A mulher de César, por Ricardo Alcântara

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Ricardo Alcântara é escritor e publicitário. 

Por Ricardo Alcântara
A célebre passagem na vida do imperador romano é lembrança recorrente quando se dão episódios como o de agora. No caso da prisão de um hacker que teria captado e repassado ao site The Intercept centenas de mensagens entre membros do Ministério Público pelo aplicativo Telegram, recomenda a referência citada que o ex-juiz Sérgio Moro renuncie ao cargo de ministro da Justiça, temporariamente que seja.
Não é preciso gastar muito latim para constatar quão necessário se faz, de sua parte, um gesto de grandeza. Moro é, a um só tempo, o protagonista de todo o caso (como juiz dos fatos levantados pela operação Lava Jato), a principal vítima dos vazamentos (da correção funcional de seus atos depende a própria manutenção das sentenças proferidas) e, agora, o chefe do órgão (parte interessada, portanto) que investiga quem interceptou suas mensagens, como o fez, a serviço de quem, a quem transmitiu e, se houve, qual o caráter da recompensa e, mais importante, sua autenticidade.
Em favor de si mesmo, como demonstração pública de que nada teme porque nada deve, deveria o ministro isentar-se por completo de qualquer vínculo funcional com a apuração porque chegou aquele momento em que, tão importante quanto ser honesto, é parecê-lo. Com isso, diminuiria a pressão da opinião pública sobre o curso investigatório e pouparia o governo com o qual colabora de ser arrastado ainda mais do que já foi para o centro de uma crise que, pelo menos aparentemente, não lhe pertence, embora sejam recorrentes as ilações de que, enquanto juiz, Moro houvera colaborado para o êxito eleitoral do seu atual chefe ao liberar, em pleno segundo turno, uma passagem de maior impacto da delação premiada do ex-ministro da Fazenda de Lula da Silva, Antonio Palocci.
Caso mantenha-se atado à cadeira de ministro, Moro sujeita-se a outros atropelos, além daqueles já verificados até aqui, quando declarou que os vazamentos capturados envolvem diversos personagens de todos os poderes, causando mal-estar porque sugeria, com isso, buscar solidariedade coletiva, para, logo em seguida, por força da repercussão provocada, esclarecer que os conteúdos seriam apagados, decisão de flagrante ilegalidade e que, anunciada pelo chefe do órgão investigador, fere a autonomia da Polícia federal.
Desde que fora prestar esclarecimentos no congresso nacional, Sérgio Moro já se retirou duas vezes de suas atividades rotineiras: na primeira, foi aos EUA no exercício do cargo sem divulgar, como recomenda a lei, sua agenda de trabalho e, poucas semanas depois, voltou àquele país com licença para tratar de assuntos particulares. O ministro está tenso. O modo reflexo e inapropriado como reagiu à captura dos hackers, antecipando sua ligação com o episódio do The Intercept mesmo antes que a Polícia Federal, em sua autonomia, julgasse o melhor momento para trazer o fato a público, demonstra que o ex-juiz perdeu a serenidade para lidar com o caso de modo a favorecer suas posições e a imagem do governo a que presta serviço.
Moro deveria ir passar uns dias em casa. Faria bem a ele, ao governo e ao país.
 

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Horas antes da prisão, Vorcaro enviou mensagem a Moraes, que respondeu no modo visualização única

Vorcaro teve prisão decretada em 2020, mas instituições falharam e a porta se abriu para os crimes em série

Apostas bilionárias e suspeitas antecipam ataque dos EUA ao Irã

Café da Serra de Baturité recebe selo nacional de Indicação de Procedência

Freio de arrumação no governismo do Ceará: ambições e a difícil engenharia da chapa de 2026

MP dos datacenters caduca e ameaça planos no Ceará, incluindo planos do projeto de R$ 200 bi no Pecém

Camilo, a missão, o ruído e o desconforto de Elmano

TikTok e Omnia contestam laudo do MPF sobre Datacenter de R$ 200 no Pecém

Do jeito que vai, eleição presidencial vai ser decidida pelo eleitor “nem-nem”

A política de segurança, a lógica do crime e os gigolôs da violência

PPP do Esgoto no Ceará: R$ 7 bilhões para universalizar saneamento em 127 cidades

Genial/Quaest: Lula segue com desaprovação maior que aprovação e perde fôlego entre independentes

MAIS LIDAS DO DIA

Países da AIE aprovam liberação recorde de 400 milhões de barris de petróleo em meio à guerra no Oriente Médio

Indústria de alimentos e bebidas fatura R$ 1,39 trilhão e representa 10,8% do PIB

Banco Central inicia retirada gradual das primeiras cédulas do real

Presidente da CPMI do INSS pede revisão de decisões do STF sobre depoimentos

Fortaleza registra maior inflação do país em fevereiro, aponta IBGE

Governo anuncia pacote para reduzir preço do diesel e conter impacto do petróleo