Amazônia em chamas, por Rui Martinho

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

Por Rui Martinho
Amazônia ou “nossa casa” está em chamas, diz o presidente da França e enfatizando o caráter prejudicial que os incêndios no Brasil têm para o mundo. A chefe do governo alemão, Angela Merkel, fez eco às palavras do francês, apoiando a tese de que se trata de uma crise internacional que motivaria a convocação do G7 para tratar do assunto.
Não cabe, no momento, entrar no debate sobre mudança climática, discutir os ciclos de modificação da órbita terrestre e de atividade do próprio sol em relação ao clima; a modificação de correntes marítimas quente e fria por causa de atividade vulcânica submarina; o fato de que o balanço da produção e consumo de oxigênio e dióxido de carbono pela floresta amazônica é equilibrado ou até desfavorável ao oxigênio, contrariamente ao argumento de que a Amazônia é o pulmão do mundo. Embora tudo isso seja relevate, criou-se uma percepção dominante sobre o tema, seja ela certa ou errada. A presente crise não pode esperar a solução da pendenga científica.
Repudiemos a exploração predatória do ambiente, independemente do que se possa dizer sobre mudança climática. Teorias conspiratórias são frágeis. Conspirações existem, mas são tantas se opondo umas às outras que o resultado delas frequentemente é contrário ao pretendido pelos conspiradores. A Primeira Guerra Mundial, iniciada pelo Império Áustro-Húngaro contra a Sérvia, terminou por destruí-lo. A Segunda Guerra Mundial, iniciada para alçar a Alemanha a uma posição hegemônica produziu efeito contrário. Mas conspirações podem produzir graves resultados, ainda que contrários ao planejado pelos seus mentores.
Reconheçamos algumas coisas estranhas na política de salvação do planeta. Contrariamente ao procedimento adotado quando dos habituais incêndios nas estações secas da Califórnia e outros lugares, no caso da Amazônia os países preocupados com o planeta não ofereceram ajuda para o combate do fogo. Aviões e helicópteros foram oferecidos a Portugal para enfrentar a devastação de área muito menor. Os nossos incêndios estão acontecendo na estação seca, como de hábito, e conforme a média histórica e isso não é noticia. Os governos dos EUA, França, Itália e Portugal, quando de grandes incêndios recentes, não foram responsabilizados pela destruição da natureza, como não o foram os governos estaduais ou municipais do Brasil. Empresas de países europeus vinham praticando exploração predatória na Amazônia e foram tolhidas por autoridades brasileiras. Tudo isso é, digamos, suspeito.
A nossa matriz energética é limpa: energias renováveis representam 80,4% do total consumido (Empresa de Pesquisa Energética – EPE, ano base 2017); gás natural, a menos poluente das energias fósseis, é a que mais cresce entre as não renováveis; A mais poluente, o carvão, tem participação insignificante. O nosso clima não exige gasto de energia com calefação, contribuindo assim para sermos mais limpos do ponto de vista energético.
É um truísmo dizer que interesses exercem poderosa influência nos acontecimentos. A discussão ambiental ganhou importância quando a OPEP, durante a Guerra do Yom Kippur, multiplicou o preço do petróleo. Foi para salvar o planeta? A União Europeia tem interesse em proteger a sua agricultura que não pode concorrer com a nossa. Macron enfrenta problemas internos e tem interesse em pousar de defensor do planeta. Angela Merkel sofre desgaste político interno ligado ao problema dos imigrantes e da desaceleração da economia. Empresas transnacionais têm interesse na globalização, que está deixando de ser apenas uma política de livre comércio para adquirir dimensão política, passando assim a globalismo. Grupos ideológicos precisam de uma Dulcineia para defender e um vilão para combater, não hesitando em montar qualquer pangaré teórico. A aliança entre gato e cachorro na “defesa do ambiente” é sintomática. Fotos de satélite mostram a maioria dos incêndios na Bolívia, mas não se diz uma palavra sobre isso. Só os governos da China e da Rússia não estão preocupados com a destruição do mundo a partir do Brasil. O neocolonialismo travestido de salvação do planeta não fere os pruridos democráticos de nenhuma corrente idelógica, quando se trate desmontar o apocalípse.
A política tem personagens singulares. Dilma fundou o estilo de oratória conhecido como dilmês. Bolsonaro adotou-o. Faz declarações que são uma delícia para os estadistas empenhados em amealhar votos e empresários dedicados em lucrar, ambos defendendo o mundo. Quixotescos ativistas, temendo o apocalipse ecológico, juntam-se aos próceres políticos e megacapitalistas. Embora não crendo em fantasmas devemos saber que eles existem. Conspirações também. O globalismo tem seus planos e as sanções econômicas estão em moda. Não nos deixemos manipular.

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