
Sempre fui desportista. Quando jovem participei de campeonatos cearenses na categoria juvenil e fiz parte do elenco da seleção cearense universitária que participou do brasileiro em 1994. Também fui dirigente esportivo. Na Associação Esportiva Tiradentes, cheguei a ser presidente, e no Fortaleza Esporte Clube, fui diretor e responsável pela operação de segurança dos jogos. Esta foi, com certeza, a maior experiência que vivi dentro do futebol.
Em dois anos, vi o meu clube de coração sair da terceira para a primeira divisão do futebol brasileiro. Também acompanhei a volta da sua grande torcida aos estádios. O aconchegante estádio Presidente Vargas, o nosso querido PV, já não comportava o público que aumentava a cada vitória, a cada acesso. A presença feminina e o retorno das famílias mostravam que as pessoas se sentiam mais seguras naquele ambiente. Ao final de cada campeonato, não éramos vencedores apenas dentro do campo, mas também campeões de público e arrecadação. Talvez essa tenha sido uma das conquistas mais difíceis. Afinal, pesquisa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro aponta que 68% das pessoas não vão ao estádio de futebol por medo da violência.
Tenho ouvido, nesses últimos dias, várias pessoas (ditas desportistas) acreditarem que o futebol cearense vai à falência, caso não haja a venda de bebidas alcóolicas nos estádios. É como se todo o esforço dos clubes em montar grandes equipes e obter bons resultados não fossem suficientes. A ganância pelo lucro embriaga essas pessoas, que acreditam poder ganhar mais se os seus torcedores ingerirem bebida alcóolica, mesmo ampliando a probabilidade de casos de violência dentro desse ambiente cheio de emoção e paixão. Esses mesmos que pregam que a liberação do álcool nos estádios trará receita para as agremiações e para o Estado do Ceará, ocultam que, segundo a OMS, o Brasil perdeu em 2014, 7,3% do PIB (R$ 372 bilhões) com problemas relacionados ao consumo dessa substância, ao passo que só arrecadou 1,3% do Produto Interno Bruto. Portanto, o lucro é privado, mas o custo é social!
O Projeto de Lei, proposto pelo Deputado Evandro Leitão, propõe transformar todos os estádios de futebol do nosso Estado em verdadeiros bares. Esse projeto não atingirá apenas o público dentro do estádio, mas afetará diretamente os índices de violência no estado do Ceará, que tem a sua capital, Fortaleza, como a segunda cidade mais violenta do Brasil e a sétima mais violenta do mundo. O propositor esquece também que nem só de Arena Castelão vive o futebol cearense, e que existem outros estádios, todos em situação precária, no nosso carente interior. Além do mais, é inquestionável a estreita relação entre o uso de bebidas alcoólicas e a violência.
Confirmando essa relação direta da violência com o álcool, estatísticas das polícias civil e militar, revelam que após a proibição da comercialização e consumo de bebidas alcoólicas nos estádios, o estado de Pernambuco, São Paulo e Minas Gerais tiveram respectivamente uma redução do número de ocorrências de conflitos da ordem de 63% (PE), 57%(SP) e 45%(MG).
O Centro Integrado de Operações de Segurança (CIOPS), que utiliza o número de emergência 190, tem quase 50% das suas chamadas para o tipo de ocorrência “embriaguez e desordem”. Na delegacia da mulher, a maioria dos casos envolvendo violência doméstica conta sempre com a presença do álcool como indutor desses atos reprováveis. Da mesma forma, a grande maioria das pessoas que se envolvem em atos de vandalismo e violência dentro do estádio, segundo os boletins de ocorrências da delegacia que funciona no estádio Castelão, agem sob efeito do álcool (sim, existem pessoas que burlam a segurança e ingerem bebidas alcoólicas dentro do estádio, assim como usam outros tipos de drogas). A exemplo do primeiro jogo da final do campeonato cearense, onde uma pessoa arrancou uma das cadeiras do estádio e lançou contra a torcida adversária. No seu termo de declarações, o torcedor assumiu que cometeu o seu ato de vandalismo sob efeito de bebidas alcoólicas.
Chega a ser ingênua (se não houvesse interesse financeiro) a afirmação de algumas pessoas que defendem a venda de bebidas alcóolicas para os torcedores nos estádios de futebol. Há argumentos de toda espécie, desde o respeito a liberdade individual em detrimento à paz social; passando por questões de saúde pública pois, segundo essas pessoas a bebida vendida dentro do estádio será de melhor qualidade (chega a ser hilário); e a mudança de comportamentos sociais, justificando que o cearense só chega atrasado no estádio porque não tem bebida dentro. Parece que essas pessoas acreditam que a bebida nos transformará em cidadãos britânicos.
Na verdade, a liberação da venda de bebidas alcóolicas nos estádios de futebol afastará o torcedor ordeiro, as mulheres e as famílias de dentro dos estádios, acarretando prejuízos aos clubes. Além de aumentar a possibilidade de levar a violência para dentro de um local onde pulsa emoção e paixão.
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