Bom senso e Filosofia contra vícios políticos, por Catarina Rochamonte

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Catarina Rochamonte é graduada em Filosofia pela UECE, Mestre em Filosofia pela UFRN e Doutora em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos (Ufscar).

O futuro do Brasil parece depender hoje mais do bom senso do que de políticas públicas específicas. O que se perdeu com as décadas de doutrinação e alienação ideológica das últimas gerações não foi apenas o progresso material; foi, principalmente, o progresso possível no âmbito moral e cultural. A reversão desse atraso não pode, porém, se dar à força, pela imposição desta ou daquela solenidade patriótica ou rito religioso. O resgate da identidade, da cultura, do senso moral de um povo, de uma nação é um processo espontâneo de retomada de consciência, de esforço de sobriedade, de luta tenaz contra a arremetida diária e sistemática da mentalidade hegemônica que quer nos tomar a linguagem, as ideias, os valores, a forma de pensar.
É preciso pensar para além dos discursos já prontos, mas não se apressar em apertar o gatilho que vai disparar a ofensa contra aquele cuja visão de mundo se distancia da nossa. Quantos amigos perdemos nesses últimos anos de tensão política e turbulência ideológica? Em quantas querelas infantis nos metemos? E o que conquistamos além de uma temível situação na qual os ânimos diariamente inflamados pelas contendas políticas obnubilam a nossa capacidade de refletir calmamente e de buscar soluções?
É óbvio que nos importamos com o transcorrer diário das movimentações políticas, mas o dia a dia do cidadão comum requer um pouco mais de pragmatismo. O pensador político liberal Benjamin Constant (1767-1830) já nos fazia notar, em seu célebre discurso Liberté des Anciens comparée à celle des Modernes, que, se aos antigos era possível a soberania nas questões públicas, aos modernos tal soberania será negada por ser ela incompatível com a liberdade na vida privada e com o forte relevo dado aos direitos individuais. Quase todos os Estados livres da Antiguidade, escreve Constant, garantiam sua existência ao preço da guerra e dela faziam sua ocupação habitual;  com a tendência moderna para a paz e para o comércio, porém, já não restaria “intervalos de inatividade na vida do homem”. Desse modo:
“O exercício contínuo dos direitos políticos, a discussão diária dos negócios de Estado, as discussões, os conciliábulos, todo o cortejo e movimento das facções, agitações necessárias, recheio indispensável, se ouso empregar esta expressão, na vida dos povos livres da antiguidade, que se teriam entediado, sem esse recurso, sob o peso de uma ociosidade dolorosa, acarretariam apenas perturbação e cansaço às nações modernas, onde cada individuo, ocupado por suas especulações, por seus empreendimentos, pelos resultados que obtém ou espera, quer ser desviado disso o menos possível.” 
Voltemos, pois, aos nossos afazeres, aos nossos empreendimentos e às nossas especulações e saiamos momentaneamente da arena do debate público, já que “nossa influência pessoal é um elemento imperceptível da vontade social que imprime ao governo sua direção”. Observemos um pouco. Deixemos aqueles que estão encarregados do governo governarem. Por que resistimos tanto a isso? Porque estamos viciados em política, viciados em tomar partido, viciados em nos envolver por inteiro com uma visão de mundo que queremos ver se impor como verdade, como se apenas a nossa adesão a essa visão de mundo não fosse o suficiente para estarmos em paz. Buscamos convencer, combater, gerar atrito, sem um momento de pausa para reflexão, para revisão de nossos posicionamentos, para amadurecimento de nossas opiniões.
Nossos políticos não nos representam senão muito simbolicamente; nossos partidos políticos não fecham totalmente com nossas convicções. Somos indivíduos. Somos capazes de aceitar momentaneamente uma dada proposta política para que ela dê os frutos que pode dar, mas isso não nos obriga a aderir a sujeitos políticos com o fanatismo de crianças ávidas por um herói que possam mitificar ou por um vilão que possam execrar; tampouco isso impõe aderência radical e cega a esta ou àquela ideologia política à esquerda ou à direita.
