
Por Luís-Sérgio Santos
Especial para o Focus.jor
The only way to protect the right to publish is to publish. — Ben Bradlee
Vi The Post, de Steven Spielberg com Tom Hanks e Meryl Streep. Que filme. Forte, intenso, emocionante. Posso dizer que Spielberg me representa. O jornalismo dos tempos gutenberguianos dos anos 1970. O filme de Spielberg é valioso demais: resgata o ambiente de trabalho daquele período. Telex, teletipo, composição a quente, linotipo (linotype — a line of type), matrizes totalmente analógicas. A minúcia da narrativa visual chega a mostrar o ponto de fusão do chumbo que alimentava as linotipos, um detalhe sutil, para iniciados… emocionante. Que zelo teve o diretor, mais uma vez, na construção da sua narrativa.
Uma minuciosa sequencia mostra os detalhes de produção gráfica do jornal na era analógica. Matrizes construídas a ferro e chumbo fundido. O diretor Spielberg reconstitui as oficinas e a redação — uma réplica perfeita — , mostra o fluxo de produção, de impressão e até a logística de distribuição em sequencias rápidas porém marcantes.
A heróica linotipo, as folhas quilométricas de telex, a tecnologia do telefone fixo — a ferramenta principal na ponta na apuração da notícia —, e a destemida máquina de escrever com o papel em forma de lauda compõem o cenário da redação predominantemente masculina onde a fumaça do cigarro e as canecas de café eram inseparáveis coadjuvantes.
Estávamos apenas nos anos 1980 e tudo parece tão distante. Essa realidade analógica cria um paradoxo, hoje: como as novas gerações desenvolveram essa enorme dependência química em relação às tecnologias digitais na apuração da notícia? Existem evidencias de que a apuração para quando a internet cai. A internet e as insalubres redes sociais criaram as condições objetivas para a proliferação de “fake news” e de “barrigadas” recorrentes.
“The Post” é uma aula de jornalismo em muitos planos. No plano da apuração, da produção, da decisão de publicar (ou não), a correlação de forças na redação, o papel do jurídico no processo de decisão, a preservação das fontes, os riscos e, principalmente, o compromisso com o princípio fundador do jornalismo liberal, a obrigação de publicar. Os conflitos de relacionamento — Katherine Graham, a publisher do Post, era amiga de Robert McNamara, a quem chamava de Bob. E Ben Bradlee era comensal na Casa Branca de Jackie e John Kennedy.
A cena onde Kat Graham visita Bob McNamara dizendo que o Post vai publicar os “papéis do Pentágono” é especialmente emocionante. Estabelece-se um diálogo duro, tenso e honesto de ambas as partes. McNamara refere-se a Nixon, o presidente, como um “filho da puta” que vai “ferrar” o Post. O jornal foi acusado de ser democrata, dada a aproximação de Graham e de Bradlee especialmente com os Kennedys. Parece que nada disso comprometeu as grandes decisões editoriais do Post. O episódio dos “papéis do Pentágono” foi o marco na projeção do jornal na perspectiva do jornalismo investigativo.
Conheci pessoalmente três personagens da história: Phil Graham, Ben H. Bagdikian e Ben Bradlee. Phil Graham na própria redação do Post impecavelmente reproduzida como o foi também no filme de Alan Pakula.
O filme é uma grande homenagem a Katherine Graham mas também uma homenagem a Johannes Gutenberg e à linotipo. Também “cita” Pakula nos planos e fotografia, principalmente na cena final que remete a Watergate. Ben Bradlee foi o grande destaque em All the President’s Men, o filme antológico de Pakula. Agora é vez de Graham. Ela é a heroína de The Post e Bradlee é seu alter ego. Um não existiria sem o outro. Por traz de um grande editor há sempre um (a) grande publisher. Sempre foi assim.
The Post me fez lembrar da minha experiência como editor-executivo do jornal O Povo, na fase de transição das poderosas Remingtons (não os fuzis, as máquinas de escrever) para três computadores seminais na redação, usados principalmente para produzir “arte”.
Sem o publisher Demócrito Dummar dando apoio espiritual, num alinhamento silencioso e consistente, não teríamos feito nada. O espírito do jornal é o dono. No caso do Post, a dona. Katherine Graham está no panteão dos grandes arautos liberais do direito de publicar — a liberdade de imprensa.
Obrigado Spielberg, obrigado aos roteiristas Liz Hannah e Josh Singer por este filme. Para mim, sorver cada minúcia da narrativa que vocês resgataram mostrando em minúcias a “velha” redação e as heroicas oficinas cheias de gráficos foi uma catarse. Com direito a lágrimas.
O Post é um brinde ao jornalismo na sua forma mais tradicional. Não à toa Jeff Bezos, o dono da Amazon é o visionário que dá ao ‘Washington Post’ a vitalidade nunca vista, em todas as formas de distribuição. Sem abrir mão do papel do jornal.
Luís-Sérgio Santos é jornalista e professor do curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Ceará.
Veja o Trailer de The Post.
https://www.youtube.com/watch?v=EIx6T_WXOT0







