Focus Colloquium: a economia azul é a nova fronteira do desenvolvimento do Ceará

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O Ceará começa a organizar com método e ambição aquilo que sempre teve em abundância: mar, vento, ciência e gente. O que por décadas foi visto apenas como paisagem, vocação natural ou atividade de subsistência passa, agora, a ser tratado como estratégia de desenvolvimento.

No centro desse movimento está a Blue Ceará, a primeira plataforma dedicada a conectar o ecossistema da economia azul no Estado. A iniciativa reúne quem vive do mar, quem pesquisa o oceano, quem formula políticas públicas e quem pensa crescimento econômico com visão de longo prazo.

A proposta é clara: desenvolvimento sem ruptura ambiental, crescimento econômico alinhado à saúde dos oceanos e uma comunidade capaz de transformar conhecimento em estratégia — e estratégia em impacto real. Estamos falando de vida, de renda, de empregos e de futuro.

É sobre esse novo arranjo, que aproxima indústria e ciência, forma lideranças e estrutura agendas sustentáveis, que o Focus Colloquium conversa com Rômulo Soares, um dos articuladores da BRU-Ceará e presidente da Câmara Setorial da Economia Azul, instalada na Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará.

Ao longo da entrevista, Rômulo fala sobre governança, desafios, planejamento, oportunidades econômicas e o papel do Ceará na consolidação da economia do mar como uma das grandes fronteiras de desenvolvimento do Brasil.

Mais do que uma entrevista, esta conversa é um convite: entender por que se conectar à Blue Ceará é, hoje, uma decisão profissional, científica, cidadã e estratégica para quem acredita que o futuro do desenvolvimento passa, inevitavelmente, pelo oceano.

Veja a entrevista

Focus Colloquium — Fábio Campos: Rômulo, a economia azul ainda é um termo pouco conhecido do grande público, mas tem uma relação direta com a economia global e, de forma muito intensa, com o Ceará. Para começar do começo: o que é economia azul e como esse conceito se conecta com a história e com a vida cotidiana das pessoas no Estado?

Rômulo Soares: O Ceará foi um dos primeiros estados brasileiros a discutir de forma estruturada a economia ligada ao mar. Basta olhar para os nossos símbolos: a bandeira do Estado traz um farol e uma jangada, Fortaleza nasce à beira-mar, o mar está presente na nossa identidade cultural e histórica.

Nos últimos anos, essa discussão ganhou densidade a partir de três documentos estratégicos: o Rotas Estratégicas da Economia do Mar, da Federação das Indústrias; o Fortaleza 2040, que dedica um capítulo à economia do mar; e o Ceará 2050, que também trata do tema. Todos foram elaborados antes da pandemia, o que mostra que essa agenda já estava madura.

A mudança do termo “economia do mar” para “economia azul” não é apenas semântica. Quando enxergamos o mar apenas como recurso econômico, falamos de oportunidade. Quando o entendemos também como elemento essencial à vida na Terra, falamos de responsabilidade. Parte significativa do oxigênio que respiramos vem do oceano; a chuva se forma no oceano; o clima é regulado pelo oceano. Isso exige outra lógica de desenvolvimento.

Por que “economia azul” e não mais “economia do mar

Focus Colloquium — Fábio Campos: O que muda, na prática, quando se passa a falar em economia azul?

Rômulo Soares: Muda a lógica. Economia azul é aproveitar recursos marinhos sem repetir os erros cometidos em terra. É uma economia que incorpora sustentabilidade como premissa, não como discurso posterior.

Não por acaso, as Nações Unidas instituíram esta década como a Década da Ciência Oceânica, com compromissos claros: ampliação de áreas marinhas protegidas, uso responsável de recursos vivos e não vivos e planejamento de longo prazo.

A geografia como vantagem competitiva

Focus Colloquium — Fábio Campos: Historicamente, o desenvolvimento econômico do Ceará esteve muito mais ligado ao interior do que ao litoral. O que mudou?

Rômulo Soares: Mudou o mundo. Em uma economia fechada, o Ceará está no canto do mapa. Em uma economia globalizada, o Ceará está no centro.

Os aviões que ligam a América do Sul à Europa passam sobre o Ceará. Os navios que conectam Ásia, África, Europa e Américas passam diante do nosso litoral. Os cabos submarinos de fibra óptica cruzam essa costa. O vento cruza exatamente essa faixa do território.

A geografia, que por muito tempo foi um limite, tornou-se vantagem competitiva com o avanço tecnológico.

Porto do Pecém, energia e nova economia

Focus Colloquium — Fábio Campos: Onde entram o Porto do Pecém e os grandes investimentos recentes nessa equação?

Rômulo Soares: O Complexo Industrial e Portuário do Pecém é uma construção de longo prazo, atravessando diferentes governos, e extremamente acertada. Ele conecta o Ceará diretamente ao comércio marítimo global.

Hoje, o Pecém é porto, mas também é energia, siderurgia, dados, logística e indústria. O Ceará vive um paradoxo positivo: produz energia renovável em abundância, especialmente eólica, mas precisa ampliar o consumo local para gerar valor, emprego e arrecadação.

Consumir energia renovável é uma vantagem competitiva enorme.

Pesca: potência econômica ainda subaproveitada

Focus Colloquium — Fábio Campos: O Ceará é líder nacional em algumas cadeias da pesca, mas ainda opera majoritariamente de forma artesanal. Onde está o principal desafio?

Rômulo Soares: O Ceará é hoje o maior produtor de atum do Brasil, além de líder em lagosta e camarão. O paradoxo é que grande parte dessa produção ocorre com embarcações artesanais.

A pesca industrial moderna funciona como uma indústria embarcada: maior escala, mais segurança, mais eficiência e melhor controle ambiental. Hoje, muitas embarcações estrangeiras pescam atum em águas internacionais próximas ao Ceará com tecnologia muito superior.

Modernizar a frota, melhorar equipamentos e reduzir riscos é essencial.

Planejamento espacial marinho: a regra do jogo

Focus Colloquium — Fábio Campos: Por que o planejamento espacial marinho é tão decisivo para o futuro da economia azul?

Rômulo Soares: Porque ele define as regras do jogo. É nesse planejamento que se estabelecem áreas de pesca, zonas de proteção ambiental, energia offshore, turismo e portos.

Uma regra bem construída gera segurança jurídica, reduz conflitos e melhora a qualidade do desenvolvimento. Estamos falando da nova fronteira econômica do mundo.

Blue Ceará e Câmara Setorial

Focus Colloquium — Fábio Campos: Qual é o papel da Blue Ceará e da Câmara Setorial da Economia Azul nesse processo?

Rômulo Soares: A Blue Ceará organiza o ecossistema. Nem tudo que se conecta ao oceano é imediatamente percebido como economia azul: dados, cabos submarinos, energia e logística também são parte disso.

A Câmara Setorial da Economia Azul, instalada na Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará, é o espaço de articulação entre governo, setor produtivo, academia e sociedade civil para construir convergência e estratégia.

Uma agenda estrutural

Focus Colloquium — Fábio Campos: Para encerrar: a economia azul tende a se tornar um eixo central do desenvolvimento do Ceará?

Rômulo Soares: Sem dúvida. O mar deixou de ser apenas espaço de travessia ou subsistência. Tornou-se ativo estratégico.

Desenvolvimento econômico significa renda, empregos e qualidade de vida. A economia azul não é moda. É uma transformação estrutural — e o Ceará tem todas as condições de liderar esse processo no Brasil.

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