Precisamos nos manter livres. Precisamos ousar saber (sapere aude!), diria o filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) em seu estimulante opúsculo Was ist Aufklarüng? (o que é Esclarecimento?). E aqui chegamos a um tema específico que gostaríamos de considerar. O iluminismo, o esclarecimento, vem sendo criticado e rejeitado no discurso de certos grupos à direita que aderem a um tradicionalismo radical e antiliberal. Isso tem crescido e põe em risco nobres conquistas, pois, embora tenhamos consciência dos nossos limites e da nossa falibilidade como seres humanos e teçamos críticas a um certo tipo de progresso, há que se considerar a importância do critério racional, do bom senso e da reflexão para que dogmas, crenças, superstições ou tradições que já não nos dizem respeito possam ser reavaliadas. Isso não significa desconsiderar a tradição, mas fazer uso do bom senso, colocando-nos na situação de maioridade intelectual, preconizada por Kant no referido opúsculo.
Os liberais somos herdeiros de duas linhagens distintas: uma que remonta à antiguidade clássica, tendo assumido a forma moderna em fins do século XVII e século XVIII como a doutrina política dos Whigs ingleses e outra que remonta aos movimentos libertários que se difundiram nos países europeus nos quais o absolutismo era vigente. A primeira linhagem nos legou a noção de um ordenamento espontâneo da sociedade cujo progresso dava-se lentamente sustentado em tradições, costumes e hábitos estabelecidos pelos resultados não antecipáveis dos agentes individuais. Legou-nos também um sentido restrito e bem definido de liberdade: uma pessoa livre não está sujeita à coerção arbitrária; além disso, estabeleceu claramente a relação dessa liberdade com o império da lei e suscitou o debate acerca do poder da razão para estabelecer as regras morais e sociais.
A segunda linhagem nos legou o ímpeto livre-pensador e a atitude fortemente anti-clerical, anti-religiosa e antitradicionalista, decidida a se emancipar de qualquer autoridade ou juízo que não possa ser racionalmente justificado. A defesa absoluta e inconteste do iluminismo faz vista grossa para os seus aspectos negativos, assim como as críticas exacerbadas a esse movimento desconsideram o direito que tem a razão humana de se impôr à tradição e aos dogmas, questionando-os e aceitando deles tão somente aquilo que for respaldado pelo pelo bom senso e pela consciência crítica e moral.
Transitamos de um pensamento ideologicamente centrado para um pensamento mais autônomo e desse pensamento mais autônomo deveríamos ir às conquistas morais em vez de questioná-las. O intrigante dos tempos atuais é que aqueles que se julgam avatares protetores das luzes contra as trevas da ignorância do senso comum (como, por exemplo, os ministros do STF) endossam discursos prontos totalmente marcados pela pauta do pensamento intelectual hegemônico que, infelizmente, é uma visão de mundo materialista, hedonista e anticristã.
É preciso ter clareza quanto ao fato de que determinadas vertentes políticas e o tipo de engajamento que sugerem são incompatíveis com uma visão de mundo religiosa e moral, mas a clareza deve se estender também para a compreensão de que essa nota de espiritualidade que nos sensibiliza a alma também deve nos sensibilizar para a recuperação gradual das consciências ainda imersas no caos político-partidário-ideológico e que pouco ou nada nos aproveita a ofensa generalizada às pessoas que, por exemplo, compactuam com as ideias de viés coletivista e que muito mais profícuo seria a exposição das tendências totalitárias que já estão em germe no Estado provedor.
O momento, em suma, parece-nos, é de estudo; de busca intelectual para aqueles que querem amadurecer intelectualmente, de ativismo sóbrio para aqueles que foram chamados a atuar publicamente e de reflexão para aqueles que se deixaram contagiar pelo vício político do qual poderiam agora se abster. Isso se aplica, é claro, para a pessoa que vos escreve. No meu caso, a Filosofia deverá ser o fiel da balança. Entendida como esforço contínuo de autoconhecimento e de conhecimento, entendida como um projeto interminável de aprimoramento intelectual e moral, ela sempre chama a refletir, a duvidar, a revisitar conceitos, a rejeitar e rever concepções.
Quem clamou por ativismo foi um sociólogo equivocadamente credenciado como filósofo. Foi Karl Marx que, em suas Teses sobre Feuerbach, declarou que “os filósofos não fizeram mais que interpretar o mundo de forma diferente; trata-se porém de modificá-lo”. Não. Não nos cabe modificar o mundo. O que nos cabe é modificar a nós mesmos, é aprender a viver. Parece ser esse o sentido da frase do grande filósofo e grande cristão Blaise Pascal, com a qual encerro esse texto:
“Em geral, só imaginamos Platão e Aristóteles com grandes túnicas de pedantes. Eram pessoas honestas e, como as outras, rindo com seus amigos; e, quando se divertiram em fazer suas ´Leis´ e sua ´Política´, fizeram-nas brincando. Era a parte menos filosófica e menos séria de suas vidas. A mais filosófica consistia em viver simples e tranquilamente.”

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