
Há 20 anos, um centro educacional funciona no município de Aquiraz (CE), em uma infraestrutura composta por várias unidades independentes, construídas em diagonal, com uma arquitetura que potencializa a luz natural e a ventilação, dispostas de modo harmônico e sequenciado, rodeadas por vegetação e coadjuvadas por duas quadras esportivas. Está encravada em uma comunidade socialmente vulnerável, com indicadores sociais precários incluindo aqui, a violência.
A escola tem foco no ensino de Português e Matemática para crianças, em turmas pequenas, com tratamento quase que personalizado. Trata-se da face mais visível da Fundação André Haguette, que mantém o Parque de Formação Integral do Tapuio, onde a escola está encravada. A instituição tem como mantenedores o professor André Haguette e sua esposa Regina Jaguaribe — o sobrenome de uma ramificação do sociólogo e advogado Hélio.
André Haguette é um intelectual de renomada, ajudou a formar várias gerações e foi o responsável por introduzir na Universidade Federal do Ceará, através do Curso de Ciências Sociais, o pensamento de Max Weber. Por isso, muitos se referem a ele como weberiano — o que é verdade — embora seu pensamento dialético esteja cheio da transversalidades. Quando Weber virou modismo na UFC e Marx foi, digamos, “largado”, André Haguette passou a dar disciplinas e cursos sobre o pensamento de Karl Marx.
Canadense de nascimento André adotou o Ceará desde chegou aqui, no início dos anos 1960. Não resistiu àquela coisa “caliente” dos trópicos que reposiciona verdades fundamentalistas e até mesmo a fé cristã. Sua pátria, desde então, é o diverso e multifacetado Brasil.
Pois é o ‘ex-canadense’ André — com seu biotipo ortodoxo de ‘homem branco’ — quem mantém desde há muito essa maravilha em Aquiraz. É, sem dúvida, um sacerdócio e não é fácil mantê-la. A fonte de renda deste homem de vida franciscana — que nunca acumulou reservas financeiras ao longo da vida — é o magistério na UFC. O equipamento filantrópico tem uma várias unidades independentes na mesma área física construídas de modo harmônico com a natureza. São várias salas de aula, refeitório, duas quadras esportivas rodeadas por área verde inseridas no meio da comunidade do Tapuio.
Quem conhece fica impressionado com a densidade dessa obra social.
O casal Haguette faz esse trabalho longe dos holofotes, sem ajuda pública. Tapuio — uma comunidade pobre com graves indicadores sociais, inclusive de segurança — é a região do Aquiraz que mais aprova jovens nos vestibulares.
Uma das unidades da Escola é o Teatro que foi palco durante muitos anos para as aulas e montagens de Silvero Pereira ator que mais tarde iria atuar sob os holofotes da central de dramaturgia da TV Globo, no Rio de Janeiro.
‘Low profile’, há 20 anos Haguette mantém em silêncio essa atividade focada na educação infantil. Teme se expor e ser confundido com aqueles políticos que usam seus “feitos” em educação como mera alavanca eleitoral. Por isso vê como um problema “político” potencial naquela Escola, qualquer presença do Estado. Mas certamente aceitaria de bom grado ajuda do setor privado. O custeio da Escola está sempre no fio da navalha, sai unicamente do bolso do casal André e Regina. Solidário, um empresário do setor de alimentos faz doação mensal de mantimentos em um valor de cerca de R$ 800,00. Todos os meses, o próprio André vai pegar a doação no depósito da empresa. Teórico de densas argumentações Haguette é, fora da academia, um homem de uma práxis humanista, contrariando aqueles que se satisfazem apenas nas pregações em um plano teórico meramente utópico.
Haguette é tão ‘low profile’ que pessoas do seu circulo da convivência acadêmica e influenciadores na sociedade do Ceará não tem a menor noção do seu trabalho social, principalmente da qualidade e da profundidade na área da educação junto à comunidade tão vulnerável quanto aquela do Tapuio. Um trabalho de muitos anos em uma estrutura arquitetônica com várias unidades e vários equipamentos que saíram da sua própria imaginação. A aversão a publicidade faz com que a Fundação sequer tem um sítio no mundo líquido da Internet. [Argumento que o site na internet é muito importante como canal de comunicação e de transparência].
Hoje, além de cursos profissionalizantes, todos gratuitos, a Escola atende cinquenta crianças com foco em Português e Matemática. “Se as crianças dominam essas duas matérias, o resto vem”, afirma, com ênfase, a professora que, há anos, frequentava os bancos escolares daquela mesma casa. A escola tem uma capacidade instalada para atender, pelo menos, 200 crianças.
Em um momento difícil — mais complicado que o padrão de financiamento regular da Escola — Haguette enviou cartas a alguns empresários cearenses mostrando o trabalho da Fundação e solicitando apoio. Somente um empresário respondeu dizendo que não ajudaria porque já recolhia alta soma em impostos aos cofres públicos. PHD em uma universidade americana, todos os anos André recebe uma carta solicitando contribuição financeira de ex-aluno; retribui de bom grado com modesta doação. Mas, no Brasil, a história é outra: todos acham que o “ensino público e gratuito” é responsabilidade somente do Estado.
Como disse Hillary Clinton, no título do seu livro, “It takes a village” — é preciso um vilarejo para criar — e educar — um filho.







