A eleição na UFC no 3º de três artigos de Paulo Elpídio de Menezes Neto

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Paulo Elpídio de Menezes Neto, é articulista do Focus, cientista político, membro da Academia Brasileira de Educação, Rio de Janeiro; ex-reitor da UFC, ex-secretário nacional da Educação superior do MEC; ex-secretário de educação do Ceará.

O que pretendemos mudar, mesmo, na universidade? III

Dos “controles de segurança” à força dos “campos hegemônicos”
“O gênero humano pode ser dividido em três classes – os que aprendem à custa alheia, eis os homens felizes; os que aprendem à sua custa, eis os sábios; e os que nada aprendem nem à sua custa, nem à custa do outros”. José Bonifácio, in “Projetos para o Brasil”.
Neste terceiro e ultimo artigo sobre a estrutura de poder na universidade pública brasileira, no qual se busca desvendar a lógica, a “rationale” e a estratégia perfilhada pelos nichos de influência e controle ao longo dos seus 80 anos, procuraremos nos fixar nos pontos mais sensíveis do que chamaríamos de “reprodução de agentes e atores” docentes e do processo de seleção e escolha de dirigentes da instituição.
Dada a unicidade estrutural e orgânica da universidade pública brasileira, definida e controlada por dispositivos regulatórios rígidos e centralizados, poucos são os fatores formais que as distinguem entre si. Provêm de uma mesma e única matriz burocrática, cujas convergências só se atenuam no plano das competências intelectuais e científicas alcançadas. No mais das vezes, essas circunstâncias operam em decorrência de reconhecida tradição cultural ou por influências externas, mais visíveis nos grandes centros do País.
No texto, destacaremos, quando pertinente e necessário, atributos que identificam uma universidade considerada, a propósito, o caso específico da Universidade Federal do Ceará, imagem que se repetirá com frequência no retrovisor desses registros e observações.
Como outros sobreviventes dos tempos heroicos de sua fundação, ao lado de Antônio Martins Filho ou sob a sua destemida liderança, é da UFC que guardamos a experiência e as lições de que nos servimos aqui, nestes alongados relatos. Por questão de justiça, mencionam-se os nomes de alguns pioneiros, poucos que o foram, na verdade, envolvidos com o projeto de uma universidade para o Ceará: Prisco Bezerra, Wálter Cantídio, Waldemar Alcântara, Valnir Chagas, pe. Francisco Batista Luz, Manuel Mateus Ventura, Ary de Sá Cavalcante, João José de Sá Parente, Paulo Roberto Coelho Pinto, Mílton Dias, Fran Martins, Francisco da Silva Cavalcante…
Não abrimos, aqui, apenas, guardados recolhidos em um aplicado exercício de memória. Demos-lhe o contraste impressionista da cor e as nuances da vida, com as projeções de análise de fatos e circunstâncias ainda não caídos em esquecimento. Incluo-me, de minha parte, com pretensiosa vaidade, entre os que viveram a UFC, desde suas origens, de estudante a reitor, servidor, professor, chefe de departamento, coordenador de curso, diretor de Faculdade, pró-reitor e reitor. E fora e para além do Benfica, as experiências acumuladas no desempenho de encargos de governo, como secretário de estado da educação, secretário nacional de educação superior, secretário nacional de educação básica e secretário-executivo do FNDE, no Ministério da Educação; e membro do Grupo da Reforma do Ensino Superior, GERES, MEC, 1987.
Mudamos nós ou não enxergamos o quê mudou e quanto?
Com a aproximação de eleições, para escolha de seus dirigentes, no início de um novo período presidencial, as universidades federais veem-se confrontadas com um cenário novo e surpreendidas pelo anúncio de quebras de paradigmas políticos que fogem à rotina seguida, descuidadamente, pelos governos da União, ao longo de cerca de duas décadas de políticas públicas improvisadas no plano da educação. Não são sinais tranquilizadores, admitamos, tampouco transmitem a segurança dos novos agentes do Estado em face dos desafios que se propõem enfrentar. Antes, refletem rupturas sociais e institucionais que foram ocorrendo, desde a instalação dos governos militares, agravadas por um processo de redemocratização incompleto, em malfadado intercurso, interrompido por fraturas abertas que negociações de compromisso não conseguiram fechar e dar-lhes coerência. Perduraram, em consequência, velhos dissensos, acrescidos de novos contra-pontos mal resolvidos.
