
Por que importa: em vídeo gravado na sede do PSDB, diante de uma foto histórica de Tasso Jereissati e com o Parque do Cocó ao fundo, Ciro Gomes deixou de lado a ambiguidade e fez a mais clara admissão pública até agora de que pode disputar o Governo do Ceará em 2026. A gravação foi postada nas redes sociais da deputada estadual Dra. Silvana e do deputado federal Dr. Jaziel, casados e membros do PL.
O que ele disse:
Ciro vinculou sua posição diretamente ao que considera ser uma crise da segurança pública, corrupção política e impunidade.
“A violência hoje é um espinho espetado no coração de toda a família cearense… e a solução passa por uma mudança profunda. Primeiro combater a corrupção. Não adianta se a elite política está roubando.”
Em seguida, fez o que nunca havia feito de forma tão explícita: admitiu que sua decisão de voltar às urnas está em curso.
“O juízo disse para eu não ser mais candidato, mas o coração está muito balançado… se for minha responsabilidade com gente boa assim, eu não vou fugir.”
Na linguagem política brasileira, isso equivale a um sim condicionado, mas público.
O cenário:
O local e a composição da cena foram tudo, menos neutros. Ciro aparece ladeado por dois parlamentares de perfil evangélico conservador bem peculiar ao que a crônica política chama de bolsonarismo: o deputado federal Pastor Jaziel e a deputada estadual Dra Silvana. A fala se deu após encontro na sede do PSDB do Ceará, partido histórico de Tasso e antigo eixo do poder no Ceará que elegeu Ciro para o Governo em 1990.
O que disseram os parlamentares:
O tom adotado pelos dois aliados foi marcadamente religioso e, digamos, messiânico, ecoando o estilo retórico típico do bolsonarismo.
Pastor Jaziel citou diretamente o livro de Daniel:
“O Senhor é o Senhor que remove reino e estabelece reino. Então, esse reinado aqui vai ser removido do Ceará para ser colocado outro reinado.”
Na prática, ele enquadra o atual governo como um poder ilegítimo que será substituído por vontade divina, configurando uma retórica incomum no campo cirista tradicional, mas comum no universo evangélico-político. Silvana seguiu na mesma linha, falando em “libertar o povo” e em “novo tempo”, vocabulário clássico de campanhas religiosas de mobilização.
Em tempo: O Livro de Daniel significa fidelidade a Deus em tempos de adversidade, revelando a soberania divina sobre os reinos humanos e a esperança do Reino eterno de Deus, através de histórias de coragem (Daniel na cova dos leões) e visões proféticas sobre impérios e o fim dos tempos, incentivando os crentes a permanecerem firmes na fé, mesmo sob pressão cultural e perseguição.
O que isso revela:
Ciro está construindo algo novo: formar uma frente política heterodoxa, unindo:
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o legado tucano de Tasso,
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sua própria biografia de centro-esquerda nacionalista,
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e agora um núcleo evangélico conservador, de direita, com linguagem de cruzada moral. O slogan que ele próprio verbalizou resume isso:
“Nós precisamos salvar o Ceará.”
Não é uma frase administrativa. É uma frase soteriológica (Ciro está entre os poucos que podem conhecer o sentido do termo), palavra que vem do grego sōtēría, que significa salvação. Na prática, quando algo é chamado de soteriológico, quer dizer que ele fala não de política pública ou gestão, mas de redenção, libertação, “salvar um povo”, livrar do mal, da decadência ou do pecado.
Entre as linhas:
Ao dizer que “o juízo” manda não ser candidato, mas que “o coração” o empurra, Ciro dramatiza sua decisão como um sacrifício, não como ambição. Essa é a gramática clássica de quem quer voltar ao poder sem parecer que quer o poder.
Mais a fundo
A fala não foi um anúncio formal, mas foi uma autorização pública para que sua candidatura passe a ser tratada como real. Tanto que Jaziel e Silvana parecem ser surpreendidos com a forma do anúncio e até comemoram ao final.






