
“A maior corrupção se acha onde a maior pobreza está ao lado da maior riqueza”.
“Que resta, pois? Uma democracia sem experiência, desunida, corrompida e egoísta. […] A catástrofe é inevitável”.
José Bonifácio in “Projetos para o Brasil”.
Um velho jornalista cearense, homem de pouca cultura, favorecido, porém, pela sabedoria e senhor de proverbial esperteza, temia que, chegada a modernidade aos filhos do Ceará, pusesse em risco antigos e prezados hábitos provincianos. Receava, levado por assomo incontrolável ao arrancar um pé de coentro na latada do quintal de sua casa, deparar-se com ruidosa manifestação à sua porta, com a vizinhança exaltada, proferindo patrióticas palavras de ordem em defesa do meio-ambiente. Por aquele tempo que não vai longe, desrespeitar a flora, arrancando folhas, caules e raízes, sem autorização competente dos órgãos encarregados da preservação da natureza, já configurava crime com severa cominação de pena, mas não caracterizava, ainda, um ato político, atentado intencional contra a integridade da natureza e a sobrevivência da humanidade.
Os tempos são outros, as coisas e os homens mudaram — e não foi pouco, a crer nos reclamos dos conservadores mais reacionários contra os avanços do progresso.
José Bonifácio (de Andrada e Silva, para os menos íntimos), em seus escritos sobre o Brasil, ordenados como “Projetos para o Brasil” pela historiadora Mirian Dolhnikoff, Companhia dos Letras, São Paulo, 1998, acreditava que “as nações pouco cultas, mas vivas e impetuosas como a nossa, detestam novidades de prática, mas abraçam logo todas as especulativas, sejam quais forem”. Não se enganava o Patriarca nessas conjecturas, como não se equivocou, aliás, em muitas outras severas considerações sobre o Brasil e os brasileiros. Antes de prosseguir, devo fazer, entretanto, uma confissão, para mim desconcertante. Ando preso a certas leituras heréticas. Pus-me a remexer livros postos justamente sob guarda discreta, caídos em desuso, e fiz algumas descobertas surpreendentes. Dei com Bonifácio, cuidadoso minerador dos desvios do caráter brasileiro, e recolhi algumas pepitas que muito me intrigaram e suscitam, desde então, a curiosidade de leitor bissexto dos feitos da nacionalidade e de seus intérpretes mais respeitados… Daí a remoer, deliciado, as conjecturas do futuro Patriarca foi um passo. De posse de tal tesouro, compartilhei com amigos a descoberta recente. De um deles veio o primeiro balde de água fria: “cuidado! Bonifácio era um conservador, botava boneco de progressista, mas não passava de reacionário, rico, elitista, cuja educação o afastara de suas raízes brasileiras”. Temi pelo pior; o que pensaria o amigo zeloso, dotado de tamanha prudência, em arrulhos históricos, das leituras discreteadas por omissão cuidadosa que fizera a desoras do conspícuo Joaquim Nabuco? E de Feijó? E de todos os Melo Franco das Gerais, de Oliveira Viana? Vivi momentos de pânico, mas consegui recuperar minhas ingênuas persignações.
Deitadas estas linhas iniciais, dei-me conta que elegera tema controvertido e impróprio para quem, como nós brasileiros, acostumamo-nos a viver cercados de maus presságios e carentes de otimismo e esperança. Há, entretanto, entre nós, brasileiros, os que, indiferentes às imposições do real feito realidade, persistem em ser (ou parecer) felizes a qualquer preço. Há nesse meio quem o faça por exercício de catarse ou descarrego – a buscar nesse precário estado de espírito forma de libertação da realidade – daquela que não trazemos nos olhos e que não queremos reconhecer, muito menos as aceitar. Esses impulsos desiderativos são parte, convenhamos, do nosso kit de sobrevivência: a ele nos agarramos a exemplo do Velho Fidalgo que, apesar das ponderações de Sancho, revestia a realidade que o atormentava com o manto diáfano da fantasia das suas boas obras cavaleirescas.
De simples expectador a participante mais ou menos engajado
Tudo mudou com a expansão das redes sociais, mídia alternativa que conferiu ao homem comum, simples expectador, o poder de reconstruir a realidade a partir de seus íntimos desejos. Ou por força de engajamento de fé e o impulso das persignações ideológicas.
Seja como for, nada é, de fato, como dantes. A deformação da realidade e a intolerância (a “proof news”, argumento usado para validar uma verdade, e as “fake news”, a dissimulação da verdade através da reinvenção da realidade) são os ingredientes poderosos que captaram as nossa mentes e a nossa capacidade de enxergar e julgar o que percebemos, na medida em que “enxergamos” apenas o que pretendemos ver.
O mundo viveu esse acentuado processo de mimetismo psicológico – e nós, brasileiros, o abraçamos com aquele “ímpeto especulativo das nações pouco cultas”, a que se referia José Bonifácio.