O “jeitinho” brasileiro, celebrado pela esperteza dos filhos desta terra, é bem mais do que um artifício simplório para aviar pequenas ambições, interesses transeuntes ou conveniências compartilhadas; é traço dissimulado de desvio de caráter consentido, virtude ou pecado que caracterizam, segundo alguns intérpretes da alma brasileira, o lado vivaz de um cultivado tirocínio para obter vantagem em tudo, de preferência com o menor esforço… Acostumamo-nos a interpor aos desafios maiores o exercício da negociação, o acordo que reduz o contraditório a convergências úteis. Nossas crises dissolvem-se, como diria o sábio regente, celebrado D. João VI, sponte sua, por simples e adequado ajustamento de dissensos indesejáveis. Bastaria ignorar os problemas para que eles se resolvessem naturalmente.  Sem conflitos, no melhor dos mundos possíveis, como diria o dr. Pangloss. Assim, temos evitado, em pouco mais de quinhentos anos, a confrontação fatal com os nossos fantasmas adormecidos. Nossas crises nunca se aprofundam o suficiente para que queiramos afastar as suas causas e dar-lhes combate, preferimos conviver com elas, tocados pela esperança de que se resolvam por si mesmas, afinal, segundo a frase enigmática panglossiana, “devemos cultivar nosso jardim”.
A universidade brasileira não fugiu ao embate com as suas refregas internas ou nas   pelejas com o Estado e a burocracia. Adotou, entretanto, caminhos dialéticos de discordância e contestação, de imposta resignação aos que divergem diante da verdade consagrada pelos instrumento do seu poder. Mostra-se com a dupla face de Janos, uma voltada para fora do seu território, crítica e combativa; outra, voltada para as suas entranhas, olhar posto no próprio umbigo, complacente e corporativo, tolerante com os pequenos desvios de suas greis distinguidas e fiel aos sentimentos e paixões que movem ou imobilizam a sua vontade de transformar o seu mundo exterior.
Quem manda, de fato, na universidade?
O reitor surge, nessa complexa estrutura de poderes pouco definidos, como ator central em uma representação, intimamente associada à imagem que se faz, embora genericamente, da distribuição e do exercício do poder na universidade, aqui e em outros países.  
A resposta a essa pergunta, aparentemente destituída de senso, está associada a uma certa cultura burocrática que varia de país a país, segundo a natureza jurídica designada para a instituição, o grau de participação do Estado na sustentação do empreendimento e as formas da sua administração. Não é nossa intenção ampliar o escopo dessa análise, ainda que as faltas de sincronias existentes não possam ser ignoradas e justificassem esse esforço.
Os elementos mencionados acima são, justamente, os que diferenciam as universidades de países com sólida tradição no ensino superior das de outros países que as viram nascer tardiamente, à sombra do Estado ou a mercê de confrarias confessionais, a exemplo das nações de origem Latina, na Europa e na América Latina. A título de exemplo, mencionem-se as universidades norte-americanas, cujo perfil ressalta da iniciativa privada, embora o Estado assegure presença relevante em formas variadas de fomento e financiamento de suas atividade acadêmicas.
As alemãs encarnam o modelo típico de universidades públicas, subvencionadas pelo Estado, ainda que desfrutem de forte participação do setor privado no provimento de meios e recursos para o desenvolvimento de programas de interesse da pesquisa e de atividades de ponta do interesse do mercado. Daí, a especificidade do perfil organizacional de cada uma delas; umas, com maior concentração de poder em instâncias administrativas, de características acentuadamente técnicas, sob forte influência do modelo empresarial de gestão; outras, sujeitas a maior interferência da burocracia do Estado. As universidades francesas incorporaram, por sua vez, traços híbridos, com a presença dominante do Estado e das corporações sindicais no processo decisional, quer no plano acadêmico-científico, quer na esfera política do poder interno. Na Rússia, na China e em Cuba o modelo institucional da universidade corresponde à centralização de poderes, a partir do aparato burocrático do poder do Estado, integram uma categoria que bem poderia ser chama de “universidade de Estado”.
A universidade foge, na América Latina, ao comum das experiências citadas. O modelo dos países socialistas não encontra paradigma entre nós, latinoamericanos. Muitos admiram, no Brasil, o modelo de universidade conservado em banho-maria segundo as ideias dominantes na União Soviética, com Trotsky e os construtores do bolchevismo pós-czarista; mas nunca pretenderam repetir aqui experiência semelhante…  A partir de 1968, a influência da “revolução cultural” francesa, partida de Nanterre, Vincennes e da Sorbonne, desempenhou, em contrapartida, papel decisivo e inspirador no Brasil e na América Latina.
