
Em certas terras, o sicário é apenas aquilo que sempre foi na história: um matador de aluguel. Alguém que recebe para executar a vontade de outro. No Brasil, contudo, essa figura parece ganhar uma nuance curiosa, quase paradoxal. Aqui, em alguns episódios, o sicário não apenas mata. Ele também termina por se matar.
O roteiro se aproxima de algo que, à primeira vista, pareceria um crime perfeito. O mandante não aparece. O executor cumpre sua tarefa e, logo depois, desaparece da própria história. Tudo termina no mesmo ato. Nenhuma testemunha. Nenhuma voz que permaneça para contar o que realmente aconteceu.
Mas a perfeição do crime quase sempre existe apenas na imaginação de quem acredita controlar todos os fios da trama.
Há uma dimensão humana que escapa aos cálculos mais sofisticados. O inconsciente guarda rastros. A memória coletiva preserva sinais. E a própria realidade, com o passar do tempo, começa a produzir pequenas fissuras naquilo que parecia hermeticamente fechado.
A verdade raramente surge de forma espetacular. Na maioria das vezes ela reaparece lentamente, como uma maré silenciosa que avança sobre a areia. Primeiro aparecem perguntas desconfortáveis. Depois surgem incoerências. Mais adiante, detalhes que já não se encaixam na versão oficial dos fatos.
A mentira pode vestir muitas roupas e circular com aparente segurança durante algum tempo. Mas ela depende de esforço constante para permanecer de pé.
A verdade, ao contrário, tem uma característica curiosa. Ela não precisa correr. Caminha devagar, mas carrega consigo a persistência do tempo.
Talvez por isso tantos personagens seduzidos pelo poder e pela riqueza acabem acreditando na própria invulnerabilidade. Passam a imaginar que são intocáveis, que suas versões prevalecerão para sempre, que nenhum limite se aplica a eles.
A história, no entanto, costuma ser menos complacente com esse tipo de convicção.
Porque, no fim das contas, nenhuma pátria pertence aos sicários.
Pertence sempre ao tempo que, silenciosamente, se encarrega de recolocar cada coisa em seu lugar.







