A rotina dos massacres, por Rui Martinho

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

Massacre em penitenciária é rotina. Prisões são controladas pelo crime. Funcionam como sede do comando e centro de recrutamento de facções. O tempo passa e a situação se agrava. Fazem-se protestos diante da situação desumana dos presídios, quase tão superlotados e degradados quanto alguns hospitais públicos. A situação destes, porém, não gera tantos protestos. Nos preocupamos com a população carcerária, cuja situação é calamitosa. O controle das prisões pelo crime, porém, gera menos protestos.
O controle de bairros pelo crime é total. Famílias podem ser despejadas de suas casas. Normas tais como abaixar vidros dos veículos, ligar luzes internas e apagar os faróis são estabelecidas pelas facções. Sentimentos humanitários exigem que presos perigosos permaneçam próximos de suas áreas de atuação, lugar dos seus laços com o crime. Oferecemos visitação sem o isolamento do parlatório, ensejando a coação de visitas a colaborar com o crime, situação que levou ao crescimento exponencial da população carcerária feminina. Fazem-se protestos contra “prisões em massa” e melhores condições de vida nos presídios. Mas só temos prisão mediante ordem judicial dirigida contra pessoas nominalmente citadas, não “em massa”. Reformas nas leis penais e processuais penais são reivindicadas.
As leis aludidas, porém, são as mesmas em todos os estados e os índices de criminalidade nas unidades federadas variam enormemente. As condições desumanas dos presídios também não diferem muito entre Estados. Prioridades enfrentadas na hora de alocar recursos criam situação dramática. Mais recurso para melhorar a vida dos presos viriam de mais déficit público, educação, saúde, segurança pública, infraestrutura de transporte e energia ou salário de servidores públicos? Devemos pensar em usar mais racionalmente os recursos disponíveis. Assim o desafio se desloca para a gestão dos presídios e da segurança pública.
Não prendemos em massa. Prendemos mal. O grande número de prisões decorre dos altos índices de criminalidade e do cumprimento da lei. Não temos leis draconianas. Condenados até quatro anos não são metidos no cárcere, adotamos penas alternativas e um regime de progressão da execução penal que está longe de ser severo. Temos ainda a prescrição tanto da pretensão punitiva como da pretensão executória da pena. Procedem as críticas quanto a multiplicação de tipos penais e o alongamento de algumas penas. Não é a severidade da punição que desencoraja o crime, mas a certeza da aplicação lei (Cesare Bonesana, Marquês de Beccaria, 1738 – 1794).
O nó górdio do problema é a impunidade. Mais de 90% dos crimes letais permanecem impunes. Temos feito investimentos na Polícia Administrativa (Polícia Militar), deixando a Polícia Judiciária (Polícia Civil) em segundo plano. É um erro pensar que a polícia administrativa pode evitar os crimes pelo policiamento ostensivo. Crimes jamais serão inteiramente evitados pela omnipresença de policiais. É preciso esclarecer a autoria dos crimes para puní-los e desestimular as práticas delitivas.
Prendemos mal. A gestão dos presídios expõe presos desvinculados às facções ao domínios destas nos presídios. A policia judiciária (investigativa) deveria sufocar as organizações criminosas, com a colaboração do COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), se o STF permitir, bloqueando suas atividades financeiras.
A Teoria da Janela Quebrada demonstrou que a situação de abandono estimula o crime. Ruas esburacadas, lixo acumulado, esgoto a céu aberto e impunidade denotam abandono. Presídios entregues ao crime são a forma mais grave de abandono. Devemos reconhecer que a situação é extraordinária, é de conflagração, exige leis extraordinárias – de validade transitória – e que a legislação concernente a execução penal deve ser aperfeiçoada.

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Inédito: Flávio vence Lula no 2º turno, aponta AtlasIntel

Lula lidera, mas sob desgaste e o centro deve definir 2026

A van está virando ônibus? União Progressista pende ao governismo e redesenha 2026 no Ceará

Enfim, intituições funcionam e põem fim ao “passaporte do barulho” em Fortaleza

Horas antes da prisão, Vorcaro enviou mensagem a Moraes, que respondeu no modo visualização única

Vorcaro teve prisão decretada em 2020, mas instituições falharam e a porta se abriu para os crimes em série

Apostas bilionárias e suspeitas antecipam ataque dos EUA ao Irã

Café da Serra de Baturité recebe selo nacional de Indicação de Procedência

Freio de arrumação no governismo do Ceará: ambições e a difícil engenharia da chapa de 2026

MP dos datacenters caduca e ameaça planos no Ceará, incluindo planos do projeto de R$ 200 bi no Pecém

Camilo, a missão, o ruído e o desconforto de Elmano

TikTok e Omnia contestam laudo do MPF sobre Datacenter de R$ 200 no Pecém

MAIS LIDAS DO DIA

Lula lidera, mas sob desgaste e o centro deve definir 2026

Inédito: Flávio vence Lula no 2º turno, aponta AtlasIntel

Priscila e a disputa pela disputa ao Senado

No ataque ao PT, Girão abre frente contra a “direita fisiológica”