Qualquer assertiva lançada de público ou entre amigos — opinião, argumento ou simples discrepância nos dissensos eventuais — encontrará, de imediato, o seu contrário, a replica no tom de desafio guerreiro. Reação natural, dir-se-ia, puro exercício saudável de lógica e dialética, índice de pluralidade ideológica, o que seria verdadeiro, não fosse a condenação imediata do interlocutor à classificação sem perdão de engajamento condenatório.
O “nós contra eles”: a cavilação e a hipocrisia na política
Ganhou foros de judicatura implacável o “nós contra eles”, direita contra esquerda, como se conhecêssemos o que de fato uma e outra pleiteiam e pelo que lutam. O público e o privado, com o Estado de permeio; a verdade popular (“a voz do povo é a voz de Deus”…) contra as engrenagens do “sistema”. Mais recentemente, “coxinhas” contra “mortadelas”, a cavilosa oposição entre o combate à corrupção e seus efeitos “funestos” sobre a economia; o anátema final contra o combate à corrupção como recurso a estratégias dissimuladas de privação do exercício da política. A defesa da manutenção da raça negra em estado de pureza contra as tentativas de miscigenação impostas pelas elites, no intuito de degradar esse rico patrimônio étnico e apagá-lo de nossa Cultura; a reserva de vagas nas universidades como estratégia de socialização de oportunidades educacionais e a contestação da meritocracia na produção e conquista do saber, denunciada como expediente reconhecidamente fascista. A proibição da fabricação de “pâté de foie gras”, como prática importada da cozinha burguesa europeia pelos que sofrem com os atrozes padecimentos infligidos aos gansos. Agora, surgem os que porfiam em favor da proibição da carne às segundas-feiras (o rito católico, impunha às sextas-feiras, segundo antiga tradição mosaica) como correção dos descuidos cometidos para os lados do mar Vermelho. Na luta aguerrida pela sobrevivência da Previdência Social, exalta-se a contraposição entre funcionários públicos e trabalhadores privados. A antinomia que leva aos dispêndios públicos descontrolados e à renúncia fiscal por “razões de Estado” e de governo. Por sua vez eram as universidades que abriam mão de sua autonomia e apoiavam candidatos de partidos à presidência da república ou que renunciavam à sua independência para a produção de conhecimento e a sua transferência em compartilhada fruição social, em nome de causa mais distinguida. A liberação da arte pareceu a muitos forma de expressão dos conflitos sociais, morais e sexuais como recusa e indiferença à cediça consideração pelos valores estéticos da criação artística. Louvamos a proibição da vaquejada por força da piedade que invade os corações pelo sofrimento dos garrotes e bovinos crescidos, esquecidos que somos nós que deles nos alimentados, sob a forma de proteínas, após abate industrial segundo regras estritas acordadas entre frigoríficos. Parece justa a muitos cidadãos acima de qualquer suspeita a sublevação dos réus de “colarinho branco” contra o sistema judiciário, já que aos desvalidos de colarinhos não tocam as exceções pretendidas. Por fim, acostumamo-nos à verbalização incontida e prenhe de sólida adjetivação, entre brocardos latinos, deitados por magistrados aplicados sobre questões que serão por eles julgadas. A intimidação feita, sutilmente, a parlamentares em troca de votos, é explicada como relação usual e pertinente sob a forma consagrada de “ações de governo” mecanismo próprio ao atendimento dos superiores interesses do Estado.
A cada uma dessas contraposições factuais corresponde uma classificação condenatória, inapelável: não basta denunciar o opositor caído em pecado de heresia por grave dissensão de opinião como retrógrado, reacionário, liberal, neoliberal, fascista ou comunista – há que desmoralizá-lo e os seus propósitos, ideias e argumentos. Não que se pretenda escamotear a necessidade de que devam ser tratadas e discutidas, per se, como, aliás, todas as controvérsias devem merecer essa atenção. Mas que não seja sob o guante maniqueísta do bem e do mal, do “nós” e do “eles”, do “progressista” e do “reacionário”, das mentes esclarecidas a enfrentar a obtusidade dos “alienados”de toda ordem.
Por que, então, nos preocuparmos com esses desvios de conduta ideológica? Todo mundo, a rigor, está mentindo. Swift já sugerira em sua “Arte da Mentira Política” (Amsterdam,1733), esticando o fio condutor de Maquiavel, que “os ministros enganam o povo para governá-lo, o povo faz correr boatos caluniosos e rumores mentirosos para se desembaraçar deles”.
Afinal, o segredo da mentira, para que as “fake news” ganhem contorno de realidade e possam sugestionar a opinião política está em não ultrapassar os limites da verossimilhança: “esta mentira é ‘verdade’?”. Ademais, há uma tênue diferença entre o “boato” e a “percepção”; entre a mentira que se cria, constrói e compartilha e a forma como as pessoas, os cidadãos prestantes de uma República, enxergam a mentira que gostariam transformar em verdade. Não há “fake news” sem credulidade voluntária, espontânea. A mentira, na política, não subsiste, afinal, sem uma certa vontade transformadora de lhe emprestar credibilidade… Não foi Trump quem descobriu as virtudes das “fake news”: Maquiavel já reconhecera, entre príncipes florentinos, a força da desrazão do improvável nas relações de poder entre os homens. E entre as mulheres…







