
Opinião Focus
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A questão central no confuso e delicado momento ao qual o Ceará foi submetido é a seguinte: greve de policiais é motim. Motim com policiais usando armas de fogo e capuzes é ainda mais grave. É a barbárie. É o enfrentamento intolerável contra as instituições, contra a sociedade e contra a democracia. Ao se amotinar, se mascarar como o fazem os bandidos, manter suas armas em punho, usar as instalações públicas e viaturas públicas para seus atos, ir às ruas aterrorizar e mandar fechar o comércio, o grupo de insurretos se transformou em milícia. Sem mais, nem menos.
A negociação do estado de direito com os amotinados só pode ter uma linha: que se rendam. Em nome da lei e da ordem. Em nome da Constituição. Não há meio termo. O ponto central é a legalidade. Qualquer outro formato será a supremacia militar sobre o poder civil e o sobre o estado de direito.
Outro item fundamental: os líderes dos policiais militares firmaram a negociação e o acordo com o Governo. Uma negociação que envolveu até o Ministério Público. Os senhores líderes, incluindo os que possuem mandato parlamentar, saíram da reunião com o Governo cantando vitória. Voltar atrás depois da insatisfação de parte da base é uma demonstração de fraqueza. Acordo é acordo e precisa ser respeitado.
Detalhe: o Governo se sentiu derrotado com o acordo. Internamente, acha que cedeu demais. Porém, acordo é acordo e quem está pagando por esse é a população que precisa ser protegida pelos beneficiados.
O que ocorre hoje no Ceará e em outros estados do Brasil se relaciona com a politização das forças militares. Politização, partidarização e ideologização. Dentro do setor, disputa-se votos, disputa-se eleições. No Ceará, por exemplo, há vereador de Fortaleza, deputado estadual, ex-deputado estadual, ex-deputado federal e deputado federal. Ou seja, políticos que fazem sua carreira no movimento e a partir das associações mantidas por descontos compulsórios nos salários dos servidores públicos da área de segurança.
Parecia óbvio que esse conjunto de circunstâncias daria no que deu.
Para o Governo, com toda a razão, não há nova negociação a ser feita pelo simples motivo de que a dita cuja já foi feita e anunciada aos quatro ventos pelos dois lados da mesa. Tanto que o fruto desse acordo foi enviado para análise e voto do Poder Legislativo.
O caso de Sobral é triste. Homens encapuzados percorrendo as ruas da cidade, com viaturas, sirenes ligadas, a mandar fechar o comércio. Intolerável. Na sequência, se fecham com armas e viaturas no quartel. Uma democracia chama isso de quartelada. Golpe.

Já temos um cadáver produzido pela ilegalidade. Na noite de quarta-feira, 19, bandidos se esgueiraram do matagal da cidade com policiamento desorganizado pelo movimento e atiraram numa mãe de família. Seu nome é Maria de Paula (foto). Ela dirigia seu carro com os dois filhos pequenos no banco traseiro. Foi lá no bairro Edson Queiroz, avenida Manuel de Castro Filho, por trás do Centro de Eventos, área que, no passado, ficou conhecida pelas abordagens de bandidos aos motoristas. Os assaltos deixaram de acontecer justamente por causa da constante vigilância policial naquela via.