A universidade brasileira mostra, a seu modo, a cara dos movimentos libertários de 1968. Fez do Estado o seu mantenedor, vive de verbas públicas, mas pretende gerir os seus recursos, com orgulhosa autonomia, aspira opinar sobre o financiamento assegurado pelo Estado provedor e encara com suspeita as indicações do mercado e da iniciativa privada quanto ao seu papel na sociedade e na economia. O setor produtivo tem por ignorá-la, tomado de suspeitas quanto à sua vocação para gerar conhecimentos “úteis” e socialmente desejáveis. Mal se enxergam, universidade e setor produtivo, e muito dissentem segundo juízos mal compostos sobre o que pensam e fazem.
Dois modelos resumem, atualmente, com aproximação e distanciamento reconhecíveis, a estrutura do poder e do governo na universidade, tal como hoje a conhecemos. A gestão profissional de agentes e conselhos especializados (“executive boards”) encontra, no Brasil, seu contraponto na burocracia de atores públicos e nas decisões governamentais com repercussão “interna corporis”. No primeiro caso, o poder “universitário” (no plano acadêmico e administrativo) dissolve-se pelas instâncias técnicas de gestão; no segundo, divide-se entre o reitor (eleito pela universidade, porém nomeado pelo governo), os departamentos, “coletivos” informais e as corporações sindicais internas e externas. Adotamos alguma coisa reconhecida como o segundo “modelo”, no Brasil.
Com o fortalecimento dos movimentos discentes e docentes, a partir de 1964, e em decorrência da concentração do poder politico no Executivo, durante os governos militares, as competências do reitor foram reduzidas progressivamente e compartilhadas com instâncias concorrentes, como já se mencionou atrás. A perda de atribuições formais assinaladas, com o relativo esvaziamento da autoridade do reitor, ocasionaria, como de fato ocorreu, a consolidação, na universidade, de faixas concorrentes no plano decisional, com a transferência de parte significativa das competências legais do reitor para o Ministério da Educação e o desvio de outras tantas para instâncias internas da gestão acadêmica e financeira. Contribuiu para o agravamento desse processo a adoção, ainda no governo FHC, do princípio da reeleição, como extensão para mais de um mandato, por extensão de reforma constitucional que conferiu esse privilégio ao presidente da República.
A possibilidade legal da reeleição do reitor fragilizou a sua autoridade interna, na medida em que foi levado a negociar internamente, a sua indicação para mandato continuado e nos níveis superiores da administração do governo, compondo acordos, apoios, promovendo a cooptação de nomes e iniciativas para o preenchimento de cargos-chave da administração.
Da “Congregação” ao “Departamento”: o “homo catedraticus” e o “consulado” departamental
No princípio, a universidade era o “professor catedrático” e o verbo da Cátedra. Nascemos, como universidade, sob o peso de uma autoridade indiscutível, da qual dependiam todas as decisões acadêmicas. Escolhido em concurso público de títulos e provas, segundo o velho rito coimbrão da aula magna e da defesa de tese, perante banca de luminares irrepreensíveis, o catedrático, enfiado na sua toga e protegido pelos saberes que lhe eram atribuídos, movia-se como ser intocável dono de todas as precedências vitalícias e inamovíveis.
Elaborava o programa da disciplina que lhe coubera como latifúndio em posse definitiva; julgava, arbitrava, aprovava, premiava e condenava. Nomeava seus assistentes e auxiliares. Arrancava, de preferência, os eleitos de sua parentela próxima, no rastro do DNA familiar, filhos, genros, irmãos, e a eles transmitia as luzes de seus saberes. A Congregação, órgão superior do magistério, reunia essa prelazia ilustre. O reitor, saído dessa tribo de caciques, comungava com os desvelados anseios de seus pares.
Elegia-se o reitor, dentre catedráticos, por lista tríplice, até 1967, nos começos dos governos militares. Já em 1971, a lista passou a ser integrada por seis docentes, indicados pelo Conselho Universitário. Mais recentemente, foi restabelecida a lista tríplice, com a formalização da consulta prévia submetida à comunidade acadêmica para a sua composição final e ulterior apresentação à presidência da República.
A Reforma Universitária de 1968 e seus desdobramentos constitucionais e legais consolidaram a estrutura departamental na universidade brasileira. Parte considerável das competências em matéria acadêmica foi transferida para os departamentos e o conselho departamental, no âmbito das faculdades, escolas ou institutos. Paralelamente, as decisões quanto à elaboração do orçamento concentraram-se no MEC e nos órgãos de planejamento responsáveis pela política econômica do governo.
