algumas ressalvas, permitia que figuras díspares apresentassem lados completamente opostos em tevê aberta. Em 1968, enquanto nos EUA Gore Vidal e William Buckley debatiam como adultos – pelo menos até o momento no qual Buckley perde as estribeiras e chama o Vidal de “viadinho” –, a mídia brasileira sofria a mão dura da ditadura e era constantemente censurada (além de haver um monopólio televisivo no Brasil que desincentiva soluções comerciais inovadoras. Se a ABC não tivesse ousado com o debate de 1968, ela provavelmente teria seguido o ciclo de vida natural das empresas estagnadas no tempo e teria morrido).
Mesmo sob repressão ditatorial, não é absurdo falar que a esquerda dominou o campo artístico no Brasil. Essa tese, mesmo que futuramente renegada, é defendida pelo crítico literário, que não tem absolutamente nada de direita, Roberto Schwarz ainda na década de 70. Poucos intelectuais de direita tiveram a repercussão futura da esquerda. Na américa latina, o motivo desse “esquecimento” é, talvez, a ligação precipitada entre um pensamento não-de-esquerda e o apoio às ditaduras militares. De fato, vários pensadores de direita não tinham quaisquer problemas com a repressão estatal da ditadura. Mas outros, como José Guilherme Merquior, eram taxados de “intelectuais orgânicos da ditadura” por pura malícia e desonestidade intelectual. Em geral, é incoerente a defesa de um sistema ditatorial pelo viés do liberalismo clássico. Defende-se, claro, o capitalismo, mas também – e isso é essencial nas obras liberais – o respeito aos direitos humanos.  A defesa do capitalismo, para a esquerda tradicional, é, em si, maléfica. Partindo desse principio, tudo que se segue deste sistema seria eivado, o fruto de uma árvore podre. Provavelmente, um dos maiores culpados desse pensamento simplista foi a ausência de um debate público de qualidade em nossa história.
A esse debate público entre inimigos confessos, entre pessoas que não têm qualquer afinidade ideológica no campo das ideias, pode se dar o nome de guerra cultural. Países com instituições bem estabelecidas vivem nesse contexto há décadas. Na França, temos jornais abertamente de direita e de esquerda, com posicionamentos opostos e leitores próprios. E não há nenhum problema nessa divisão. Em democracias, pessoas pensam diferente e gostam de coisas diferentes. Ideias, nesses sistemas, são produtos como quaisquer outros. Se você não gosta de um, compre o outro. Se você discorda, escreva sobre e publique suas ideias. Jogue-as no debate público e seja o que Deus quiser. É desgastante, mas mais gratificante do que tentar impor vontades verticalmente.
O problema é quando não existem canais públicos para que ocorram esses conflitos. Sem democracia, não se pode comercializar ideias. Nesse sentido, a Ditadura brasileira se aproximaria da União Soviética: em ambos os períodos, as discussões artísticas e de ideias tinham de ser por baixo dos panos. Deve ser desesperador a possibilidade de ter a sua vida em risco por conta de um livro ou uma foto non grata pelo sistema. Mas divago.
Mesmo com todos os problemas da democracia norte-americana, a liberdade de poder colocar Gore Vidal e William Buckley ao vivo é louvável. Se tivéssemos tido a cultura de embates públicos e maduros de ideias, talvez não estivéssemos no caos birrento em que estamos, no qual ganha quem grita mais alto ou quem mobiliza mais a massa. Ou talvez não.
Os EUA estão uma porcaria total mesmo tendo havido debates públicos de qualidade num passado não tão distante. As ideias conspiratórias de Trump estão no poder e está havendo uma ascensão inimaginável do socialismo entre a juventude americana. Minhas duas certezas são que tanto lá quanto cá os dois lados completamente opostos estão brigando publicamente entre si, como outrora – ao menos nos EUA –, e o nível do debate está baixo. Muito baixo.
No final do último debate, no calor do momento, Buckley chama Vidal de viadinho em tevê aberta. Vidal rebate-o chamando de protonazista. Buckley fica extremamente impactado com a própria falta de controle. Ele escreve – e publica – posteriormente uma autoanálise do seu comportamento. Buckley nunca se perdoou por ter chamado Vidal de viadinho. Não importa quão diferentes eles eram, a animosidade nunca foi uma opção. Já idoso, numa entrevista, um apresentador traz o vídeo de Buckley xingando Vidal. A cara do intelectual neoconservador é de total vergonha e arrependimento. E ele balbucia discretamente: “eu achei que esse vídeo tinha sido destruído”.
Hoje em dia, é inimaginável uma reação parecida à esquerda ou à direita. A animosidade, e isso faz ao menos duas décadas, virou a regra do debate público. Ambos se acham os salvadores do mundo e utilizariam de qualquer método para conquistar a vitória. À direita, um Olavo de Carvalho chama a todos que discordam dele de imbecis, filhos da puta ou de palavrões piores. À esquerda, um Ciro Gomes chama a todos que discordam dele de protofascista ou liberalzinho de merda.
A ofensa virou a regra. Aonde foram parar as ideias? Precisamos dar alguns passos para trás e instituir informalmente uma Convenção de Genebra para que algo de proveitoso saia dessa guerra cultural. Não há nada que não possa ser discutido racionalmente e como adultos, mesmo que entre os piores inimigos.
Seria pedir demais?

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