A criança e os sapatos. Por Rui Martinho

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

Quando a criança não sabe qual é o lado direito nem o esquerdo, no sentido de orientação espacial, sempre calça o sapato não adequado ao pé. A nossa história é marcada por escolhas que o tempo tem revelado equivocadas.

José Bonifácio de Andrada e Silva (1773 – 1838), em brilhante representação, conclamou os constituintes da Assembleia que estava elaborando a nossa primeira Constituição a extinguir o escravismo, dizendo que tal prática era um cancro que ameaçava os fundamentos da nação. Não foi ouvido. Fizeram a escolha errada.

Francisco de Assis Chateubriand Bandeira de Melo (1892 – 1968) defendeu o desenvolvimento da siderurgia pelo capital estrangeiro, considerando que além de não termos capital também não tínhamos técnica. Foi derrotado pelos “nacionalistas” que obtiveram apoio do então presidente Arthur Bernardes (1875 – 1955), conforme relato de Fernando de Morais (1946 – vivo), na obra “Chatô: o Rei do Brasil”. A escolha retardou por duas décadas a siderurgia brasileira.

A disputa entre Roberto Cochrane Simonsen (1889 – 1948) e Eugênio Gudin Filho (1886 – 1986), sobre a qual já escrevemos, terminou com a vitória do primeiro e rendendo inflação, patrimonialismo potencializado na forma de corrupção sistêmica e industrialização com produtos ruins e caros. Os asiáticos, que escolheram recepcionar o capital estrangeiro; optaram pela propensão a poupar, ao invés da nossa escolha pela propensão a consumir; e elegeram uma educação de qualidade, significando isso desenvolvimento cognitivo, em lugar da sensibilização do bem descrita por Pascal Bernardin na obra “Maquiavel Pedagogo”, que predomina no ocidente e é aplicado no Brasil de forma degradada.

A Ásia, na parte leste, tornou-se no que é agora. Nós somos o que somos, na companhia da América espanhola. A Argentina chegou a ser um país rico. Optou pela retórica socialmente virtuosa e por mais de setenta anos tem perseverado no erro. Nem a destruição do país trouxe a lucidez de volta. Isaiah Berlin (1909 – 1997), na obra “Ideias políticas na era romântica” discorreu sobre a atitude de quem desafia os fatos em nome do inconformismo. Trata-se do titanismo, um traço romântico que pode produzir cegueira.

A incapacidade de calçar o sapato adequado ao pé, como dito, é própria das crianças. Elas, porém, aprendem com a experiência. Macunaíma parece não aprender com os fatos, não fechar a portar nem depois de roubado. A grande mortalidade e a enorme quantidade de sequelados não modificou a imprudência de motociclistas. Assim também o paradoxo da fundada desconfiança nos políticos conviver com a confiança ingênua no controle da economia, da cultura e das relações sociais pelo Estado, apesar do reconhecimento da deplorável conduta dos dirigentes da máquina estatal.

A justiça é um exemplo do paradoxo aludido. Assoberbada por cem milhões de processos de uma sociedade querelante e super regulamentada; coma celeridade tolhida por procedimentos processuais que lembram a obra de Franz Kafka (1883 – 1924) “O processo”, essa justiça é preferida pelos cidadãos, que desprezam as soluções extrajudiciais, como a negociação, a renúncia, a mediação ou a arbitragem.

A incomunicabilidade e a cegueira dos paradigmas é a explicação de Thomas Samuel Kuhn (1922 – 1996), na obra “A estrutura das revoluções científicas” para a perseverança em erros, até que a ruptura ocorre quando as “anomalias”, realidades contrárias ao paradigma, se tornam muito numerosas causando a sua queda e possibilitando o avanço da ciência. Tal não ocorre entre nós.

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