O fomento às atividades de pesquisa passou a ter sua origem em programas especiais do governo (CAPES, CNPq, FINEP, EMBRAPA e outras agências), ou em dotações alocadas pelo MEC, segundo critérios fixados pela sua burocracia financeira (recuperação de instalações, aquisição de equipamentos, ampliação física de próprios universitários).
Como consequência, registraram-se, como era previsível, dois movimentos concomitantes, com a somatização de causas e circunstâncias que levaram ao esvaziamento de funções e competências centrais do reitor. De um lado, o compartilhamento de suas atribuições administrativas mais relevantes com os departamentos e instâncias correlatas (coordenações de curso, por exemplo), com sindicatos internos ou “coletivos” de forte índole política, dotados de enorme poder de influência e pressão.
De outro lado, em decorrência da perda de atribuições e de competências, anteriormente, radicadas na universidade e no seu representante legal, transferidas para a burocracia ministerial. Até mesmo a instância jurídica, vinculada à reitoria, perderia o seu papel de origem, sob o modelo de procuradoria, para integrar, no plano ministerial, o aparato de instância superior da administração de Pessoal e de sustentação jurídica.
Essa caracteriza uma transição sensível, cujas consequências não foram até agora analisadas com pertinência. O reitor, como a figura do Catedrático, viu esmaecer o seu poder na transfiguração de competências e privilégios honoráveis, perdendo a majestade de suas competências de origem para o “consulado” departamental e para coletivos disseminados sob denominações diversas e organicamente variadas.
Vão, aos poucos, ganhando forma e alcance, nesse cenário, os chamados “campos hegemônicos”, em torno dos quais se consolidam, por sua vez, as lideranças em nível acadêmico, mas, também, afirmam-se os círculos de poder cujo papel passará a gozar de reconhecida importância nos anos que se seguiram à reconstitucionalização do País, com a Constituição de 1988.
A representação estudantil no pós 1964: da paridade, ao terço, nos idos de 1966
Os movimentos estudantis precederam, na universidade brasileira, o envolvimento de docentes e servidores administrativos na sua vida política. Antes de 1964, já se faziam ouvir reivindicações que não se limitavam, apenas, à pauta de reclamações e demandas dirigidas ao restaurante universitário ou aos serviços de assistência estudantil mantidos pela universidade.
A participação nas decisões da universidade, no governo da reitoria, cujos atribuições legais se inseriam na lei e em regulamentos internos, era reclamada com insistência e consistia em reiteradas investidas do corpo docente, animado pelos diretórios acadêmicos, pelo Diretório Central de Estudante e pela UNE e União Estadual dos Estudantes, UEE. Empunhavam essas bandeiras entidades ligadas à Igreja, dentre elas a Juventude Estudantil Católica (JEC), e a Juventude Universitária Católica (JUC). O movimento docente ganharia expressão na década de 70, com a APESC, no Ceará, a ADUFC, na UFC e, nacionalmente, com a ANDIFES.
O primeiro movimento de reconhecida expressão no meio estudantil, em plano nacional, defendia, antes mesmo de 1964, a “paridade” como forma de participação estudantil no governo da universidade. Manifestações repetidas e uma greve nacional, por tempo indeterminado, deflagradas pelos anos 1963, exerceram forte pressão em favor da constituição de um Conselho Universitário no qual fosse acolhida ampla representação de  docentes e alunos, em proporção “paritária”.
As listas para escolha de dirigentes (reitor e diretores de unidades) seriam formadas com base em uma consulta prévia à comunidade acadêmica, estruturada nas bases de “colégio eleitoral” formado por professores e alunos, em proporção equânime. Note-se que, à época, o corpo técnico administrativo não era, ainda, reconhecido como força política a ser levada em consideração pelo movimento estudantil, assim como pela incipiente mobilização docente.
Os impasses que se produziram, em face de posições consideradas, à época, excessivamente radicais, justificariam a mudança de estratégia das lideranças estudantis, em favor de uma fórmula conciliatória, a do “terço”, com a inclusão, além dos docentes, da representação dos servidores técnico-administrativos, na justa proporção de um terço para cada um dos segmentos contemplados. O tempo demonstraria, não sem longa e impaciente espera, que essa poderia ser a solução aceita, como viria a ocorrer.
