Quem pode acabar com a dominância do dólar? Por Igor Macedo de Lucena

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Articulista do Focus, Igor Macedo de Lucena é economista e empresário. Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden; Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs  e Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales.

Com o fim da segunda guerra mundial e o acordo de Bretton Woods, o dólar norte-americano se tornou a mais importante moeda mundial, e hoje é a principal moeda de transação global, negociando cerca de 2,2 trilhões de dólares todos os dias. O dólar passou a ser também a principal reserva internacional dos Estados, substituindo o padrão ouro e ocupando 60,89% de todas as reservas globais, enquanto o Euro ocupa o segundo lugar com 20,54%.

Como os Estados Unidos da América venceram a Segunda Guerra Mundial, o sistema financeiro internacional foi governado por um acordo formal, o Sistema Bretton Woods. Sob esse sistema, o dólar americano foi deliberadamente colocado como “âncora” do sistema, com o governo dos EUA garantindo a outros bancos centrais que eles poderiam vender suas reservas de dólar a uma taxa fixa para o ouro. Com o fim do padrão-ouro, a garantia de conversibilidade de todas as outras moedas no dólar norte-americano passou a ser o novo padrão, garantido pelo governo dos Estados Unidos, e proviu para o governo americano um poder nunca antes visto, a exclusividade de emissão de uma moeda aceita mundialmente.

Durante 70 anos o dólar se tornou cada dia mais forte e na percepção dos agentes econômicos ao longo da história, principalmente durante as crises, afirmava-se “na dúvida, compre dólar!”. A moeda norte-americana se tornou o mais importante porto-seguro dos investidores, pois em sua nota o texto “This Note is Legal Tender for all debts public and private” significou muito mais do que um instrumento de pagamento. O dólar se tornou uma expressão do poder econômico, do poder político e do poder militar norte-americano. Ao possuir um dólar, você tem a garantia de toda a força do Estado norte-americano em suas mãos, e é isso que gera aos agentes econômicos a garantia de que sempre o governo vai honrar tudo que for referenciado em dólar e ligado ao governo de Washington.

Se isso é algo tão forte e tão resistente ao longo de décadas, o que poderia acabar com a “dominância” do dólar? A resposta é o próprio governo americano. Autoridades norte-americanas, de acordo com pedidos do presidente Donald Trump, estão começando a explorar propostas para punir ou exigir alguma compensação financeira da China a respeito de como foi capaz, ou incapaz, de lidar com a pandemia de coronavírus. Uma das medidas defendidas pelo presidente foi não pagar o serviço da dívida norte-americana que é detida pelo governo de Pequim, hoje acumulada em aproximadamente 1,1 trilhões de dólares em títulos da dívida.

A China compra a dívida dos EUA pelas mesmas razões que outros países compram a dívida dos EUA com duas ressalvas ao longo da história, segurança e estabilidade. A crise financeira asiática de 1997 levou as economias asiáticas, incluindo a China, a criar reservas de divisas estrangeiras como uma rede de segurança. Mais especificamente, a China possui grandes reservas cambiais e grandes reservas de títulos que foram acumulados ao longo do tempo devido em parte aos “superavits” persistentes nas transações com o exterior para inibir a saída de capitais, desestabilizando a economia doméstica.

Para o mais leigo leitor, essa seria a única maneira de impor uma compensação financeira aos chineses por terem omitido informações e não terem tomado atitudes mais enérgicas para evitar a pandemia, tendo em vista que Wuhan foi o local onde ocorreu o início da propagação. Entretanto, estamos falando sobre os Estados Unidos realizarem voluntariamente um “default” de sua dívida, algo impensável na história norte-americana, jamais realizado pelo governo federal desde a fundação dos Estados Unidos até os dias de hoje.

Qualquer movimento para “cancelar” a dívida mantida pela China – ou seja, torná-la inadimplente – destruiria toda a fé e o crédito dos EUA, isso faria subirem as taxas internas de juros dos EUA e poderia provocar uma catástrofe financeira global. A China, juntamente com o Japão e muitas outras nações, financiam dívidas e “déficits” dos EUA; a compra de títulos do Tesouro americano e o dólar sustentam os mercados financeiros globais. A plena crença e o crédito do governo dos EUA para cumprir todas as suas obrigações de dívida é a principal razão que torna isso possível.

Se os Estados Unidos ousarem não pagar seus débitos aos chineses, independente dos motivos, o pensamento geral para todos os investidores e países será de que “se os americanos não pagaram aos chineses hoje, amanhã eles não nos pagarão, basta um motivo”. As agências de rating vão retirar o AAA da dívida norte-americana, e os investidores passarão a cobrar juros cada vez maiores para comprar os títulos dos Estados Unidos. O dólar perderia seu “status” de principal reserva internacional, visto que a confiança adquirida durante 243 anos estaria destruída e poderíamos acompanhar a venda de trilhões de dólares em poucas semanas, despencando a cotação da moeda e impactando a inflação interna dos Estados Unidos, tornando-o uma nação comum.

Esse é um cenário possível? Creio que não. Todavia, diante de tantas possibilidades exploradas pelo presidente Trump para tentar punir a China pela Covid-19 essa foi efetivamente aventada, mas seu custo é tão elevado para os Estados Unidos que seria “jogar fora” uma das mais importantes armas geoeconômicas que os americanos possuem e que torna sua nação única.

Em outras palavras, a preço de hoje, apenas os americanos podem destruir o dólar norte-americano.

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