Bolsonaro mira na Filosofia, mas tiro sai pela culatra, por Catarina Rochamonte

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Catarina Rochamonte é graduada em Filosofia pela UECE, Mestre em Filosofia pela UFRN e Doutora em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos (Ufscar).

No início da obra Paideia: a formação do homem grego, o helenista Werner Jaeger estabelece uma distinção entre educação e formação. Educação seria uma função natural e universal da comunidade humana, cujo conteúdo moral e prático se basearia em preceitos e regras de prudência (como honrar os pais, respeitar os estrangeiros, honrar os deuses, etc.) e na comunicação de aptidões e conhecimentos (techne); a formação, por sua vez, dar-se-ia por meio da criação de um tipo ideal, não sendo possível sem que se ofereça ao espírito uma imagem do homem tal como ele deve ser.
A utilidade era indiferente ou não essencial; o fundamental era a beleza, no sentido normativo da imagem desejada, do ideal. Os educadores, os poetas, os artistas, os filósofos aspiravam à forma, à modelagem de um tipo elevado de homem. À educação do homem de acordo com a verdadeira forma humana (de acordo com o “ser do homem”) podemos chamar humanismo e podemos dizer também que o humanismo (não o individualismo ou o coletivismo) era o princípio espiritual dos gregos.
Desde a Ilíada e a Odisséia, ou seja, desde Homero, a educação converte-se em formação,  em cultivo do homem integral por meio da direção espiritual, da força do conselho constante, do valor pedagógico do exemplo, do adestramento da personalidade em direção ao ideal. Esse ideal, porém, não é estático.
O desenvolvimento das formas espirituais da educação homérica, passando por Píndaro e chegando a Platão, manterá sempre a necessidade de elevar o homem acima de si mesmo, mas a noção de virtude (arete) à qual busca-se alçar; o ideal de homem ao qual se quer elevar não é estático, não é uma norma rígida ou definitiva, mas recolhe todas as transformações e fases do desenvolvimento histórico, tendo havido, inclusive, uma relação de continuidade entre o humanismo grego, o humanismo cristão e o humanismo renascentista[1].
Se desse legado humanista surgiram as universidades, que abrigam hoje uma diversidade de cursos, inclusive aqueles classificados na área das Ciências Humanas, não faz sentido algum contrapôr as Humanidades ao progresso da educação. Por acaso o tecnicismo que se implanta após a fragmentação do saber pode ser superior ao saber que o tornou possível?
O debate a ser travado não é sobre a relevância em si das Ciências Humanas (isso me parece inquestionável) mas acerca das medidas necessárias para solucionar o problema da sua perversão devido ao acúmulo de teses completamente contrárias ao ideal humanista que deveria norteá-las. O que se questiona, portanto, não é a legitimidade do estudo teórico, mas a forma de equacionar a teoria com a prática dentro de um ambiente cooptado por forças contrárias ao contínuo processo de evolução moral e espiritual que sempre pautou o humanismo.
Essa digressão vem a propósito da polêmica declaração do presidente Jair Bolsonaro, via Twitter, de que “o Ministro da Educação Abraham Weintraub estuda descentralizar investimento em faculdades de filosofia e sociologia (humanas).” O presidente afirmou ainda que “o objetivo é focar em áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte, como: veterinária, engenharia e medicina.” e que “a função do governo é respeitar o dinheiro do contribuinte, ensinando para os jovens a leitura, escrita e a fazer conta e depois um ofício que gere renda para a pessoa e bem-estar para a família, que melhore a sociedade em sua volta.”
Todos sabemos que o objetivo do corte é ideológico e não meramente pragmático. O ministro da educação já chegou a declarar que “um pouco da contribuição que podemos dar é como vencer o marxismo cultural nas universidades”. O objetivo é louvável, mas a estratégia apresentada nem tanto. Em analogia com o Projeto Escola Sem Partido, podemos dizer que o diagnóstico que move o projeto é correto, mas a medida para resolver o problema deixa a desejar.