Esses critérios de representação seriam, finalmente, reconhecidos e adotados pela legislação específica, em torno dos anos 2014.
A “limpeza de sangue” ideológica: da ”vigilância” dos órgãos de segurança e informações ao “patrulhamento” exercido pelo “campo hegemônico” na construção do poder do departamento
A década de 1960, com a instalação do ciclo dos governos militares (1964 a 1985), assinala a interrupção de um breve hiato de 18 anos, desde a recuperação das franquias democráticas, com a Constituição de 1946. É bem verdade que o período assinalado não se mostrou exemplar como modelo de liberdades democráticas: o intercurso do suicídio de Vargas, os cometimentos de uma frágil presidência com Café Filho, a espada de Dâmocles de Lott, os almirantes de Lacerda em vilegiatura a bordo de um velho cruzador pelas águas da Guanabara são mostras da nossa indisposição em aceitar e respeitar as regras do jogo democrático.
A História é, sobremodo, conhecida, não obstante as controvérsias alimentadas por narrativas conflitantes e interpretações recorrentes; não há como negar, entretanto, a quebra da ordem constitucional por força do recurso a instrumentos extra-legais. Atos Constitucionais e Complementares e a alteração da Carta Magna, à margem dos cânones e procedimentos reconhecidos para esse fim, criaram “manu militari”, com aceitação silenciosa de grande parte da população, as “condições” legalizadoras deitadas pela prudência e pelos saberes jurídicos de muitos áulicos da nova ordem. Os que não aviaram as suas querências, deixaram os cargos ou foram expelidos pelos novos donos do poder.
Nos órgãos públicos e, em particular, nas universidades dependentes diretamente do Estado, iniciou-se a busca patriótica às bruxas, a correção de desvios acumulados em tantos anos de fugaz exercício democrático, à conta de leituras e pregações subversivas (do latim, “subversum”, de “subvertere”, processo pelo qual os valores e princípios de um sistema são revertidos). Empregado como adjetivo, “subversivo” identifica quem subverte, palavra presente em todas as línguas de origem latina.
A mão repressora do Estado, nesses momentos de ruptura anunciada, age premida pela defesa de sua própria sobrevivência: ignora as regras de convivência democrática,  ameaçadas, reduz direitos e conquistas de liberdade e impõe-lhes a força que já a Maquiavel parecia própria e adequada, sob a proteção militar, na guarda dos interesses do Estado e do “Príncipe”… Nesses momentos, como a nossa  experiência de povo e cidadãos o demonstra, a razão da força sobrepõe-se às ingênuas elucubrações derivadas de princípios teorizados e transformados formalmente em leis e dispositivos constitucionais.
Assim teve começo o longo processo de correição aplicado à universidade e aos seus perigosos “bagunceiros”, expressão utilizada, por estes dias, por distinta autoridade ministerial para exorcizar práticas acadêmicas filosoficamente heterodoxas. Os instrumentos de informação, postos a serviço da segurança e da ordem fizeram o resto. Identificaram focos suspeitos pelos “campi” universitários, surpreenderam ideias desviantes em gestação, descobriram intenções e gestos mal dissimulados. E como naquela cena do filme Casablanca, na qual o capitão Louis Renault, chefe de polícia, dá a ordem de autoridade, “prendam os suspeitos de sempre”, os culpados foram identificados, classificados e castigados.
Na prática, é de perceber, as coisas não se passaram assim tão simplesmente. Havia nesse meio os que defendiam conceitos vagos de liberdade, tomados de exaltação juvenil, e os mobilizados/mobilizadores que acalentavam suas utopias bem regadas em leituras disciplinadas e nos convencimentos da certeza acumuladas, que nada mais restaria a fazer dentro dos esquemas fragilizados da democracia e do liberalismo capitalista… Houve quem pegasse em armas e os que brandissem ideias; os que sonhassem com um estado democrático e os que pretendessem aviar a receita de uma democracia direta e popular…
Com a Carta de 1988, todos esses vestígios de arroubos e pegadas de intolerância foram apagados. Como veneramos a nossa tradição de povo conciliador, respeitoso da paz e do direito (na verdade, essas origens incertas perdem-se entre conjecturas e lembranças escondidas pelo tempo), esses dissensos foram logo esquecidos. Os verdugos do dia anterior, foram reintegrados nos espaços amplos cidadania, por força de leis de anistia que a todos serviram, aos algozes e às suas vítimas.
O tempo é o senhor da verdade, diz-se com confessada credulidade sobre a ação corretiva do esquecimento. Talvez o seja.
