
Pesquisadores, economistas e cientistas políticos vem nos últimos anos indicando que o centro do mundo havia mudado de lugar. As relações comerciais se intensificavam com força pelo Pacífico e não mais pelo Atlântico. As grandes revoluções começavam a aparecer na China e nações como a Coréia do Sul, Singapura e a Índia se mostravam como expoentes na tecnologia, na indústria e no setor de serviços.
Os países asiáticos apresentam até hoje uma importante cultura e com a participação de milênios no desenvolvimento da humanidade em diversas áreas, mas ao mesmo tempo é uma região aonde conflitos intensos e modelos imperialistas avançaram uns sobre os outros.
Uma das mais importantes relações políticas e econômicas na região se faz com a Coréia do Sul e o Japão, aliados de primeira linha dos Estados Unidos na região e economias que conseguem diminuir a influência e o avanço da China no campo geopolítico. Democracias vibrantes e com uma visão aberta do capitalismo liberal, essas duas nações desenvolveram juntas tecnologias de ponta no setores da química, transmissão de dados e principalmente no mercado automobilístico.
Entretanto a situação vem mudando de escopo nos últimos meses, e uma nova disputa comercial acompanha o duelo entre a China e os Estados Unidos. Seguindo as táticas de ataques diretos do presidente Donald Trump, o presidente da Coréia do Sul, Moon Jae-in, e o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, começaram a se digladiar publicamente.
As tensões entre os dois países são antigas, principalmente durante o período de 1910 e 1945, quando a Coréia era parte do Império do Japão, algo que ainda é profundamente sentido pelos coreanos. Após o fim da Segunda Guerra e a declaração de paz na região diversos acordos foram acertados pondo fim a reparações de guerra e abusos por parte dos japoneses.
Com o acirramento das disputas internacionais e a pressão dos Estados Unidos em cima de seus aliados, a necessidade de expandir a participação dos dois países no comércio e nos investimentos mundiais se tornou uma obsessão entre seus líderes, principalmente com eleições se aproximando e nenhum deles querendo mostrar fraquezas ou concessões.
Nos últimos meses as cortes coreanas começaram a julgar novas reparações de guerra por parte de empresas japonesas no país, incluindo multas e confiscos de imóveis na região, o que se mostrou inaceitável por parte dos japoneses, que alegam terem pago todo tipo de reparação ao fim do conflito. Em contrapartida o Japão passou a diminuir a exportação de componentes eletrônicos essenciais para a indústria coreana, o que ocasionou um boicote a compra de carros japoneses e assim uma nova guerra comercial surge na Ásia.
Os coreanos estão procurando aumentar seus investimentos para diminuir sua dependência de produtos japoneses, mas ao mesmo tempo elos são quebrados dentro de importantes cadeias globais de valor, o que termina prejudicando inclusive outros países na região.
Neste conflito, em parte criado como uma consequência da guerra comercial norte americana, efetivamente diminui a influencia dos Estados Unidos na região, fazendo com que articuladores intervenham no conflito dos dois mais importantes aliados americanos. Os chineses que poderiam teoricamente se beneficiar dessa disputa, se apresentam muito mais preocupados com os efeitos que isso pode trazer em sua guerra comercial com os Estados Unidos, principalmente agora aonde desvalorizações cambiais começam a ser usadas como instrumentos de Economic Statecraft. A lógica que permanece é que não há muitos ganhos para empresas chinesas com uma Ásia instável, principalmente após os conflitos semanais em Hong Kong.
A política externa do presidente Trump ensinou aos seus aliados que motivos rasos como “segurança nacional” ou “orgulho histórico” podem ser desculpas para tentar impor suas vontades em cima de nações vizinhas. Ao final as duas nações tendem a resolver suas diferenças comerciais dentro do âmbito da Organização Mundial do Comércio, mas ao mesmo tempo elas querem ser a principal democracia liberal da Ásia, não estando uma na sombra da outra.
A integração econômica por meio de blocos regionais e acordos multilaterais é no longo prazo a melhor maneira de fazer com que nações prósperas não caiam na tentação de reavivar antigos conflitos e infringir danos a sua própria economia e a sua população, como foi o caso da União Europeia com nações como França e Alemanha, que possuem histórico de grandes conflitos, mas hoje são unidas pela economia e por uma complexa rede de interdependência.