De fato, há um gravíssimo aparelhamento ideológico das escolas e das universidades e vivemos o paradoxo de ver nossos jovens serem desumanizados nos cursos de Humanas, mas, como bem afirma o professor Rodrigo Jungmann,  “os conservadores se queixam, com razão, de que a esquerda domina a cultura precisamente em função de sua presença acachapante nos cursos de humanas, que (…) com considerável frequência servem a um proselitismo político raso. Mas a supressão de cursos jamais será a solução”. E acrescenta: “a direita não deve abolir cursos de humanas. Deve entrar neles, assim como no direito, na imprensa e todas as demais instâncias de formação e circulação de ideias”.
Concordo com o professor Jungmann e acrescento que, sendo eu da Filosofia e, mais especificamente, da subárea de Metafísica não poderia jamais ser adepta de uma visão imediatista, tecnicista, pragmática, positivista, em suma, reducionista. Aristóteles dividia as ciências em três ramos: as ciências teoréticas (que buscam o saber pelo saber: metafísica, física/psicologia e matemática), as ciências práticas (que buscam o saber com a finalidade de aperfeiçoamento moral: ética e política) e as ciências poiéticas ou produtivas (que buscam o saber em função do fazer, ou seja, com o objetivo de produzir determinados objetos).
As ciências teoréticas são as mais elevadas, as que têm mais dignidade e valor. E dentre as ciências teoréticas a mais nobre é a metafísica, justamente porque é a mais inútil. Segundo as palavras do ilustre filósofo “todas as ciências são mais importantes do que essa, mas nenhuma lhe é superior.
É bem verdade que a atual produção acadêmica brasileira na área de Humanas (com raras e louváveis exceções) é não apenas inútil, mas também nociva. Mas não podemos fazer coro ao discurso que rebaixa as Ciências Humanas em nome de um tecnicismo pragmático reducionista.
Ouso dizer que a Filosofia faz-se cada dia mais urgente e necessária e que não é deixando-a morrer à míngua que se resolverá o problema do “marxismo cultural” nas universidades. Quem, afinal, terá cacife para combatê-lo senão aqueles que lhe estudam as entranhas e que estudam os outros pensadores que lhe fazem frente?
Não tenho a solução para o grave problema que assola a nossa educação. Mas o bom senso me mostra que cortar gastos da pesquisa em Filosofia é um equívoco. Falo como alguém que vivenciou os dois lados da questão: fui bolsista de mestrado e de doutorado em Filosofia e, quando  me tornei professora, fui alvo das milícias ideológicas de esquerda (meus colegas professores) que hegemonizavam o curso.
Queria pesquisar, queria estudar, queria escrever. Precisei do fomento na forma de bolsa de pesquisa. Batalhei por ele. E ele é muito escasso. Há poucas bolsas, só os primeiros colocados conseguem. O orçamento para a pesquisa em Filosofia é absolutamente irrisório em relação ao das outras áreas. Já é assim. Já é bem difícil. E se o critério para a concessão da minha bolsa fosse, como quer o presidente, o “retorno imediato ao contribuinte” eu estaria frita, pois minha dissertação foi sobre a metafísica da Vontade de Schopenhauer e a minha tese foi sobre intuição e mística, em Henri Bergson.
Para tornar o texto um pouco mais prático e dizer algo para a solução do problema, acredito que, se é pra redirecionar a verba, ela deveria ser redirecionada como um todo, passando a se cobrar mensalidades no Ensino Superior para quem pode pagar e investindo o dinheiro do contribuinte na educação básica.
O foco do governo seria então a educação básica e o Ensino técnico e profissionalizante. Travar uma guerra contra a pesquisa acadêmica já precária é animar a militância universitária já enfurecida e fazer coro à retórica de ataque às ciências humanas é decretar a falência do pensamento e aderir ao fanatismo.
[1]     Cf Da paideia grega ao humanismo cristão In ROCHAMONTE, C. Um olhar liberal-conservador sobre os dias atuais (p.142-146)

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