Agenda luso-cearense: um pé lá outro cá

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Rômulo Alexandre Soares é advogado, sócio da firma Albuquerque Pinto Advogados e vice-presidente da Federação das Câmaras de Comercio Exterior. Escreve quinzenalmente para o Focus.jor

Por Rômulo Alexandre Soares
focus@focuspoder.com.br
Participei na semana passada de um evento promovido pela Câmara Brasil Portugal no Ceará, organizado para mostrar como investir naquele país ibérico. Chamou-me a atenção a sala da Federação das Indústrias lotada, num claro sinal de como a combinação de crises no Brasil – econômica, segurança e política – afetou profundamente a confiança no país e tem feito muita gente, com alguma ou pouca poupança, pensar em emigrar para o exterior.
Naqueles minutos que antecederam o início dos trabalhos lembrei-me que deixar o lugar onde você mora e emigrar para o estrangeiro não é uma decisão fácil. Eu próprio senti na pele. Nasci em Moçambique durante uma curta passagem do meu pai a trabalho antes de retornar a Angola. De Luanda, forçados por uma guerra civil, seguimos para Lisboa, capital de um país empobrecido que, na segunda metade dos anos 1970, não olhava com bons olhos os “retornados” que vinham das ex-colônias africanas. Ficamos em Portugal pouco tempo, antes de, no início dos anos 1980, fugindo da crise, seguirmos para um país de grandes oportunidades: o Brasil. 
Abrindo o evento, saudei os presentes alertando que a Câmara não estava fazendo um convite para os empresários que estavam ali deixarem o Brasil; mas aproveitarem a proximidade com Portugal para darem passos rumo à internacionalização de seus negócios. O país de oportunidades ainda é aqui nestas terras, dito por muitos portugueses que tiveram grande fortuna em empreender no Ceará, como o patriarca da família Dias Branco, o Sr. Manuel. Recordei que 2007 Portugal passou por uma grave crise de confiança com marcas que resistem até hoje.
Apesar de ser atualmente um dos melhores países para se viver no mundo, nos últimos 10 anos os portugueses ativos e aposentados, dos setores público e privado, tiveram seus salários reduzidos e muitos jovens talentos, tal e qual jovens de outras gerações no passado, seguiram para outros países para poder progredir. Houve um árduo e sacrificante trabalho para consertar (em parte) as contas públicas e um gesto de servir muito grande da maioria dos portugueses. Foi preciso cortar na carne de cada português, não muito diferente do que haverá de ocorrer no Brasil para ultrapassarmos a crise de hoje.
Falou-se do Portugal 2020 que permite a empresários de qualquer parte do mundo que venham a empreender em Portugal, obter financiamento de parte expressiva dos recursos para rodar o negócio; e do Golden Visa, que assegura a residência a estrangeiros que adquirem um imóvel acima de quinhentos mil euros ou cerca de metade disso se investem na atividade produtiva, gerando emprego ou alavancando setores estratégicos para a economia portuguesa. São excelentes alternativas para a internacionalização e disponíveis para brasileiros.
Se, do ponto de vista familiar, colocar os dois pés em Portugal parece fazer sentido – por causa da sensação de segurança e qualidade dos serviços públicos de educação e saúde –  do ponto de vista empresarial parece-me fazer mais sentido ainda, colocar apenas um pé lá e manter o outro no Brasil.
Portugal é uma porta para um mercado de 500 milhões de europeus de uma razoável renda per capita; mas o Brasil é uma porta para um mercado de outros 200 milhões de consumidores, num país em que há muito por fazer em termos de infraestruturas e de consumo.
É possível que a crise brasileira, que em décadas atrás, direcionou o mercado para as exportações, desta vez, provoque uma saída maior de capitais na forma de investimento externo direto. Aliás, Portugal, atualmente, já é o maior destino de capitais produtivos brasileiros, do qual se destaca a Embraer. Isso poderá ajudar a criar uma cadeia virtuosa de internacionalização entre empresas brasileiras e portuguesas.
Nos resta torcer para que a crise no Brasil não se demore e um acordo entre a União Europeia e o Mercosul saia do papel. A combinação desses dois pontos seria muito importante para a afirmação econômica da atual relação luso-brasileira.

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