Os anos que se seguiram, a partir da década de 1980 comprovaram em parte essas doces fantasias.
Segundo a física (não seria mais apropriadamente a metáfora ingênua de um anexim?) a natureza tem horror ao vácuo. Passado o vendaval das perquirições em busca de circunstâncias e agentes agitadores da ordem constituída, retomou a universidade a sua parcimoniosa atividade científica e ideológica: os vazios do vácuo autoritário foram, aos poucos, sendo preenchidos, sem que a maioria dos habitantes dos “campi” se desse conta; mesmo aos seus animadores mais atentos terá passado despercebido o sucesso amealhado na academia, por conta do franco proselitismo em progresso, por entre teorias e revelações colhidas em fontes autorizadas, graças a citações cruzadas que anunciavam o advento de novos tempos.
A vigilância dos informantes e dos produtores de relatórios, as fichas classificatórias de suspeições cuidadosamente indexadas, os instrumentos de indiciamento de culpas e pecados, negados ou consentidos, a voz e a espinha dorsal do “Sistema”, postos em declarado descanso, tudo se assemelhava ao vácuo tão temido pela natureza e pelas relações de poder, entre os homens e as mulheres na política.
Nada que não deva suceder deixa de acontecer, parece ser regra nas árduas relações sociais entre dominadores e dominados.
Pois bem, os controles, antes ao alcance dos diligentes operadores dos órgãos de segurança, foram fenecendo por desuso, assim como, segundo faz crer a biologia, os órgãos perdem suas funções por falta de uso. Ninguém os recolheu, ninguém os extinguiu. Foram perdendo as forças, debilitados pela fuga da fidelidade dos primeiros tempos, até   perderem a capacidade de amedrontar e coagir as pessoas, no “ir e vir” de suas ideias e de suas fantasias cidadãs. E de encorajar reações tomadas por ímpetos de rebeldia de seus antigos e fiéis serventuários.
Esse vácuo foi sendo preenchido, na universidade, por competências mal definidas, pelo anseio de liberdade que a todos animava, cada um segundo as suas crenças de raiz. Houve o que um crítico bem cultivado chamou de “socialização” do poder acadêmico, com a partilha de atribuições e a transferência de precedências da cúpula às bases guerreiras e inovadoras.
O poder da universidade, antes consubstanciado na reitoria e no seu agente principal — o reitor –,”primus inter pares”, cedeu o passo a instâncias secundárias, departamentos, coordenações, “coletivos” informais e entidades sindicais, articuladas internamente e integrantes de “federações”  supra-universitárias, para além do território do Estado.
Não se diga que, em uma universidade “democrática” e “popular”, essa seria a regra esperada que se cumprisse um dia. E que os hiatos de poder pudessem ser ocupados, internamente, com desprezo pelas exigências do mérito e das imposições da competência intelectual e científica. Que os desafios da gestão administrativa, financeira e acadêmica devessem constituir atribuições de uma grei de “escolhidos”, recrutados em meio à militância ideológica, atendesse ela a qual bandeira lhe ocorresse por simples e ajuizada preferência.
Mais ainda, mas não é tudo, que a docência e as atividades a ela associadas se realizassem segundo um incontornável processo de cissiparidade, de auto-reprodução assistida, segundo a lógica de cooptação, fonte de um perverso “imbreading” interno. E que, por fim, essa reprodução em ruidosas famílias ideológicas se operasse por lealdades induzidas, segundo ritos tradicionais que espelhassem licenças de liberdade que devessem ser tomadas a sério e piamente acreditadas.
Esse cenário, tão incerto quanto mutável, parece condenado a mudanças inesperadas, na universidade brasileira, neste surpreendente século XXI. A intolerância que parece ter-se assenhoreado das jovens cabeças e de muitos de seus mestres inspiradores, numa confusão de emoções e conceitos mal fixados, contamina indistintamente e de forma crescente a universidade.
Nobreza, clero e povo inquietam-se e, à falta dos instrumentos da racionalidade e do bom senso, induzem as autoridades a falas incongruentes sobre matéria que parecem desconhecer – e buscam expulsar a “baderna” da universidade, amputando-lhe os meios de sua subsistência, quando não comparam os seus custos ao leite das crianças e aos cuidados que lhe são devidos às creches do Estado. E expulsam a filosofia e a sociologia pelos males causados à humanidade.
Junto com a água da bacia, essas desveladas  criaturas não percebem que lançam a criança fora, com a espuma de seu banho…
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