Aculturação forçada, por Rui Martinho

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

Comunicadores, professores e intelectuais empreendem uma cruzada pela mudança cultural, uma luta por um mundo melhor. Querem mais tolerância, menos violência e menos desigualdade (confundida com diferença). Desqualificam comportamentos e valores tradicionais como preconceituosos, ignorância ou próprios de personalidades violentas, sem respeito pelo diferente e o mais vulnerável. Até criminalizam os valores tradicionais. Os que assim procedem se colocam como mais esclarecidos, moral e intelectual superiores, como herdeiros do iluminismo. O relativismo cultural é uma das bandeiras destes “esclarecidos”, sem embargo da contradição entre esta ideia e a suposta superioridade da presunção de esclarecidos.
A campanha pela mudança cultural quer aculturar os tradicionalistas, substituindo suas referências pelas concepções modernas ou pós-modernas. Injustiças, desigualdades, intolerância e violência seriam afastadas. Mas o processo de destruição da cultura desorienta, gera resistências, ofende, acirra ânimos e incrementa a violência. Índios que passam por aculturação apresentam altos índices de suicídio, alcoolismo, desinserção social e violência. Quando os índios somos nós, integrantes do mundo ocidental, o fenômeno tem as mesmas características. Imigrantes passam por culturação e apresentam maiores índices de violência e desajustes sociais diversos.
Os defensores do relativismo cultural se mostram incoerentes quando pretendem promover a aculturação dos tradicionalistas. O relativismo aludido tem fundamento na ausência de superioridade das culturas quando comparadas entre si. A superioridade dos supostamente evoluídos precisaria promover uma melhor convivência do indivíduo consigo mesmo; com o outro e com a natureza, como prelecionam Sérgio Paulo Rouanet (1934 – vivo) e Alain Touraine (1925 – vivo). Tal não acontece. Mas o relativismo em apreço tem limites. Matar crianças recém-nascidos por serem gêmeos ou albinos, como prática cultural, não deve ser tolerado.
Ressalvadas as exceções (vida, integridade física e a liberdade) é preciso respeitar os valores das tradições culturais. Mudança cultural forçada fracassa em seus objetivos. Não promove a paz, mas a violência que acompanha a aculturação. Não expressa o respeito e a tolerância que prega, pois desqualifica o outro como preconceituoso, ignorante, violento ou machista. Gera reação violenta e acirramento dos ânimos, conforme os índices de violência. Não promove felicidade. Não é mais correta cientificamente. Práticas tradicionais são naturalizadas pelo costume. Não incomodam a quem as tem como referência. Não promove a felicidade. Culturas pertencem ao campo da metafísica, não ao mundo da ciência. Os novos valores não têm superioridade científica. A imposição de novas referências, inclusive pela criminalização de condutas, é oficialização de consciências, moral estatizada, convertida em ortodoxia. Destrói a liberdade de consciência, expressão e crítica. É o réquiem da democracia.
Desqualificar conceitos como “preconceitos” ultrapassa o limite da crítica respeitosa. É errado. Preconceito não é a moral do outro. É juízo de valor formulado antes de conhecer o objeto da cognição. Juízo sobre o que se conhece é conceito. Pode ser criticado, mas desqualificá-lo com adjetivos pejorativos é agressão incompatível com a pregação de paz e amor. Novos valores não têm base no antropocentrismo, pois tentam modificar costumes. Não têm arrimo no cosmocêntrismo, pois não se demonstra que estejam escritos no cosmos. Não são revelação teocêntrica. Não são científicos. Representam o interesse em adaptar pessoas ao modo de vida moderno, à produtividade, consumo e competitividade e ajustar a mulher ao “apito da chaminé de barro” (Noel Rosa, 1910 – 1937), submetendo todos ao consumismo. Foi a revolução industrial e a mobilização dos homens para a guerra que modificou os costumes, não a promoção da felicidade ou de relações justas. Não somos mais felizes do que no passado.

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