A diplomacia americana. Por Rui Martinho

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

As relações internacionais tendem a ser pragmáticas. Interesses nacionais são, quase sempre, a nota dominante na diplomacia. Ideologia, religião, segurança, economia, alianças de interesse estratégico, fatores históricos e culturais podem influenciar também. A geopolítica é tudo isso. Política externa envolve confiança, que por sua vez depende de orientação durável.

A democracia americana tem o mérito da alternância do poder. Isso pode causar instabilidade diplomática. A sociedade, mais precisamente, a cultura americana mudou. Os partidos agora diferem muito um do outro. A alternância democrática tende agora a provocar mudanças significativas nas relações internacionais. O discurso de legitimação, vendido pelos políticos para o eleitorado, nos EUA, tende a destacar valores democráticos. As contradições eram camufladas com argumentos aceitos pela grande maioria dos cidadãos. Mas isso também mudou. “Primeiro a América” representa a tendência para a franqueza, dizendo que diplomacia é mais pragmática do que moral.

Eleitor não gosta de recrutamento para guerra, nem de imposto para financiar conflito. Ao fim da Segunda Grande guerra Mundial Winston Leonard Spencer-Churchill (1874 – 1965) queria exigir da URSS a independência da Polônia. Os americanos cederam, embora os britânicos estivessem mais sacrificados. O general Douglas MacArthur (1880 – 1964) queria mais firmeza dos EUA na guerra da Coreia, usando até armas nucleares. A Casa Branca, que já havia abandonado os seus aliados chineses, não aceitou alegando poupar vidas e encorajando o que veria a ser a guerra do Vietnã.

França e Reino Unido não tiveram apoio dos EUA na guerra pelo canal de Suez, em 1956, nem Portugal em suas guerras coloniais. Ditadores aliados foram jogados às traças e substituídos por ditadores inimigos, como o cubano Fulgencio Batista Zaldivar (1901 – 1973) e o nicaraguense Anastácio Somoza Debayle (1925 – 1980).
Ditaduras adversárias são apaziguadas, como China e Paquistão. Os EUA compram os inimigos e vendem os aliados. Realmente agem como pombos de igreja, que defecam na cabeça dos fiéis.

O poder mudou de mãos nos EUA. A descontinuidade das diretrizes diplomáticas está posta. A venda de cem bilhões de dólares em armas para os Emirados Árabes e Arábia Saudita já foi suspensa, prejudicando aliados na inútil tentativa de comprar a simpatia do Irã. Israel, informado pelo seu serviço secreto, já declarou que atacará o Irã se os EUA forem lenientes com o programa nuclear daquele país. A Coreia do Sul já discute a conveniência de produzir armas nucleares, por não confiar na aliança com os americanos.
A adesão dos EUA ao discurso do presidente francês sobre a floresta amazônica ser o pulmão do mundo e outras coisas, já está posta. O Departamento de Defesa tem cento e vinte dias para produzir um documento sobre a floresta amazônica e a segurança nacional dos EUA. Eles não compram os inimigos, só se forem fortes, como a China e o Paquistão. Mas podem vender os aliados. Desprezam os fracos e cedem diante dos fortes.

O neocolonialismo já não alega a missão civilizadora do homem branco, como no poema de Joseph Rudyard Kipling (1866 – 1936), “O fardo do homem branco”. O argumento agora é salvar o planeta. A criação de um inimigo externo para pacificar países divididos, como a França ou EUA, e outros interesses geopolíticos estão postos. Os poderosos, reunidos em Davos ou em outro lugar poderão repartir o mundo, como dividiram a Europa em Yalta e Potsdam (1945).

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