A volta dos que não foram e os absurdos eleitorais, por Raquel Machado

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Raquel Cavalcanti Ramos Machado é advogada, mestre em Direito pela UFC, doutora em Direito pela USP, professora de Direito Eleitoral e Direito Administrativo da UFC e Visiting Research Scholar da Wirtschaftsuniversität, Viena, Áustria. Escreve quinzenalmente para o Focus.jor.

Na infância, intrigavam-me frases absurdas como “a volta dos que não foram”, “as tranças do rei careca”, “os quatro cantos da sala redonda”. Mal poderia imaginar que, na vida adulta, encontraria, no cenário político e jurídico brasileiro, exemplo prático de aplicação de frase que parece um contrassenso. Não que nosso cenário político não seja propício ao absurdo. Constantemente, somos tomados por surpresas quase surreais, como se Salvador Dali pintasse os dias. O que impressiona na relação entre a frase e o fato que examinarei aqui é a adequação, como se fosse um título feito para esse quadro da vida política brasileira.
Refiro-me ao retrocesso representado pela Lei nº 13.831/2019, que anistia os partidos políticos das multas referentes à não aplicação do fundo partidário na criação e manutenção de programas de promoção e difusão da participação política das mulheres.
Com a anistia, as mulheres, historicamente impedidas de avançar em toda sua potência na política, são obrigadas a voltar, regredir, retroceder vários anos, senão décadas, aos tempos em que não se consagrava sua participação na política como um direito com proteção legal, de natureza fundamental, protegido constitucionalmente, portanto, e como um real benefício social da representatividade. Ou seja, elas “não foram, mas já estão voltando”. Trata-se de verdadeiro retrocesso de um valor jurídico consagrado que não chegou a ser concretizado, em grande parte, por culpa dos partidos. Culpa essa que está sendo perdoada.
Não pretendo aqui invocar o princípio jurídico da vedação do retrocesso (efeito cliquet) no âmbito de direitos fundamentais. A situação não demanda essa sofisticação de raciocínio, diante da natureza do retrocesso em questão, que se revela irracional, desnecessário e grosseiro, para o atual momento histórico.
A história, evidentemente, não é feita apenas de avanços. Retrocessos, às vezes, se impõem como condição para o progresso posterior, ou mesmo se apresentam como fatalidade da qual não se pode escapar. O retrocesso em questão, todavia, não se enquadra em uma hipótese ou outra.
Não é uma fatalidade, porque equivale a uma opção legislativa. E, pior, uma opção de auto perdão, ou seja, uma anistia feita por aqueles que, direta ou indiretamente, violaram a norma. Não é um retrocesso necessário para um futuro progresso, porque não possibilitará que a inserção da mulher na política seja mais respeitada no porvir. Pelo contrário, é um exemplo de que esse valor jurídico é violável e não tão relevante, já que pode contar com a anistia posterior.
O mais grave do perdão em questão é que ocorre em um momento de economias orçamentárias. Abrir mão de receitas, além de exigir adequação às normas da lei de responsabilidade fiscal, requer que a abdicação da quantia respectiva se dê em razão da promoção de um bem ou um valor juridicamente relevante. No caso, a renúncia de receita se dá com a violação do princípio da igualdade. Trata-se de opção legislativa inconstitucional, porque irracional diante do contexto econômico, e porque violadora de princípios constitucionais, em retrocesso injustificável.
O Brasil tem um longo caminho a percorrer na implementação de direitos de gênero, é preciso, portanto, avançar, sem retornos a um cenário injusto e cinzento que não condiz com a diversidade de nossa sociedade, e não irá nos levar a integrar essa poderosa diversidade num conjunto sinérgico de virtudes complementares.

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Atlas/Focus: dobradinha Cid-Luizianne soma 59,6% dos votos válidos para o Senado

Atlas/Focus: Elmano 49,9% x Ciro 49,6% dos votos válidos; Ceará chega à urna separado por um fio

Focus/Atlas: Aprovação de Elmano vira a favor; Avaliação do governo melhora, mas continua dividida

Atlas/Focus: Cid e Luizianne nas duas primeiras posições no Senado; dupla abre vantagem sobre Wagner e Alcides

Atlas/Focus: Elmano avança entre os mais velhos e nas faixas de maior renda; Ciro concentra vantagem entre jovens

Atlas/Focus a seis dias da eleição: Elmano 49% x Ciro 47,6%

Coligação de Ciro Gomes tenta barrar pesquisa Atlas/Focus, mas TRE rejeita e impede censura

Atlasintel: A polícia e a confiança que ainda resiste

Atlas/Focus: Lula mantém vantagem larga no Ceará, mas avanço de Flávio reduz distância

Atlas + Focus: Cid lidera consolidado, Luizianne encosta e Wagner mantém disputa aberta entre os três primeiros

Focus/Atlas: O placar muda com Elmano 48,5% x Ciro 48% e disputa entra na reta final em claro empate técnico

Entenda a super sexta-feira: três pesquisas e três fotografias em uma disputa que continua aberta

MAIS LIDAS DO DIA

Ceará registra maior crescimento da votação bolsonarista no Nordeste desde 2018

Bancada feminina no Congresso será a maior da história

Uece lidera indicadores de ensino e pesquisa entre estaduais do Norte, Nordeste e Centro-Oeste

Bets começam a sair do ar nesta terça-feira após proibição de operações no Brasil

Professor. Foto: Divulgação/Governo do Estado

Ceará tem melhor avaliação da rede pública de ensino entre estados, aponta pesquisa

Emplacamentos de veículos batem recorde para setembro, com 509,7 mil unidades

A sede de mudança; Por Assis de Mesquita Ciríaco

Lavareda vê “ilusão de ótica” no 1º turno: Lula perdeu para a abstenção

Ciro Gomes não reconhece derrota e acusa: “Fomos roubados”