
O que aconteceu
Um dia antes de Estados Unidos e Israel lançarem um ataque contra o Irã, um movimento atípico chamou atenção na Polymarket, uma das maiores plataformas globais de mercados preditivos. Na sexta-feira, mais de 150 contas realizaram centenas de apostas de ao menos US$ 1 mil prevendo corretamente um ataque americano no sábado. A informação foi publicada pelo The New York Times.
Os números que acendem o alerta
- US$ 855 mil apostados na véspera do ataque
- Pelo menos 16 contas lucraram mais de US$ 100 mil cada
- 109 contas ganharam acima de US$ 10 mil
- Uma carteira anônima transformou US$ 60 mil em quase US$ 500 mil
Desde o fim do ano passado, já haviam sido negociados US$ 529 milhões em apostas sobre quando os EUA voltariam a atacar o Irã.
Segundo análise do New York Times, apostas robustas para “o dia seguinte” eram raras ao longo do período analisado.
O mercado não previa o ataque
Apesar do pico de apostas, os preços dos contratos indicavam que o ataque era considerado improvável:
- As probabilidades variaram entre 7% e 26% na sexta-feira.
Quem apostou “sim” multiplicou o capital quando a ofensiva ocorreu.
Informação privilegiada?
O economista Eric Zitzewitz, de Dartmouth, afirmou que o volume “faz pensar que alguém sabia algo sobre o timing”. Não é a primeira vez que a plataforma enfrenta suspeitas:
- Em fevereiro, autoridades israelenses prenderam militares acusados de usar informações internas para apostar em operações.
- O senador Chris Murphy classificou esses mercados como “insanos” e sugeriu que até tomadores de decisão poderiam ter interesses financeiros — sem apresentar provas públicas.
A Casa Branca rejeitou a hipótese.
Anonimato e rastreamento
As apostas na Polymarket usam criptomoedas e ficam registradas em blockchain. Ou seja, são públicas, mas anônimas. A empresa de análise Bubblemaps identificou seis contas que movimentaram US$ 1,2 milhão nas horas críticas. Muitas eram novas e negociaram especificamente o evento “ataque até sábado”. Especialistas afirmam que identificar os responsáveis é “praticamente impossível”.
Questão regulatória
A Commodity Futures Trading Commission (CFTC) proíbe mercados de previsão sobre guerra em território americano. A Polymarket opera com restrições a clientes dos EUA, mas listou o mercado iraniano em sua plataforma principal. A concorrente Kalshi não ofereceu contrato semelhante.
O outro lado
Há explicações plausíveis:
- Trump já sinalizava possibilidade de ação militar.
- Houve conversas diplomáticas na quinta-feira.
- Traders podem ter reagido a rumores ou redes sociais.
- Investidores podem ter buscado hedge contra risco geopolítico.
Ainda assim, o padrão concentrado e o timing das apostas mantêm a dúvida no ar.
Por que isso importa
Mercados preditivos são vendidos como instrumentos de “inteligência coletiva”.
Mas quando envolvem guerra, levantam três riscos centrais:
- Uso de informação privilegiada
- Incentivos financeiros ligados a decisões militares
- Possível exposição de planejamento estratégico
A fronteira entre previsão e conflito de interesses nunca pareceu tão tênue.





