Pandemia e planejamento, por Rui Martinho

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

A pandemia revelou fragilidades. Alertas de pesquisadores sobre a possibilidade de evento detalhadamente descrito como muito semelhante ao que está acontecendo foram ignorados. Faltou planejamento. Quem iria buscar votos propondo realocação de verbas para um perigo nunca visto pelas gerações atuais? A busca de “negócios da China” criou uma dependência impensável e perigosa de todo o mundo. Mais uma vez faltou planejamento. A crença no planejamento centralizado ganha força. Depois de fracassar nas experiências concretas, o planejamento centralizado e diretivo do socialismo real perdeu prestígio. O socialismo irreal, voltado para a mobilização de minorias magoadas, optou pelo domínio da cultura como meta (deveria ter outro nome?). A gestão centralizada da economia pelo Estado foi quase esquecida ou até negada.

A pandemia ameaça destruir as empresas e exige grande intervenção do Estado. A falta de planejamento central e diretivo voltou a ser prestigiada. É grande a sofreguidão com que os intelectuais se atiram ao sonho da República de Platão (428/427 – 348/347), na qual os filósofos governavam. É a sedução do poder, como disse Friedrich Nietzsche (1844 – 1900): vontade de potência. Sepultam a autocrítica do autor da República, na obra “As leis”. Preferem a primeira, com ela sentem-se virtuosos defendendo um mundo perfeito, embora tal perfeição não fosse a igualdade de todos em tudo, como apregoam. Os filósofos governavam, os trabalhadores deviam sustentá-los e os militares garantir-lhes o poder. Era a igualdade de alguns (os filósofos) em tudo, comparável aos “mais iguais” da ficção de George Orwell (Eric Arthur Blair, 1903 – 1950). Os candidatos a reis filósofos são perseverantes. Não temem que a criatura se volte contra o criador, apesar das experiências históricas nesse sentido. A obra de Lesley Chamberlain (1951 – viva), “A guerra particular de Lênin”, descreve a perseguição sofrida pelos intelectuais nas circunstâncias em que esperavam ser reis, apossando-se do espólio da burguesia.

O planejamento central diretivo é atraente. Permite centrar os recursos da sociedade nos objetivos dos dirigentes do Leviatã. O absolutismo realiza façanhas. Portugal, pequeno e pobre, conquistou grande parte da América do Sul, África e Ásia; transformou o Índico e o Atlântico Sul em lagos lusitanos. O sol não se punha nas terras de Felipe II, da Espanha, tão absolutista e centralizadora quanto Portugal.

Igualmente grandiosos foram os feitos do totalitarismo. A Revolução Francesa pisou com suas botas desde de Lisboa até Moscou; deixou o código napoleônico, mudou mentalidades forçando com sucesso considerável mudança cultural. A URSS venceu a Alemanha, saiu da IIGM com quatro vezes mais tanques e artilharia, além de cinco vezes mais aviões de caça do que todos os países capitalistas juntos e com o maior exército já visto até hoje. Fez o maior arsenal nuclear e um programa espacial admirável. A pequena e miserável Coreia do Norte construiu armas nucleares e mísseis como os de grande potência. O problema do planejamento central é que ele só nasce no jardim das ditaduras, seus objetivos passam longe do bem-estar social e arruínam o Estado. Portugal, Espanha, URSS e Coreia do Norte são exemplos disso.

A intervenção do Estado, em momentos de desastres, é necessária e proveitosa. Chamar um policial (o Estado) quando o ladrão ataca não justifica um policial morando em cada casa permanentemente.

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